Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão

Cabo Frio: muita história e esporte no DNA

A sétima cidade fundada no Brasil, em 1615, é também o berço das atuais campeãs nacionais de canoa havaiana e principal polo do "surfe nas dunas" no sudeste

Bruna Toni, O Estadão de S. Paulo

15 Novembro 2016 | 05h55

CABO FRIO - O sol tímido se escondia e anunciava o fim da tarde de um dia em que havia garoado várias vezes. Aquecia assim os pescadores que seguiam o caminho das pedras, literalmente, até a beira do Canal do Itajuru, onde lançavam suas varas para, quem sabe, fisgar uma boa tainha naquele caminho d’água de 6 quilômetros de extensão, entre a Lagoa Araruama e o Oceano Atlântico.

Apesar de a água ser esverdeada à la Caribe – sorte do dia, já que o fenômeno da ressurgência pode deixá-la com cor de caldo de cana –, não queria colocar os pés no gelado. Por isso, permaneci sobre a plataforma de madeira do Morro do Arpoador ou mirante do Forte São Mateus, onde o cenário é ideal aos turistas e suas selfies.

Erguido durante a gestão de Martim de Sá, o pequeno forte pode ser visitado a qualquer momento, com ou sem pescaria, antes ou depois de um passeio pela agradável Praia do Forte, que a fortaleza protegia da entrada de saqueadores a partir do segundo decênio do século 17.

Menos pelas dimensões e mais pelo cronologia, fortes são parte importante da história de Cabo Frio que, ao que se sabe, abrigou a primeira das fortalezas-feitorias do País, o Forte de Santo Inácio, construído por portugueses sobre uma ilhota próxima ao porto de Araruama. Foi a partir dele que, cerca de cem anos após a chegada de Américo Vespúcio às terras batizadas de Gecay pelos índios tupinambás, fundou-se o município de Santa Helena do Cabo Frio. Era 1615 e apenas a sétima cidade do Brasil. 

 

Para mergulhar nos séculos seguintes, caminhe por um estreito trajeto de casas cujos pés de laranja, amora e pitanga tornam ainda mais charmosas as fachadas. Ele leva ao primeiro bairro da cidade, Passagem, onde fica a Igreja de São Benedito, casa espiritual de negros libertos e pescadores no século 19, quando foi construída. Dependendo de onde estiver, pegar um táxi aquático (a partir de R$ 5) pode ser a melhor forma de ir de um bairro a outro.

Símbolo da desigualdade social e da cultura das classes mais pobres que ali viviam, hoje a pequena igreja abre apenas quando há festas, mas é parte essencial do cenário envolvente das apresentações do jongo da Tribal (Associação Cultural Tributo à Arte e à Liberdade) e da roda de samba Santo Samba.

Nos últimos domingos do mês, os dois grupos incentivam a cantoria e a dança livre no meio da Praça São Benedito, contagiando jovens, idosos, pais e filhos pequenos noite adentro – alguns mais desinibidos até arriscam passinhos –, além dos clientes dos bares do entorno, que fazem jus à fama boêmia do bairro.

 

Essa não é, porém, a parte mais urbanizada da cidade. A Igreja Matriz e o comércio cabofriense estão concentrados na Avenida Assunção, onde também está o Charitas – Museu e Casa de Cultura José de Dome, uma antiga casa de caridade que recebia crianças abandonadas no século 19 e acabou se tornando um amplo espaço cultural, com exposições permanentes e temporárias, palestras, música e artesanato. Abre de terça a domingo, das 14h às 19h.

Religiosos ou aficionados por arte e história, aliás, podem aproveitar a agenda cheia do Museu de Arte Religiosa que funciona no espaço do Convento de Nossa Senhora dos Anjos, em Cabo Frio, cuja pedra fundamental é de 1686.

Já mais perto do Canal do Itajuru, a Rua dos Biquínis satisfaz com 150 lojas os desejos de consumo dos turistas interessados na moda praia e na moda fitness. É possível que você encontre novidades legais por lá – há peças de R$ 10 a R$ 200 e o espaço abre de domingo a domingo.

Na década de 1950, a atriz Tônica Carrero procurava ali o cantinho da costureira Dona Nilza para fazer seus biquínis. Trinta anos depois, já com mais empresários do ramo instalados no local, a via se transformou na Rua dos Biquínis de hoje, um dos pontos mais visitados da cidade. 

 

CABO FRIO MAIS NATURAL

Lugares para desfilar biquínis e maiôs não faltam em Cabo Frio. São 14 praias com paisagens e públicos variados e um ponto em comum: o mar gelado. 

Enquanto as praias do Foguete e das Dunas atraem praticantes do surfe à vela, a Praia Brava recebe adeptos do naturismo, e a Peró abraça os orgulhosamente preguiçosos. Quem não gosta, afinal, de sentar num quiosque à beira-mar para degustar frutos do mar e uma boa cerveja?

A Praia do Peró este ano ganhou aval para tentar conquistar o certificado internacional de sustentabilidade Bandeira Azul – só seis praias no País têm tal reconhecimento. Aqui também se faz um dos passeios mais aventureiros de Cabo Frio. Por uma trilha no Morro da Vigia (ou do pau-brasil, nos tempos em que a árvore existia no local), é possível ter uma vista em 360 graus dos contornos naturais da Região dos Lagos.

 

A trilha é organizada pelo Circuito Peró Mais, um projeto com alunos da Escola Municipal Evaldo Sales, liderado pelo turismólogo e ambientalista Paulo Bayer e a coordenadora da escola, Priscila Ramalho. Com conhecimentos de fazer inveja a qualquer geógrafo, as jovens – naquela ocasião, sem um único garoto – nos guiaram pela trilha das Pitangueiras até a Gruta do Sargento e a Praia das Conchas, explicando cada formação rochosa, ilha isolada, vegetação curiosa, como cactos de cabeça branca e casuarinas finas.

A caminhada de três horas sai por R$ 48, incluindo camiseta, água e almoço. Para fechar, o grupo ainda apresenta a centenária Barraca do Jamil, que resistiu às pancadas da água do mar e se tornou ponto turístico. Mariana Liriel, de 14 anos, aspirante a turismóloga, conta: “Uma cena da (novela) Avenida Brasil foi gravada aqui”.

 

Antes de o dia acabar, um passeio de barco pelo Canal do Itajuru poderá render um dos retratos mais bonitos da viagem. Em meio ao manguezal, uma infinidade de garças fazem das ilhotas do Parque Estadual Costa do Sol seu dormitório. O evento pinta o céu de branco e rosa sempre no mesmo horário, todo santo dia. Ali, o pôr do sol também é majestoso.

Agências como a Guga Tour fazem o roteiro de 1 hora (R$ 25). Indo até a Ilha do Japonês, prolonga-se o passeio para 1h30 (R$ 40). 

 

CABO FRIO MAIS GASTRONÔMICA

A ala masculina da família do garçom e barman cearense Antônio Mesquita Pinto faz carreira no Restaurante Picolino, um dos mais antigos de Cabo Frio. Inaugurado em 1975 num casarão com paredes feitas de cal, óleo de baleia e pedra, cuja parte interna ainda preserva a decoração do passado, o restaurante conta com os serviços do senhor de 78 anos há 31. E do sobrinho e do neto dele também, um de 35, o outro de 16.

É esse clima familiar que faz do Picolino uma referência gastronômica para moradores e turistas fiéis à cidade, incluindo artistas, como Mario Lago e Jaguar, responsável por logo do local. O cardápio é variado, mas os pratos mais procurados são à base de frutos do mar – experimentei um filé de cherne e camarão gratinado dos deuses (R$ 93).

 

 

Da nostalgia do passado a um ambiente moderninho e despojado, mesmo longe da orla, o Delírio’s  é parada obrigatória. Localizado no bairro Ogiva, funciona numa espécie de casa de campo, com a parte interna composta  de azulejinhos coloridos e bebidas à vista, toda iluminada pela luz do sol. Do lado de dentro ou no jardim, há a possibilidade de comer ou beber uma caipirinha exclusiva da casa, com kiwi, manga e morango – o colorido do copo a batizou de Jamaica (R$ 33).

Alguns de seus pratos são criações próprias, inclusive porque o restaurante participa do Sabores de Cabo Frio, um festival gastronômico que em 2016 chegou à segunda edição e 40 restaurantes participantes.  Uma dica: se escolher o prato do Delirio’s desse ano, o camarão vietnamita, acompanhado de arroz negro com casacas de coco e creme de abóbora, peça um vinho branco para harmonizar (R$ 68 o prato).

 

 

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