Brasil 2014, a Copa do turismo

Mesmo sendo eliminado da Copa da África do Sul nas quartas de final, o Brasil não deixou de ser um dos gigantes do futebol. Mesmo que não fature o caneco em casa, em 2014, não perderá seu posto de maior campeão de todos os tempos (no máximo pode ser igualado pela Itália). Na Copa do Mundo de 2014, o que estará em jogo para o Brasil é a chance de se tornar grande no turismo internacional.

Ricardo Freire, turista.profissional@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2010 | 04h06

Com apenas 5 milhões de visitantes estrangeiros, o Brasil tem um terço do turismo internacional da Tailândia e metade do da África do Sul. O que isso afeta a você e a mim? Sem realizar o seu potencial, a indústria do turismo brasileiro não ganha escala suficiente e os preços (já prejudicados pelo câmbio e pelo custo Brasil) permanecem altos. O prejuízo da sociedade é ainda maior, porque o turismo é o melhor empregador (e treinador) de mão de obra local e pouco qualificada; é o tipo de atividade que consegue capilarizar mais rapidamente seus resultados.

E 2014 é uma oportunidade única, porque a festa do futebol vai se realizar não só no país da bola, como no país da festa. É relativamente fácil convencer o mundo de que não dá para perder a oportunidade de estar aqui em algum momento do evento. Aqueles quatro dias impossíveis de reservar no carnaval do Rio de repente se transformarão em 30 dias que podem ser curtidos em qualquer lugar do país.

Discute-se muito o que vai ser dos estádios depois da Copa. Mas o grande legado que 2014 pode dar ao Brasil é finalmente abrir os postos ao turismo internacional. Aqui vão alguns pequenos pitacos.

Desvincular a Copa dos ingressos. A Copa do Brasil precisa ser mais parecida com a da Alemanha, quando a viagem valia mesmo para quem não tinha ingresso, do que com a da África do Sul, que só se materializava para quem conseguisse estar no estádio. A Fifa provavelmente impedirá o uso da palavra e da marca Copa em cidades que não sejam sedes, mas o Brasil precisa ser criativo e estender o "clima de Copa" a todos os lugares turísticos. Isso já ocorre normalmente por aqui, não importa em que canto do planeta o Mundial se realize. Numa Copa em nosso território, será ainda mais natural.

As cidades e os Estados sem-Copa podem - devem - decretar carnaval fora de época. Um carnaval de festas, de eventos, de oportunidades para quem quiser descobrir o Brasil e compartilhar esse momento único com os brasileiros. É bem possível, tendo em vista as dificuldades de infraestrutura e logística das cidades-sede, que os turistas estrangeiros aproveitem mais a Copa fora dos estádios. Pode ser a doce vingança das cidades preteridas.

Encarar como investimento de

marketing. Que hoteleiros, companhias aéreas, operadoras e agências de receptivo lembrem-se do Réveillon do Milênio. Devido ao câmbio e aos impostos, o Brasil já é um país caro; exorbitar nos preços não vai levar a lugar nenhum. A Copa de 2014 vai se realizar numa época de baixa e média temporada - estar de casa cheia já vai ser uma novidade para a maioria dos "players". Não é hora de espantar, mas de atrair um público novo, que pode trazer muito mais gente - e, com o tempo, tornar a indústria do turismo menos dependente do turista doméstico e das férias escolares brasileiras.

Oferecer soluções na internet. Se hoje boa parte das viagens já são decididas pela internet, em 2014 não haverá outra maneira de viajar. O turismo brasileiro ainda não sabe se vender na rede - nem mesmo para o viajante brasileiro, que dirá para o estrangeiro. A Copa pode ser um bom catalisador para que as coisas aconteçam. Se o candidato a visitante encontrar fácil na internet pacotes, hotéis, passagens de ônibus e avião - alô, companhias aéreas: que tal unirem esforços para fazer um Air Pass? -, será bem mais fácil concretizar a sua viagem.

Fazer a maior festa de todos os tempos. Dominamos totalmente o know-how das grandes celebrações. Fazemos festas incríveis sempre que queremos. A Copa de 2014 vai ser mais uma delas - e pode ser a mais inesquecível de todas. Basta termos em mente que, desta vez, não seremos apenas participantes: seremos anfitriões. E precisamos receber bem a todos - incluindo milhares de argentinos (e uruguaios, paraguaios, chilenos) que deverão invadir o Brasil por terra. O mundo já aprendeu a gostar do Brasil dentro do campo. Chegou a hora de mostrar que fora dele também podemos ser campeões. M

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