Caiaque e câmera a postos no Rio Uruguai

Casal pretende percorrer e fotografar todo o curso d'água (1.180 km já foram vencidos). Em janeiro começa a última etapa

O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2008 | 01h34

São 2.030 quilômetros, quase a mesma distância entre as capitais paulista e de Sergipe, Aracaju. Mas o caminho não é de asfalto, e sim formado pelas águas do Rio Uruguai. Nelas, a fotógrafa Juliana Falchetti, de 26 anos, e o arquiteto Eduardo Rogério, de 30, estão realizando o sonho de percorrer, de caiaque, toda a extensão de uma das vias fluviais mais importantes do País. Outro item importante nessa jornada é a máquina fotográfica, sempre pronta para captar instantâneos surpreendentes do curso d?água. "O rio está em constante mudança. Estou tirando fotos de alguns lugares ainda não documentados e de outros que vão desaparecer", explica Juliana. Batizada de Deixa o Rio Me Levar (www.deixaoriomelevar.org), a expedição fotográfica partiu de Campos Novos, em Santa Catarina, em 3 de janeiro. Na primeira etapa foram percorridos 530 quilômetros em 23 dias. O casal de remadores teve o suporte, por terra, de um carro conduzido por parentes, que providenciavam alimentos e roupas secas. "Remamos, em média, 25 quilômetros por dia. Mas o mais cansativo era montar o acampamento", diz a fotógrafa. A segunda fase da viagem começou no ponto de chegada anterior, na cidade gaúcha de Derrubadas, em 4 de julho. Sim, em pleno inverno. O frio foi um estímulo para acelerar o trajeto. Foram 650 quilômetros em 20 dias - uma média de 40 quilômetros de remadas diárias. Mas, dessa vez, a dupla contou com reforço. Carlos Rogério e Elton Júnior, pai e primo de Eduardo, entraram no time para ajudar no revezamento dos remos até Uruguaiana. "Tivemos apoio de oito municípios gaúchos, nos quais pernoitamos e fizemos palestras", conta Juliana. Nessas ocasiões, com freqüência os ouvintes queriam saber por que o casal decidiu viajar de caiaque. "A idéia surgiu da vontade de estar em contato com a natureza." A preparação exigiu estudos sobre o Rio Uruguai e seu entorno, além da aquisição de equipamentos. Até agora, foram investidos R$ 15 mil, bancados pela própria equipe. REGISTROS Exposições, palestras e doação de fotos para prefeituras e museus das cidades pelo caminho estão nos planos do casal. "O Rio Uruguai tem importância histórica e econômica para o Brasil. Faz parte da construção do País", diz Juliana. Além das águas, os registros fotográficos incluem a fauna, a flora e as populações ribeirinhas do Brasil e da Argentina. "São pessoas simples, mas esclarecidas. Estão preocupadas com a pesca ilegal e com a poluição", conta Juliana. O roubo de animais é outro problema dessas comunidades, que vivem da agricultura familiar e de pequenos negócios. DESAFIOS Nas duas fases da viagem, o Rio Uruguai reservou surpresas - nem todas exatamente agradáveis. O grupo teve de lidar com percalços como um ferimento aqui, uma intoxicação alimentar ali e vários locais onde o carro de suporte atolou. Nos últimos 20 quilômetros foi preciso escolta da Marinha contra os piratas do rio. "A viagem envolve riscos, mesmo com planejamento. Mas viver nas grandes cidades também é perigoso", diz Eduardo. Apesar das dificuldades e do cansaço ("às vezes, não conseguia sequer pegar a câmera para tirar uma foto", lembra Juliana), o casal está empolgado para terceira e última etapa da expedição, programada para janeiro. Serão mais 850 quilômetros (300 deles no Rio da Prata) até Montevidéu, no Uruguai. E sem o suporte por terra. Mesmo com os riscos e as surpresas, Juliana não considera o projeto uma aventura. "Essa é a minha vida." E brinca: "Aventura mesmo é ter um restaurante!"

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