Matt Stroshane
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Mônica Nobrega
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Brasileiros na Disney?

Com dólar alto e profunda crise econômica e social, ir ou não à Disney é o menor dos problemas da imensa maioria de trabalhadores de qualquer profissão no Brasil

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2021 | 03h00

Os Estados Unidos anunciaram na semana passada que vão reabrir as portas em novembro para turistas totalmente vacinados contra a covid-19, inclusive brasileiros. A data exata da reabertura e as vacinas que serão aceitas ainda não foram divulgadas. 

Os parques da Disney em Orlando estão entre os destinos preferidos dos brasileiros que viajam de férias aos Estados Unidos. O mais icônico deles, o Disney Magic Kingdom, completou 50 anos na sexta-feira, 1º de outubro. Esse aniversário será comemorado ao longo de um ano, em um megaevento chamado de “A Celebração Mais Mágica do Mundo”.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, já disse que o dólar alto levaria as pessoas a conhecerem mais o Brasil, em vez de viajarem ao exterior. Disse que deveríamos passear em Foz do Iguaçu ou nas praias do Nordeste. Parece que faz muito tempo, mas isso foi no ano passado, em fevereiro. Empregada doméstica indo à Disney, na fala do ministro, era uma “festa danada”. Na ocasião dessa fala, o dólar tinha fechado a R$ 4,35, recorde na ocasião. Hoje, está R$ 5,36. 

Por causa do dólar alto, uma passagem para Orlando está custando pelo menos R$ 2.300, o equivalente a dois salários mínimos no Brasil. O ingresso unitário do Magic Kingdom sai por US$ 109, o que dá cerca de R$ 580 reais, meio salário mínimo. Multiplique esses custos pelo número de pessoas de sua família para concluir o óbvio: atualmente, é uma viagem cara para brasileiros. 

Em outubro de 2021, ir ou não à Disney é o menor dos problemas não apenas das empregadas domésticas, mas da imensa maioria de trabalhadores de qualquer profissão no Brasil. Na semana passada, a imagem de pessoas em fila para receber doação de ossos bovinos em Cuiabá escancarou, mais uma vez, a profunda crise econômica e social em que o país se encontra.

Não temos conta milionária em paraíso fiscal: nosso problema atual é a fome. Estudos recentes, como o do Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, e o da Rede Penssan (Rede Brasileira em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) divulgados no primeiro semestre mostraram que mais da metade dos domicílios brasileiros viveram algum grau de insegurança alimentar durante a pandemia.

A reabertura das fronteiras dos Estados Unidos é uma boa notícia. Consequência direta do aumento da cobertura vacinal, que vem reduzindo contaminações e mortes por covid-19. Vacinas funcionam, estão ajudando a controlar a pandemia (que ainda não acabou, vale lembrar). Da mesma forma, a grande e prolongada festa de 50 anos do Disney Magic Kingdom é um fato turístico muito legal. 

A outra boa notícia que espero ansiosamente é a garantia de dignidade a todas as famílias brasileiras - que poderão, então, sonhar com as coisas boas da vida, como férias felizes na Disney, em Foz do Iguaçu, na praia, onde quiserem.

 

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