Cacau estrela nova rota

Desde que o fungo vassoura-de-bruxa arrasou as plantações de cacau da região de Ilhéus, em 1989, os coronéis e as cidades da Costa do Cacau começaram a falir. E o que antes era riqueza virou sinônimo de decadência, afugentando os turistas, que apenas desembarcavam no Aeroporto Jorge Amado de passagem para outras praias.

Alline Dauroiz, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2012 | 03h11

Foram quase 20 anos de recessão, mas, felizmente, essa realidade vem mudando. Hoje, Ilhéus sonha ser também a terra do chocolate fino - ideia apoiada por eventos como o Festival Internacional do Chocolate da Bahia, que ocorreu lá de 28 de junho a 2 de julho. Com as novas tecnologias genéticas, a produção está crescendo. E o "fruto de ouro" volta também como protagonista de uma nova rota turística.

Lançados há quase um ano, os Caminhos do Cacau e Chocolate levam o visitante a conhecer a produção do fruto, que, curiosamente, é feita da mesma maneira há mais de um século. Estão previstas visitas a fábricas de chocolate e paradas para experimentar (e comprar) os subprodutos do fruto, do qual tudo se aproveita - o mel da fermentação para licor ou geleia, a polpa que vira suco e a casca, nas originais caipirinhas de cacau, ou "caipicacau".

O turista conta ainda com passeios até cachoeiras e comunidades como a Vila Juerana, que dança bumba meu boi e produz fuxico, e o Quilombo D'Oiti.

Mas coisa fofa mesmo são as preguiças do Centro de Recuperação do Bicho Preguiça, na reserva zoobotânica da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, em Itabuna. É lá que as bichinhas salvas do desmatamento são tratadas e, muitas vezes, devolvidas à mata. Não é raro encontrar a bióloga responsável Vera Lúcia de Oliveira com uma preguiça pendurada no pescoço. Mas não se engane: apesar de adorarem um abraço, os bichos têm pelo grosso feito piaçava e, se for segurar um deles, é preciso ter cuidado com as compridas garras.

Memórias. Conta-se que, lá pelo ano de 1889, um explorador de minério carioca, bruto feito Lampião, chegou à Fazenda Almada, em Uruçuca (a 1h30 de Ilhéus), querendo comprá-la, mas o coronel Pedro Augusto Cerqueira Lima não fez gosto em vender. Irritado, o explorador juntou 40 jagunços para arrasar a fazenda e, só de pirraça, mandou um dos capangas cortar a cabeça e as mãos da imagem de Santa Rita, padroeira do lugar. Mas a Fazenda Almada (fazendaalmada.com.br; day use a R$ 150 o casal, com almoço) conseguiu se reerguer. Dizem que, anos mais tarde, o jagunço teve uma das mãos amputadas e o tal explorador acabou degolado no Rio.

Se a história é lenda, impossível saber, mas a imagem da santa com a cabeça colada e sem as mãos continua no altar da casa grande, e a história enriquece os almoços servidos na antiga louça da família Cerqueira Lima, contada pela dona da propriedade, a simpática Elizabeth.

Depois da crise do cacau na década de 1990, as famílias dos antigos coronéis viram no turismo uma fonte de renda. E, com comida típica, hospitalidade e boas histórias passaram a abrir suas terras a preços bem acessíveis.

Até pouco tempo, as fazendas mais famosas e estruturadas a receber visitas eram a Primavera e a Renascer - ambas usadas como cenário da novela da Globo Renascer (1993). Porém, a cada dia mais propriedades rurais abrem suas portas ao turismo.

Na Fazenda Provisão (fazendaprovisao.com.br; R$ 500 o fim de semana em casa para seis a oito pessoas), única da região que oferece hospedagem, móveis e objetos da época transportam o visitante ao início do século passado, enquanto o almoço é servido em um quiosque com vista para as barcaças de secagem do cacau. Ali, também é possível andar na roça e fazer trilha que leva a um orquidário natural na Mata Atlântica - preservada, para garantir o sustento das plantações de cacau, feitas sob as árvores centenárias. / ALLINE DAUROIZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.