Calmaria com gosto de antigamente

Minorca, o primeiro lugar da Espanha a ver o sol nascer, fica inflamada ao fim do dia. Assim que cheguei em Ciutadella, a antiga capital da ilha, um brilho ocre floresceu pelos rostos dos moradores sentados nos terraços dos bares da rua de trás, suas vozes ecoando como num cânion de prédios góticos e barrocos.

SARAH WILDMAN / MINORCA , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2012 | 03h09

As poeirentas fachadas de pedra rosada e as estreitas ruas cruzando por elas pouco mudaram desde 1722, o ano em que os colonizadores ingleses tiraram de Ciutadella o título de capital e a transferiram para a portuária cidade de Mahon. Desde então, Ciutadella mantém inalterado seu ar de antiga. O resto da ilha está impregnada com a mesma qualidade atemporal.

Apesar de estar a apenas 35 quilômetros das multidões e da agitação da vizinha de alto padrão, Maiorca, a diferença não poderia ser mais profunda. Ao contrário dos complexos hoteleiros, discotecas e chamativas marinas cheias de iates, esta ilha a 250 quilômetros a leste de Barcelona oferece algo incomum no Mediterrâneo: tranquilidade.

No primeiro dia em Maiorca com um carro alugado, rapidamente descobri a básica e eficaz proteção da ilha contra o turismo desenfreado. Embora a principal rodovia de Mahon para Ciutadella seja bem pavimentada e cômoda, muitas das estradas menores que cruzam os campos mal são largas o suficiente para um carro.

Seguimos em frente, entre aldeias de pescadores do passado que marcam enseadas da ilha como pérolas - cidades que são uma profusão de cores, com buganvílias subindo pelo calcário branco, casas azuladas debruçadas sobre o mar. Entre as aldeias, placas de trânsito seduzem indicando praias escondidas.

Ao contrário de Palma de Maiorca, que no início do verão já está repleta de turistas, Minorca ainda estava acordando de seu sono de baixa estação. Às vezes, nos sentíamos até um pouco intrusos. Enquanto as pessoas que conhecíamos - hoteleiros, donos de restaurantes, comerciantes, sapateiros, produtores de leite - foram amigáveis, houve uma sensação de proteção à ilha, uma reticência que resultou numa experiência de viagem autêntica.

Por toda parte havia placas indicando parques naturais, com instruções minuciosas sobre onde era permitido estacionar, acampar e até andar. Demarcações de propriedade entre fazendas não eram cercas, mas camadas de rochas que formavam paredes de pedras baixas, em vigor desde a antiguidade.

Em Ciutadella, estacionamos na Praça del Born, um quadrado marcado por edifícios do século 19, esculpidos em arenito cor-de-rosa. Carros não são permitidos no centro histórico sem um passe especial, por isso andávamos quatro grandes quadras até o hotel, admirando o jardim do bispo e a catedral gótica do século 13.

Uma noite nos deparamos com uma banda, seguida de uma multidão fantasiada: mulheres com castanholas usavam roupas do século 19 com esvoaçantes camisas compridas e saias rodadas. Éramos os únicos turistas. Percebemos que a cena era como uma janela que mostrava como é a vida por lá há gerações.

Voltando para o hotel tropeçamos no Ulisses, casa caiada de frente para o mercado de peixes do século 19. Quase inteiramente iluminado por velas, o bar é conhecido por seus gins. Aliás, gim com gelo, vestígio da dominação inglesa, é a bebida-símbolo da ilha.

Instantes antes de sair dos limites da cidade já estávamos cercados por terra despovoada, selvagem. O solo minorquino parece deleitar-se com sua capacidade de fazer coisas aromáticas crescerem - arbustos de alecrim, tomilho, lavanda e camomila. Em toda parte vimos árvores carregadas de frutas, além de uma espécie robusta de oliveiras chamada ullastres.

Ao longo do caminho, os sinais apontaram para os pré-históricos e misteriosos locais de oração chamados talayots e navatas, da Idade do Bronze - monumentos construídos com pedras dispostas em "T" ou em forma de iglu. Há mais dessas ruínas em Minorca do que em qualquer outro lugar do mundo. Nosso destino era a aldeia de Es Migjorn Gran para uma estadia de uma noite no luxuoso hotel de agroturismo Binigaus Vell, com piscina, um lindo restaurante, cavalos e a possibilidade de uma caminhada de uma hora até o mar.

Rumo ao fim do mundo. De lá, quisemos visitar o "farol do fim do mundo", o qual um amigo recomendara com a garantia de ser algo único. Para chegar, atravessamos o Parque Natural de S'Albufera des Grau, frequentado por trekkers, depois por campos frondosos, até chegar a uma paisagem lunar, de ardósia preta e cinza de um lado e áreas úmidas de outro. Paramos o carro e caminhamos até a ponta do Cabo de Favaritx, onde encontramos o farol com uma vista para belas praias rochosas.

Seguimos por uma estrada que margeava o mar. Logo chegamos ao alto de uma colina cuja visão rendeu um suspiro coletivo. Diante de nós estava a pequena aldeia de Sa Mesquida, um punhado de casas brancas ao longo de uma estrada que nos levou a uma grande praia de areia fina e branca e um caminho que se estende para outras enseadas.

"Os britânicos e franceses se esconderam nesta baía antes de atacarem Mahon", disse o dono do Bar Sa Mesquida ao pedirmos uma porção de batata frita, vinho galego branco e um dourado grelhado e temperado com limão e sal. Tudo isso acompanhado por ortigas do mar fritas, espécie de anêmona comida apenas no início do verão.

Passamos ainda por Sant Lluis, vilarejo de origem francesa com um moinho fotogênico, onde nadamos em uma praia municipal povoada por alguns turistas e moradores antes de seguir rumo a Mahon, a capital. Assim, nosso tour pela ilha estaria completo.

Na manhã seguinte, já estávamos admirando a arquitetura art nouveau da capital e a vista para o enorme porto que atraiu mercadores e visitantes ao longo dos séculos. No último dia, nos aventuramos pelo interior. Dirigimos para o norte, até o parque onde está Es Grau, uma pequena vila de pescadores. Quando estacionamos, vimos em um dos lados um caminho que serpenteava através das salinas. Em frente, uma grande enseada de águas rasas, perfeita para relaxar. Alguns quiosques à beira da praia ofereciam sardinhas fritas e cerveja. Então ficamos olhando a paisagem, varrida pelo vento e gloriosamente selvagem.

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