Cangurus vagarosos

O homem mais viajado do mundo deixou, mesmo, os sopros outonais que assolam o Condado de Essex e viajou para Benin, na África. De uma lan house em Cotonou, usando um computador em que, aparentemente, faltava a tecla do "p", enviou-nos uma mensagem de difícil compreensão. Pelo que pudemos compreender, mr. Miles foi visitar o fabuloso Palácio de Abomey, conjunto de construções tombado pela Unesco e cercado por um muro de argila de quase 1 quilômetro de extensão. Segue agora para as praias de Grand Popo, onde pretende tirar o mofo adquirido na umidade britânica. A seguir, a correspondência da semana:

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2009 | 01h52

Prezado mr. Miles: estou embrulhado com a impressionante e caríssima burocracia para obter um visto de estudante na Austrália. Não consigo entender como um país tenta atrair estudantes estrangeiros e cria, ao mesmo tempo, tantos obstáculos para a sua viagem. Gostaria que o senhor comentasse o assunto no Estadão, com o objetivo de que as autoridades reestudem o excesso de exigências. Mas, até para que meu visto não emperre, prefiro identificar-me com um nome falso.

João Celeste, por e-mail

"Well, my dear John, ou seja lá qual for o seu nome: não preciso repetir que me solidarizo com você e qualquer outra vítima dessa truculência diplomática que, unfortunately, assola as chancelarias de diversos países ditos civilizados e hospitaleiros. Tenho certeza de que ela envergonha os melhores aussies que conheço - e saiba que eles não são poucos.

However, mate, até os cangurus sabem que os burocratas podem ser mais perigosos e traiçoeiros do que os crocodilos estuarinos que vivem no norte da Austrália. O que é difícil compreender é como uma nação, bem ou mal nascida de nossa cultura, pratique tamanha deselegância. Don't you agree?

Eu não me iludo. Sei que a cada país é dado o poder de estabelecer condições para admitir visitantes. In fact, cada um de nós pode fazer o mesmo para selecionar quem merece ou não ser aceito em nossas casas. Se não pedimos formulários aos que convidamos, for instance, para a cup of tea é porque dois mecanismos elementares costumam funcionar. O senso do ridículo e a noção de hospitalidade.

No seu caso e no de muitos outros, as I can see, os australianos parecem partir do princípio de que, até prova em contrário, você não é bem-vindo. This is awful. Devo supor, however, que seu desejo de visitar a Austrália é maior do que todos os embaraços pelos quais está sendo obrigado a passar. Pois se o seu objetivo for aprender inglês, I'm sorry to say, você está escolhendo o país errado. O idioma que se pratica naquela latitude é uma versão simplória e descaracterizada de minha língua natal. No surf, tenho de admitir, eles são muito mais habilidosos. E os chapéus que usam, embora um pouco inadequados para meu gosto, têm lá seus apreciadores.

Mas o seu inglês?

Anyway, a Austrália não é a única nação pouco polida com seus visitantes. Sou obrigado a admitir - shame on us! - que os meus compatriotas, embora não exijam copiosa documentação, sabem ser inconvenientes em inúmeras situações. Por isso, my friend, embora me associe aos seus protestos, não creio que isso possa amolecê-los. O máximo que posso fazer é torcer para que você ultrapasse a burocracia, faça uma ótima viagem e, quando voltar, procure um bom curso de inglês.

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