Juliana A. Saad
Juliana A. Saad

Butão, um pequeno (e feliz) país encravado no Himalaia

No pequeno reino asiático, a felicidade está na qualidade de vida, e não no poder de consumo - e para mantê-lo assim, o turismo é bastante restrito. Veja como visitá-lo

Juliana A. Saad, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2018 | 05h00

Diz a lenda que o guru Rinpoche chegou ao alto da montanha do Vale de Paro, no Butão, no dorso de uma tigresa, daí o nome Ninho do Tigre. Sol a pino, céu azul, bandeiras de oração coloridas e brancas dançam ao vento e rodas de oração são giradas ao longo da subida, enquanto a luminosidade e o ar puro do Himalaia se mostram surreais. O acesso é íngreme e o ar, rarefeito, mas a paisagem é absurdamente bonita. Ao longo do caminho, pessoas de todas as idades e nacionalidades trocam olhares de camaradagem e perguntas: “falta muito?”, “foi difícil?”, “vale a pena?”.

Muito! Mais célebre monastério do Butão (abriga sete templos), Paro Taktsang foi construído no século 17 no local onde Rinpoche, guia espiritual e introdutor do budismo no país, meditou no século 8.º por três anos, três meses, três dias e três horas. Suspenso em um penhasco de 3.120 metros de altitude, requer aproximadamente duas horas de caminhada para chegar até ele, mas parte do caminho pode ser feito em mulas. É o grande destaque do Butão.

No meio dos Himalaias

Regido pelo rei Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, de 38 anos, o último reino do Himalaia e suas montanhas com altos picos nevados, como o Monte Chomolhari (7.314 metros), é um esplendor. O Butão tem 47 mil quilômetros quadrados de área e fica aninhado entre a Índia, ao sul, e o Tibete, que é território autônomo da China, ao norte. É contornado pela Cordilheira do Himalaia (nome que significa morada da neve, em sânscrito), com picos que espetam o céu a mais de 7 mil metros de altura nas áreas fronteiriças da cadeia montanhosa. Tem, ainda, planícies baixas ao sul, florestas e rios que cortam caminho por entre vales e desfiladeiros, tornando-o um dos mais remotos e intocados lugares da Terra.

No Butão, não há como rodar sem guias. Para nossa sorte, um cara sorridente e vestido com o tradicional traje masculino do país, o gho, foi nos receber no aeroporto internacional de Paro (o único), com seu espanhol perfeito e o desejo genuíno de compartilhar sua origem, vida e cultura no reino budista. Era Chendu, o guia que nos acompanhou nessa jornada pelo país da felicidade. Ao longo dos dias de convivência com ele, mais o motorista Jogmi e ainda com Jigme Tenzin, Sonam, Yang Chen, Yanki e todas as pessoas que cruzaram nosso caminho, fomos entendendo que a gentileza em sua forma mais pura é marca desse povo adorável.

Na estrada

A distância do aeroporto de Paro até a capital do Butão, Thimphu, nosso primeiro destino, é de 50 quilômetros. As rodovias do Butão são ótimas, em mão inglesa. Ao longo da estrada, a paisagem revela vales recortados por rios de águas azuis claras que vêm do Himalaia e se juntam aos rios Thimphu (Wang Chu) e Paro (Pa Chu). E em Chuzom, na confluência das águas, três estupas (monumentos budistas que, aqui, também são chamados chortens) em estilos diferentes – tibetano, nepalês e butanês – erguem-se na margem direita, um lugar com energia muito alta. Pouco antes de chegar a Chuzom, avistamos um templo no topo de uma colina, Tschogang Lhakhang, construído no século 13 por Thangthong Gyalpo, um belo exemplo da arquitetura tradicional do país.

Ali, o som surpreendentemente calmo da revoada de bandeiras de oração é a trilha sonora para o cenário que parece intocado pelo tempo. Um fato curioso é que essas tradicionais bandeiras, sempre em cinco cores, são penduradas horizontalmente. No Butão, no entanto, existem também as verticais, brancas, presas em uma longa estaca de madeira. 

No centro de cada bandeira está impresso um símbolo predominante, o cavalo-do-vento (lungta), que, dizem, carrega a iluminação que preenche os desejos. Um pouco adiante, já de volta à estrada, um outdoor com o casal real sorridente nos dá as boas-vindas à principal cidade do país. Chegamos a Thimphu.

 

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.