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Brasileiros pelo mundo

Quando as histórias de sete imigrantes brasileiros se cruzam

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2019 | 04h30

Joana emigrou para os EUA sonhando em enriquecer com um negócio de pão de queijo. Mudou-se para uma simpática rua no Queens. Só no quarteirão da casa dela outros dois brasileiros tiveram a mesma ideia. Ninguém mais aguenta pão de queijo na América do Norte.

 Teresa foi trabalhar em um coffee shop em Amsterdã. Nunca colocou um cigarro na boca. Mas aprendeu todo o vocabulário necessário para ser a melhor funcionária do lugar. Teresa passa os dias tomando chá e vendendo maconha.

Paulo é dog walker em Berlim. Ganha mais passeando com os cães na Alemanha do que dando aula no Ensino Médio em Campinas. Semana passada, deixou um poodle escapar. O pet atravessou o Portão de Brandemburgo e foi atropelado por uma bicicleta. O ciclista fugiu. Paulo vai ter de mudar de ramo. Ou voltar a dar aulas no Brasil.

Tomás é um ilegal em Berlim. Trabalha fazendo bicos. A grana é pouca, mas conheceu uma alemã. Quer se casar com ela. Na semana passada, atropelou um poodle no Portão de Brandemburgo. Fugiu com medo de complicações com a polícia. E não contou nada para a alemã. Faz cinco dias que tem pesadelos com a deportação.

Fabiana arrumou uma fantasia de Minnie e foi defender um troco na Broadway. Ficava lá esperando algum turista querer fotografá-la. Cada clique rendia um dólar ou dois. Dia desses, viu que outra Minnie estava roubando seus clientes. Foi tirar satisfações. As duas Minnies saíram rolando pela calçada. No meio da briga, os cabeções das fantasias foram arrancados. Fabiana reconheceu sua algoz. No Brasil, moravam na mesma cidade. Eram quase vizinhas.

Lucas foi para a Espanha atrás de um amor virtual. Ao chegar em Madri, descobriu que a garota era uma senhora de 85 anos. Ficaram amigos. Ele começou a ensinar português para ela. Mês passado, ela faleceu. Lucas herdou um apartamento e uma boa quantia em dinheiro. 

Simone foi professora de zumba em Porto Alegre. Depois de um acidente doméstico, largou a dança e foi tentar a sorte no estrangeiro. Escolheu Budapeste porque sonhava em conhecer o Rio Danúbio. Com menos de 6 meses, ela teve a ideia de criar uma agência de viagem para cadeirantes, pessoas com dificuldades de locomoção e brasileiros em geral. 

Joana e Fabiana ainda se divertem com a lembrança do dia em que, fantasiadas de Minnie, saíram rolando pela Broadway. Agora, refeitas, comemoram o encontro fortuito daquele dia. Depois dele, abriram um pequeno negócio de personal shopping para brasileiros em Nova York. O empreendimento vai tão bem que elas já estão querendo expandir para outros países. 

Teresa estava tomando o seu chá quando reparou em Tomás. O rapaz fumava demais, mas tinha cara de gente boa. Eles se reconheceram como compatriotas. Tomás contou que havia fugido de Berlim com medo de ser deportado depois de ter atropelado um cachorro. Teresa achou graça e disse que talvez pudesse ajudá-lo: “Se você prometer não atropelar mais nada, conheço uma oficina para consertos de bicicleta que está precisando de alguém”. Ele se interessou pela proposta e ainda mais por Teresa.

Deprimido, Paulo começou a usar a internet para conhecer pessoas. Recentemente, começou a conversar com um brasileiro que mora na Espanha. Gostou tanto do Lucas que não demorou em se abrir – e contar detalhes de sua vida. “Tudo desandou depois que eu deixei um poodle escapar e ele foi atropelado.” Lucas convidou-o para passar um fim de semana em Madri. 

Simone esqueceu que estava em uma conversa por vídeo e saiu do personagem: levantou-se de sua cadeira de rodas. Joana e Fabiana tentaram disfarçar o desconforto. Simone abriu o jogo e disse que a cadeira de rodas ajudava a vender os seus pacotes de viagem. As três concordaram. Agora, os serviços de personal shopping também seriam oferecidos em Budapeste. Em contrapartida, a agência de Simone começaria a operar em NY. 

Teresa ficou com Tomás. Lucas casou com Paulo. Os quatro foram passar a lua de mel em Nova York. Coincidentemente, acertaram um pacote de viagem com a agência da Simone – que pediu para Joana e Fabiana oferecerem todo o suporte possível para os seus primeiros clientes brasileiros na América do Norte.

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