YOUSSEF BOUDLAL | REUTERS
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Marrocos: do labirinto colorido de Marrakesh ao deserto do Saara

Gastronomia, hospedagens e curiosidades de um país com um mosaico cultural que começa a ser definido já em Marrakesh

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

01 Março 2016 | 13h35

MARRAKESH - No labirinto de ruelas da medina de Marrakesh, um formigueiro de gente divide espaço com motos barulhentas, burrinhos que puxam carroças carregadas de verduras, moças apressadas com véus pretos, amarelos, azuis, e um exército de vendedores. Enquanto ecoam o árabe, o francês, o inglês e outras línguas, vendem-se sandálias, temperos de aroma marcantes, óleos, luminárias, anéis e galinhas vivas. Uma certa definição de caos surge nesta primeira parada da viagem ao Reino do Marrocos. Já é possível ver nessa mistura os fragmentos das sobreposições culturais que vão ficando mais claras e saborosas durante um tour pelo país, rumo às dunas do deserto.

Sem considerar o território de Saara do Oeste, ao sul, que o país reclama como parte de sua propriedade, o Marrocos se espalha por 450 mil quilômetros quadrados, área similar à da Espanha. Fica no noroeste do continente africano, ao longo de 1,8 mil quilômetros de litoral voltado para o Oceano Atlântico. Ao norte estão grandes cidades como Casablanca, Tanger – ali na beira do Estreito de Gibraltar –, a capital Rabat, a histórica Meknes e Fes, esta também histórica e famosa pelos curtumes coloridos e, como esquecer?, pela novela O Clone.

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Do centro para o sul do território ficam Marrakesh e as altas montanhas do Atlas, onde as estradas são ladeadas por pequenos povoados e outras cidades maiores, como Ouarzazate. Conhecida por ser cenário de filmes e sede de estúdios, a localidade é porta para o deserto do Saara, o maior do mundo.

As paisagens se diversificam pelo país, mas a predominância do ocre, da cor de terra, característicos dos caminhos para o deserto, é a protagonista da nossa turnê. Na Rota das Mil Kasbahs – kasbahs são tradicionais construções de adobe fortificadas –, a paisagem se alterna entre montanhas que fazem imaginar a superfície de um planeta distante e imensidões de oásis com palmeirais recortados por rios calmos. Tudo envolto pelo misticismo de um país fortemente religioso.

Nenhuma construção nas cidades e vilarejos é mais alta que os minaretes, as torres das mesquitas. Cinco vezes ao dia, alto-falantes chamam os fiéis para a oração e, em tapetes dispostos em salinhas existentes em todo canto, os muçulmanos rezam virados para Meca. Embora a maioria das mulheres esconda os cabelos com véus, é comum encontrar algumas de cabeça descoberta. Há as que escondem todo o rosto, deixando só olhos à vista, e alguns homens de djellaba, túnica típica usada por muçulmanos mais ortodoxos.

A proximidade com a Europa, a força do turismo e uma certa liberdade, entretanto, reforçam a identidade de território de transição entre as culturas ocidental e árabe. Ouve-se que o Marrocos é, também, a entrada para o mundo muçulmano.

Ancestrais. A expansão árabe iniciada no Marrocos no século 7.º foi seguida de forte islamização. Mas os povos tradicionais, os chamados berberes, lutaram para preservar sua cultura, ainda expressa nas músicas, costumes, arte e artesanato. Antes de árabe e islâmico, o Marrocos é berbere, como a maior parte do norte da África.

Em Marrakesh, por exemplo, a visita a um pequeno museu berbere no lindíssimo Jardim Majorelle oferece um panorama da riqueza dos símbolos e adornos tradicionais, como roupas, sapatos e colares. Você identifica vários elementos de uma continuidade estética entre o que se vê no museu e o que se encontra no mundaréu de artigos vendidos nos souks (mercados) e por vendedores ambulantes espalhados pelo país. Os traços geométricos, típicos dos berberes – em distinção aos arabescos árabes – estão em lenços, tapetes e também na discreta ornamentação da arquitetura das construções, sempre muito parecidas.

Em 2011, o rei Muhammed VI declarou o idioma berbere (ou tamazight, vindo de amazigh, outra denominação dos berberes) oficial no País, ao lado do árabe. O francês também é adotado nos negócios e na administração, resultado do protetorado da França no país, que durou de 1912 a 1956 – esta última, data da independência do Marrocos.

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DO ALTO, UMA PRAÇA EM ERUPÇÃO

Localizada dentro dos quase 20 quilômetros de muros que cercam a medina de Marrakesh, a praça Jemaa El Fna (foto) é como o epicentro de um vulcão. Esse vasto calçadão apresenta cenário e diversão dignos de um filme do Indiana Jones, em que encantadores de cobras e adestradores de macacos tentam faturar alguns euros ou dirhams dos moradores e dos muitos turistas. Há acrobatas, dançarinos, engolidores de espadas, músicos paramentados e a fumaça das barracas de comida de rua.

A dinâmica do lugar encerra uma vibração particular. A praça data do século 11 e preserva vestígios de diferentes épocas. Não se admire ao ver um menino de bicicleta carregando um cavalo pela corda. Motos são liberadas. Os táxis e carruagens turísticas também passam livremente no meio da multidão. Barracas servem um suco de laranja doce e refrescante, companheiro sob medida para o sol sempre forte. 

No fim da tarde, a Jemaa realmente entra em erupção. Depois da exploração por terra, suba ao terraço de um dos vários restaurantes no entorno da praça para assistir ao sol se pôr atrás da torre de 77 metros da Mesquista Katoubia, a principal de Marrakesh. Não espere silêncio para o momento: o som da praça, dos bongôs, cantorias e krakachs, espécie de castanholas metálicas berberes, compõem uma trilha sonora alucinante. Cobra-se consumação nos bares, o que pode ser apenas um chá de hortelã – sempre bem doce.

GASTRONOMIA FEITA PARA COMPARTILHAR

Já a caminho do Saara, o motorista do grupo, Said Arahal, de 33 anos, nos convidou para almoçar em sua casa, no vilarejo de Agdz, que fica a cerca de 260 quilômetros de Marrakesh e tem vista para a montanha Jabel Kisan, cercada por um palmeiral. Da cozinha, no térreo, subimos para a sala, um andar acima, o mesmo dos quartos. Ali tivemos contato com mais uma tradição do Marrocos: todos em volta da mesa, sentados no chão, comemos o cuscuz do mesmo prato. 

Na versão marroquina, o cuscuz consiste em uma travessa cheia de sêmola, gordas fatias de legumes como abobrinha, cenoura e rabanete por cima, pedaços de frango ou carne de cordeiro, mais cebolas carameladas e uvas passas. Os ingredientes são cozidos separadamente – na casa da família Arahal, a carne estava suavemente temperada com coentro e especiarias. 

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O ras el hanout, um pó avermelhado que resulta da mistura de mais de 15 especiarias, como páprica, cravo, cominho, gengibre e pimenta, é um dos temperos mais usados no país. Vai bem nas carnes, mas não nos pescados. Compre nos souks e na medina de Marrakesh. 

Quanto aos preparos, o outro prato muito típico é o tagine, mesmo nome da panela de barro com tampa em forma de cone em que se prepara o cozido de carneiro, frango ou peixe com legumes. Há até tagines vegetarianos. Entre os que provei, o mais gostoso foi o de carne de carneiro com mel e peras carameladas do belíssimo restaurante La Kasbah des Sables, em Ouarzazate. Custou 110 dirhams, R$ 44.

Em Marrakesh, havia provado o tagine de frango com rodelas de limão e azeitonas do Ksar El Hamra, um dos restaurantes mais tradicionais da medina, que ocupa um palácio de 400 anos que virou restaurante em 1959 e vale também pelas saladas de lentilhas, pimentões vermelhos e abobrinha.

As barracas da praça Jemaa el Fna servem seus tagines – além de linguiças e cérebros de animais, entre outras porções. Preferi algo menos arriscado: um típico pão recheado com ovo e batatas cozidas, cebola, sal e pimenta. Com uma faca, mistura-se tudo e é só comer, acompanhado de um chá de hortelã que é cortesia da barraca.

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NÃO PERCA

Riads. As construções de Marrakesh têm a fachada da mesma cor de terra. Mas, na medina, a beleza dos mosaicos caracteriza o interior dos riads, casarões históricos com pátios internos transformados em hospedagens de luxo. Há cerca de 700 riads – o elegante Star custa desde R$ 530 por noite.

Jardim botânico. No bairro Gueliz, o Jardim Majorelle abriga o estúdio do artista francês Jacques Majorelle, morto em 1962. Um lindo sobrado é coberto de um tom de azul tão marcante que a cor acabou sendo batizada com seu nome. O estilista Yves Saint-Laurent comprou o local em 1980 – há um pequeno monumento em sua homenagem. E, dentro, um museu berbere.

Museu. O Museu de Marrakesh, no Palácio M’Nebhi (que fica na medina), conta com patrimônio cultural marroquino em seu acervo e mostras de arte contemporânea.

Escola. A Madraça Ben Youssef é uma antiga escola corânica (ou seja, islâmica) do século 14. O grande pátio retangular cercado por paredes ornamentadas de mosaicos e madeira de cedro é uma obra de arte. Talhados em mármore, trechos do Alcorão. No passado, atraiu estudantes de todo o mundo muçulmano. A entrada custa 10 dirhans (R$ 4).

SAIBA MAIS

1. Como ir: SP-Casablanca-SP direto com Royal Air Maroc em um Boeing 767-300 bastante usado que atrasou na ida e na volta, por R$ 3 mil. Pelo mesmo valor médio, com conexão, Iberia e TAP levam a Marrakesh.

2. Visto: não é exigidos dos turistas brasileiros. A segurança no aeroporto é rígida.

3. Moeda: 1 dirham vale R$ 0,40; euros são bem aceitos.

4. Hospedagem: em tons de terra, o luxuoso Kenzi Menara, onde me hospedei, está a dez minutos de carro da medina. A piscina e os mosaicos de ladrilhos quebram a monotonia cromática (desde 106 euros).

*O repórter viajou a convite do Turismo do Marrocos.

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