Brilho de Ásia com sotaque português

Arquitetura colonial, arranha-céus repletos de luzes piscantes, mão inglesa no trânsito. E uma população que fala, veja só, cantonês. Eis o curioso mix de Macau

Adriana Moreira, MACAU

22 Junho 2010 | 02h19

Colorido cultural. Cassinos como o Grand Lisboa iluminam e embeleza a noite em Macau.

 

 

A placa indica que estamos no Largo do Senado. À frente, as Ruínas da Igreja de São Paulo surgem atrás de uma longa escadaria. Subir é preciso e, lá do alto, a panorâmica revela um belo centro colonial. Ao fundo, arranha-céus repletos de luzes piscantes, cada um querendo chamar mais a atenção que o outro. Portugal? Não. Brasil? Muito menos. Tamanha peculiaridade só seria mesmo possível em Macau.

Peculiar, aliás, é a melhor definição para essa península asiática. Imagine o centro de São Paulo, com o Pátio do Colégio e arredores repletos de lojas do bairro da Liberdade. Mas com funcionários portugueses, vendendo pastéis de nata e biscoitos amanteigados. Deu para entender? Não? Explica-se.

A colonização portuguesa, a partir de 1557, fez do centro de Macau uma verdadeira réplica de cidades como Paraty. Por isso, a arquitetura nesta parte vai parecer bastante familiar a nossos olhos de irmãos de colonização. A região, no entanto, foi devolvida à China em 1999, como uma Região Administrativa Especial (SAR, na sigla em inglês). Ou seja: apesar de território da China comunista, Macau pode continuar com seu sistema capitalista. Ao menos até 2049.

 

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O português seguiu como uma das línguas oficiais, mas vai ser muito difícil encontrar alguém que fale algo de nosso idioma por lá além do nome das ruas. Nas placas, elas estão também em cantonês, este sim o idioma mais falado.

Para bagunçar ainda mais, os carros circulam na mão inglesa. Mas encontrar alguém no comércio com fluência no idioma, como ocorre em quase toda Hong Kong, logo ali ao lado, é mais difícil. Pedir informação pode se transformar em uma missão complicada. E muitos restaurantes não têm sequer uma pessoa que fale o idioma.

Recorre-se, então, aos primórdios da comunicação: apontar, sorrir e contar com a sorte. Costuma dar certo. Mais difícil é conseguir um táxi. Muitos motoristas não param para ocidentais, com medo de não poderem se comunicar. Lugares concorridos, como o porto e os gigantescos hotéis-cassinos à la Vegas, costumam ter longas e demoradas filas para os carros.

 

 

História e religião. As ruínas da Igreja de São Paulo são visitadas por turistas do mundo todo.

Não que os turistas chineses, os principais frequentadores dos cassinos de Macau, se abalem muito com isso. Talvez por estarem sempre disputando espaço com 1 bilhão de conterrâneos, eles cortam filas com a mesma naturalidade com que manejam os palitinhos nas refeições.

Só para entender como funciona esta lei da selva: a pessoa que estava atrás de mim na quilométrica fila do táxi do Cassino Grand Lisboa tentou tantas vezes entrar no veículo, digamos, fora de sua vez, que acabou deixando espaço suficiente para que pelo menos outras quatro pessoas lhe cortassem a frente. Irônico, não?

Tudo a pé. Considerações feitas, prepare-se para explorar o centro histórico - Patrimônio da Unesco, diga-se - a pé. Se vier pelo porto, pegue um táxi direto para a Fortaleza do Monte, construída entre 1616 e 1627. Entre os canhões, uma placa escrita em português traz um recado para os recrutas: "...Entra altivo e de cabeça erguida porque és soldado dessa pátria".

 

O forte integra o complexo jesuíta onde estão as Ruínas da Igreja de São Paulo, destruída por um incêndio em 1835. A área acabou se transformando em parque, frequentado pelos moradores.

 

Vá descendo em direção ao Largo do Senado, onde se destaca o lindo prédio do Leal Senado, com sua parede branca e grandes janelas pintadas de verde escuro. Garanta sua foto e saia caminhando a esmo pelo centrinho. Ali estão as mais variadas lojas, que vendem de quinquilharias estilo R$ 1,99 a eletrônicos. De itens de decoração chinesa talhados em madeira a doces portugueses feitos na hora. De enlouquecer.  

 

 

Preservado. À noite, com o colorido das luzes, o movimento no Largo do Senado é grande.

 

   

Perdendo-se um pouco mais pelas ruelas, você vai descobrir que a Travessa dos Anjos concentra o comércio de roupas alternativas e modernas.Nesta área, ao contrário das lojas dos cassinos, não há grifes: só jovens estilistas. Mais alguns passos levam à Travessa da Sé, uma simpática praça com igreja do século 17, fonte e banquinhos para descansar.

De repente, escondido em uma ruela, surge um lindo painel de azulejos portugueses. O olhar atento revela o que não poderia ser encontrado em nenhuma outra parte do mundo: os desenhos retratam a rotina de um povoado chinês. Só mesmo em Macau.

 

LINHA DO TEMPO

 

 

 

Habitada por pescadores vindos da Península do Cantão, Macau teria sido descoberta aos olhos ocidentais em 1513, pelo navegador luso Jorge Álvares - cuja estátua encontra-se no centro da cidade. Apesar disso, os portugueses só iriam se estabelecer na região depois de 1554.

 

Assim como no Brasil, os jesuítas quiseram disseminar a fé cristã entre os orientais e fundaram, no século 16, o Colégio São Paulo (destruído em um incêndio em 1835). Macau se tornou importante entreposto comercial até 1841, com a entrega de Hong Kong à Inglaterra na vitória da Guerra do Ópio.

 

Em 1999, Portugal devolve Macau à China. No acordo, a ilha passa a ser uma Região Administrativa Especial pelos 50 anos seguintes e pode manter sistema econômico independente, seguindo o capitalismo. O português se mantém como uma das línguas oficiais .

 

 

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