Paulo Vitor /Estadão
Paulo Vitor /Estadão

Calor e silêncio sob o céu de Cariri

Andar por Cabaceiras é dar de cara com o sertão duro e com um cenário onde já foram rodados mais de 30 filmes

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2017 | 04h30

CABACEIRAS - A quentura é tanta que a roupa gruda no corpo. Com o sol a pino e em meio a árvores que não fazem sombra, o cabrito, costelas à mostra, sai balançando o chocalho no pescoço. Em um raio de muitos metros, é o único barulho que se ouve. Estamos em Cabaceiras, cidadezinha de 5 mil habitantes no Cariri paraibano, dona do menor índice pluviométrico do País e de uma paisagem marcada por formações geológicas raríssimas, que se sobrepõe à vegetação castigada pela seca. 

O destino fica a poucos quilômetros dali: o Lajedo do Pai Mateus, principal atrativo da região.

Mesmo antes de se embrenhar na trilha que leva a rochas milenares, vale apreciar o cenário. Andar por Cabaceiras é dar de cara com o sertão duro. O chão, literalmente de terra rachada, as casas de pau a pique e o gado magrinho já atraíram muitos olhares para a cidade a 220 quilômetros da capital. Ou melhor, muitas câmeras. São mais de 30 filmes rodados nessas redondezas, entre eles o clássico nacional Auto da Compadecida (2000), que fizeram valer o apelido de Roliúde Nordestina – com direito até a letreiro, como na Hollywood americana.

Chegando mais cedo, uma boa pedida é almoçar no Hotel Fazenda Pai Mateus, com comida típica do sertão bem caprichada. De lá, partem trilhas de ecoturismo que movimentam a região. Dá até para tirar um cochilo na rede e esperar o sol esfriar um pouco. Na mochila, água, protetor solar e repelente para espantar as muriçocas – que no Cariri Velho ninguém é de enrolar a língua para falar pernilongo. 

Com mais de 40 metros de altura, a Saca de Lã, primeira parada, é um monumento natural em formato de pirâmide e lembra grandes sacos de algodão, um em cima do outro. Como as pedras parecem ter sido obra planejada, a formação serve de pano para a manga de muita gente que acredita em extraterrestre. O guia Gerson Lima, de 30 anos, que não faz coro para ET nenhum, diz que foram milhares de anos para ganhar a aparência que têm. “Conforme a rocha dilata pelo calor e depois resfria, vai se fraturando em formato de amarrações – não segue uma fratura até em baixo, vai quebrando bloco por bloco.”

De cima das rochas, os olhos só alcançam o esbranquiçado da caatinga e o céu azul, azul. Há anos, o braço do Rio Boa Vista, que corre às margens da Saca de Lã e deságua no Rio Taperoá, está seco. Nas cheias, cada vez mais raras, o córrego chega a 6 metros de profundidade. 

Aos poucos, o cenário muda. O carro leva até a trilha do Lajedo do Pai Mateus, nome do eremita que morou em uma das grutas e fazia rezas em troca de comida no século 18, segundo a narrativa local. A paisagem é tomada por uma imensa base de granito. Em cima dela, ficam pedras gigantes e arredondadas, os chamados matacões. Só existem formações geológicas semelhantes na África e na Austrália.

São 2,5 quilômetros a pé até o guia apontar a casa do curandeiro, que dormia e comia em cama e mesa de pedra. Na mesma gruta há pintura rupestre, vestígio dos índios cariris que habitaram a região. Marcas de mãos, um sinal de rituais de passagem, estão impressas na rocha. 

O Lajedo se revela um espaço de contemplação, daqueles que fazem a gente se sentir pequeno diante do mundo. Também existem várias formações curiosas para explorar. Há a Pedra do Capacete e da Orelha, e, se você ouvir o som que faz a Pedra do Sino, também vai saber por que a chamam dessa maneira. Já na Pedra do Desejo é a oportunidade engrossar o misticismo do local e fazer uma fezinha no acaso. 

Ao se deitar, o sol mancha o horizonte de laranja e lilás, em uma cena que arrancaria aplausos se o morador do Cariri fosse cabra de aplaudir o sol. Difícil não sentir a paz do lugar. O Lajedo é para quem gosta de escutar o barulho do silêncio.

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