Aryane Cararo/Estadão
Aryane Cararo/Estadão

Calmaria de um refúgio sem carro nem celular

Berçário de golfinhos, patrimônio natural, acolhedora vila de pescadores: com tantos atributos, fica fácil relevar a falta de energia elétrica e as duas horas de barco para chegar até Superagui

Aryane Cararo / Superagui, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2013 | 02h08

Existe um lugar em que o celular não consegue incomodar. Nele, você pode caminhar ou pedalar, o que é mais recomendado, por quase 40 quilômetros em praia deserta, praticamente virgem. Mas pode também se aventurar por trilhas na mata. Não vai precisar de sorte para ver animais em extinção e que não existem em outro lugar do mundo. E conseguirá assistir, diariamente, a um espetáculo de nadadeiras de golfinhos. Um lugar para fugir do barulho, da poluição e do estresse das grandes cidades. Uma ilha (quase) deserta para se dedicar às coisas simples da vida: tomar sol, viver em contato com a natureza e abdicar de luxo.

O nome desse lugar é Superagui, um parque nacional criado em 1989 e composto por várias ilhas no litoral norte do Paraná, vizinho à Ilha do Cardoso e considerado Patrimônio Natural e Reserva da Biosfera pela Unesco. Rústica e nada chique, a ilha principal do parque, também chamada de Superagui, não é daqueles lugares que o turismo transformou muito.

A começar pela dificuldade de acesso. Da cidade portuária de Paranaguá é preciso pegar um barco "popopô" na Rua da Praia que levará 2h30, em maré boa, para chegar à ilha de pescadores - é possível alugar uma voadeira, que faz o percurso em menos de uma hora e cujo preço varia conforme a negociação com o barqueiro. Algumas pousadas não passam de quartos nas casas dos caiçaras e nenhuma, até agora, tem ar-condicionado. Quarto que não seja de madeira é artigo raro por lá, chuveiro quente também - há, mas é preciso testar um a um. E praticamente não há serviço de arrumação de quarto. Conforto, definitivamente, não é o ponto forte. Nem preço fixo, que sobe muito nos feriados, mas ainda assim costuma ser em conta (de R$ 100 a R$ 130 o casal, por exemplo).

No entanto, a boa comida caseira é a oferta da ilha. Nos botequins à beira-mar, você come pratos simples deliciosamente temperados, do feijão ao pirão de camarão, alguns regados pela simpatia de gente como seu Osni, dono do Restaurante Tropical. E tudo por um preço inacreditável: porções generosas de camarão por R$ 18 na altíssima temporada. Sem falar no delicioso sonho de doce de leite da dona Marinês, que deixa saudades.

Bichos. A vida é simples, como tem de ser num santuário ecológico que os golfinhos elegeram como berçário. É possível vê-los a uma distância de 5 a 10 metros da areia da praia, nadando e se alimentando no canal utilizado pelos barcos. Embora sejam os atores mais comuns, eles não são as estrelas por lá - título dado ao mico-leão-da-cara-preta, espécie endêmica da região. Descobertos em 1990, eles aparecem, de vez em quando, na comunidade de pescadores para conseguir bananas. É proibido alimentá-los, mas nem os caiçaras resistem.

A região, mais precisamente a Ilha do Pinheiro, também abriga outro animal ameaçado de extinção: o papagaio-da-cara-roxa. Para avistar esse, talvez você precise de mais sorte. Os nativos não sabem bem por quê, mas eles estão cada vez mais raros ao entardecer, quando costumam promover um belo espetáculo de revoada. Má notícia. Mas a boa é que os guarás, pássaros de coloração vermelha, estão voltando a aparecer nas áreas de mangue do complexo, que tem 34 mil hectares.

Tudo bem se não conseguir avistá-los. Não faltarão exemplares da natureza para você se divertir, desde uma profusão incrível de bromélias e liquens, na trilha para a Praia Deserta (55 minutos de caminhada que exigem muito repelente e atenção na travessia de córregos sem ponte), ou de caranguejos e pássaros diversos no caminho pela areia. É uma beleza rústica, árida, às vezes. De uma paisagem solitária que se repete por quilômetros, sem viv'alma para conversar. É por isso que a ilha costuma ser procurada por muitos jovens e hippies, para acampar. Dá quase para jurar que a série Lost foi filmada lá.

Mas as noites de sábado ou feriado prolongado costumam ser agitadas. É que no bar-balada da ilha, o Akdov, o fandango trazido pelos colonizadores portugueses soa alto nas noitadas - a região também recebeu imigrantes suíços em fins do século 19, dos quais o mais famoso foi o pintor William Michaud.

O grupo de músicos é formado por nativos de Superagui e moradores de Guaraqueçaba e Paranaguá, que vão até a ilha para perpetuar uma antiga tradição executada com violas, rabeca e pandeiro. A dança rola solta no imóvel de madeira que tem só uma regra, ainda que velada: entrou, tem de dançar e não pode recusar convite. É assim que um dos personagens mais folclóricos do povoado, seu Alcides Rodrigues, 94 anos, consegue saracotear a noite inteira - mas só acompanhado de moça nova, que bobo ele não é! E experimente recusar uma dança: seu Alcides fica parado ao lado da moça até conseguir o que quer.

Se falta energia, os nativos costumam receitar a bebida típica da região: cataia, forte para valer! Trata-se de pinga curtida com folha de cataia, uma planta local que significa, em tupi, "folha que queima". Mas é bom não exagerar na quantidade porque a ilha não tem iluminação pública e pode ficar difícil voltar para casa a pé. Além disso, não há táxis - carro algum roda por lá - e as carroças dos nativos, usadas para transporte de malas dos turistas, não estão em serviço à noite.

Não que o caminho seja distante: o povoado deve ocupar, no máximo, um quilômetro na orla. De resto, aproveite à vontade. Não tem muito o que fazer mesmo. É só se deixar levar pela música, com o tempo sendo ditado pelo vento, pela maré e pela lua.

SAIBA MAIS

- COMO CHEGAR: é preciso pegar um barco em Paranaguá - os horários mudam de acordo com a época do ano. O melhor é ligar para os barqueiros César (41-3482-7131) e Jacó (41-3482-7150). Você também pode combinar passeios para as ilhas do Mel, das Peças, Pinheiro, Vila de Ararapira e o banco de areia do mar.

- BICICLETA: alugue uma para ir à Praia Deserta (R$5 a hora, R$25 o dia na alta temporada) e saia até 9 horas para pegar a areia dura na volta. Procure ir acompanhado - não há socorro.

- NA MOCHILA: leve repelente, guarda-sol que possa ser usado em caso de chuva, galocha, lanterna, chinelos, bolsa térmica (se for passar o dia), chapéu e binóculos. Não esqueça do dinheiro em espécie - não há bancos e cartões não são aceitos.

- ONDE FICAR: as melhores, sem luxos, são: Pousada Sobre as Ondas (41-34827118, superagui.net/br); Pousada Costa Azul (41-3482-7136, pousadacostazul.com.br/ilha.html); Pousada Superagui (41-3482-7149, pousadasuperagui.com.br); Pousada Crepúsculo (41-3482-7135).

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