Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Bruges

Berço dos primitivos flamengos

Mônica Nobrega, Haia

15 Maio 2018 | 03h07

O coração ficou dividido assim que pisei em Bruges, terceira parada na Bélgica do nosso roteiro artístico. Cadê vontade de me enfiar nas salas fechadas de um museu, mesmo que a promessa fosse mais um monte de Van Eyck, se do lado de fora estavam aqueles canais lindos e um fim de tarde gelado, mas azul e luminoso?

Bruges é uma das cidades mais belas da Europa e provavelmente do mundo. Pelos canais, construídos a partir do século 12 para o transporte de mercadorias, hoje navegam barcos turísticos (leia abaixo). Ruas e casas medievais seguem preservadas, algumas em restauração, exibindo o estilo gótico feito de tijolos de diferentes padronagens que registram a sobreposição dos séculos. O centro histórico é Patrimônio da Unesco desde 2000.

No século 15, Bruges foi o berço dos primitivos flamengos, muito graças à disponibilidade de ricos comerciantes de financiarem a artistas. Jan Van Eyck (1390-1441) foi um dos pintores que se beneficiaram deste arranjo.

“Primitivos flamengos” era uma expressão que eu vinha escutando até aquele momento da viagem pela região de Flanders sem ainda entender muito bem seu significado. Mas a dúvida foi magistralmente esclarecida diante de A Virgem e o Menino com o Cônego Joris Van der Paele, no Museu Groeninge. Estava tudo lá. A representação naturalista dos personagens. Cores vivas, perspectiva. O detalhamento extremo das texturas que fazem o manto vermelho da Virgem parecer um pedaço real de tecido. Não é de estranhar que Jan Van Eyck tenha demorado dois anos para terminar o quadro, de 1434 a 1436, depois de receber a encomenda do tal cônego que pagou pela obra. 

O mesmo caso de financiamento e as mesmas características estéticas definem o Tríptico da Família Moreel (1484), outra dentre as obras mais importantes do acervo do Museu Groeninge. O autor Hans Memling, que morreu em 1494, também é destaque entre os primitivos flamengos. 

A cada três anos. O ano de 2018 traz uma programação que deixa Bruges ainda mais bonita e deliciosa de se visitar porque resolve o dilema dentro/fora. Começou na semana passada e vai até 16 de setembro a segunda Trienal de Artes. A ideia é povoar canais e ruas com esculturas e instalações criadas por artistas e arquitetos. 

Nesta edição, sob o tema Cidade Líquida, são 15 obras de grande porte. A mais curiosa delas é chamada de What’s Eating the Chinese Mitten Crab? (“o que come o caranguejo mitten chinês?”), do coletivo de arquitetos Rotor, baseado em Bruxelas. Trata-se de uma reflexão ambiental e cultural sobre a proliferação de caranguejos chineses nos canais de Bruges. A espécie é uma iguaria na China, mas está se tornando um problema ambiental na cidade belga. Há inclusive um bar temporário servindo degustações do caranguejo na área portuária de Zeebrugge.

Visitantes mais tradicionais podem preferir os bares com mesas ao ar livre ao longo dos canais. É o jeito mais gostoso de admirar a beleza escancarada de Bruges: degustando uma boa cerveja belga. 

Outros passeios em Bruges

Canais 

Uma cidade de pontes e canais entre construções medievais e jardins: poderia ser Veneza, mas é Bruges, que por isso também acabou virando sinônimo de romantismo. Passeios de barco e até uma ou outra gôndola operam das 10h às 18h, a partir do Cais do Rosário (Rozenhoedkaai). 

 

Torre Belfry 

Com 83 metros, a torre mais alta de Bruges foi construída no século 13, abriga um carrilhão com 47 sinos e é aberta ao público – são 337 degraus a pé até lá em cima.

 

Beguinage 

Em meio a um jardim de álamos muito altos e calçamento de pedras, uma fileira de casas brancas abrigava, no século 17, mulheres que não queriam se casar, nem se dedicar à vida religiosa. A essas moradias específicas dava-se o nome de beguinages. Hoje, vivem algumas freiras por ali, junto com mulheres que precisam se inscrever para morar. Por 2 euros, é possível visitar umas das casas por dentro.

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