Carlinhos Müller/AE
Carlinhos Müller/AE

California dreamin

Sem fazer nenhum prólogo, o viajante britânico responde à carta desta semana:

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2010 | 02h03

Olá, mr. Miles. Tenho 22 anos e sou da capital paulista. Gostaria de pedir um conselho sobre a seguinte situação: estou de férias marcadas para os Estados Unidos, no período entre abril e maio. Viajarei sozinha, pois nenhum dos meus amigos pode me acompanhar. Passarei 20 dias entre Los Angeles, San Diego e São Francisco e tenho algumas atrações já agendadas. Mas fico com medo de que, por estar só, acabe não me divertindo tanto quanto como se estivesse com alguma companhia e até mesmo não consiga organizar meus passeios. O senhor teria alguma sugestão para mim?

Danielle Yessenhart, por e-mail

"Well, my dear: eu teria uma ótima solução para todos os seus problemas mas, unfortunately, acabei de consultar minha agenda e descobri que, por causa de compromissos anteriormente assumidos, não vou poder, pessoalmente, acompanhá-la em sua american journey. Algo que para mim seria delightful.

Anyway, darling, não vejo nenhum motivo para preocupação. Se você tivesse programado suas férias para o Tajiquistão, que é um dos países mais pobres e primitivos da Ásia Central, eu certamente recomendaria que você contratasse uma dupla de vigorosos guarda-costas.

Mas, embora a Califórnia seja governada por Conan, o Bárbaro (também conhecido como o Exterminador do Futuro), trata-se de um Estado de pessoas civilizadas - a não ser, é claro, que você acenda um cigarro, situação que as transforma em uma horda de hunos.

Viajar sozinho, as I do, oferece algumas vantagens que eu considero preciosas. A primeira é o total domínio que você terá sobre sua agenda, podendo manipulá-la do jeito que preferir, sem aquelas crises de relacionamento que se observam quando o seu (ou a sua) colega de jornada manifesta interesses divergentes.

Não são poucos - I can testify - os amigos do peito que, no decorrer de uma viagem, transformaram-se em inimigos mortais em virtude do acúmulo de pequenas desavenças no dia a dia de suas férias.

A outra regalia oriunda de uma viagem solitária é a extraordinária possibilidade que você terá de fazer novos amigos. Verifico, em suas linhas, que essa é a questão que a preocupa. Pois fique tranquila, darling. A não ser que você sofra de algum tipo patológico de timidez, como meu falecido amigo Jerome (N. da R.: J.D. Salinger, escritor americano, autor de "O Apanhador no Campo de Centeio", célebre por sua permanente reclusão), suas chances de conhecer pessoas com quem compartilhar as emoções da jornada são remarkable.

Para isso, of course, será necessário que você faça tours (haverá outros estrangeiros na mesma situação que a sua), frequente bares e baladas adequados à sua idade e, eventualmente, durma em albergues. Haverá chatos pelo caminho. That"s unavoidable. Mas não se preocupe: os da Califórnia são absolutamente iguais aos de São Paulo.

Em Los Angeles, desde que você não se perca naquelas intermináveis alças de viaduto em que um único erro pode levá-la diretamente a Tijuana, no México, eu diria que você tem boas chances de encontrar alguém à espera de uma vaga como figurante em um filme B de uma produtora independente - que, claro, um dia talvez venha a se tornar Tom Hanks.

Em San Diego, conforme o swell, os surfistas são, sem dúvida, sua melhor chance. Já em São Francisco, well, você pode até achar um chinês divertido, mas, estatisticamente, suas maiores oportunidades são os hippies velhos do Height-Ashbury ou os gays do Castro. Vai ser igualmente divertido, don"t you agree?"

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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