Capricho andino

Com área equivalente à metade de Sergipe, Salar do Uyuni, maior planície salgada do planeta, a 3.670 metros de altitude, surpreende com sua paisagem em vários tons de branco e azul

Adriana Moreira / UYUNI,

16 Março 2010 | 08h53

Irretocável. Salar do Uyuni esconde lagoas coloridas, ilhas de cactos gigantes e outros cenários arrebatadores (nada disso é Photoshop!). Foto: Adriana Moreira/AE

 

O carro deixa para trás o povoado, seguindo por uma estrada poeirenta. Aos poucos, o pó começa a diminuir e a paisagem se torna cada vez mais branca. Até que os olhos não encontrem nada além do horizonte, e a única cor que a vista alcance seja o azul do céu. E assim, quase sem perceber, você entra nos domínios do Salar de Uyuni.

 

Há quem não entenda o fascínio causado por um cenário tão inóspito e arredio. Mas, uma vez ali, não restam dúvidas de que se está em uma das mais espetaculares paisagens da Bolívia.

 

Explorá-lo não significa necessariamente dormir em barracas, sob o frio abaixo de zero que acomete a região mesmo nas madrugadas de verão - no inverno, já foram registradas temperaturas próximas a 25 graus negativos. Há diversas opções voltadas a um público mais exigente nas orelhas do salar, como se costuma dizer por ali. Hotéis feitos inteiramente de sal não são apenas atração turística interessante, mas uma maneira confortável de passar a noite antes de explorar esse gigante branco.

 

Os passeios saem por volta das 9 horas. Antes de ganhar a estrada, pausa para explorar o pueblo de Colchani, alguns quilômetros distante de Uyuni, principal acesso ao salar. O povoado conta até com um Museu da Llama e do Sal, que vale mais pelas maquetes bem-feitas que pelos poucos artefatos históricos.

 

Algumas das montagens retratam o dia a dia dos exploradores do sal, atividade para a qual se dedica boa parte dos moradores de Colchani. Basta correr os olhos no povoado para ver montes brancos nos quintais das casas - todos ajudam a embalar o produto. E a primeira parada já nos domínios do salar é justamente para ver de perto as montanhas do mineral recém-extraído. Para trabalhar ali, os homens se cobrem completamente, dos pés à cabeça: a ação do sol forte é potencializada nesse ambiente.

 

Você perceberá isso no momento em que tentar tirar os óculos escuros. Os raios solares, refletidos no branco do solo, fazem as pálpebras se fecharem instintivamente. Melhor colocá-los de volta para poder ver as facetas desse deserto peculiar.

 

Lúcio, o motorista, aponta a caminhonete para o interior do salar. O chão ora exibe hexágonos perfeitos, ora surge liso e cristalino. Na época das chuvas, o filete raso de água reflete o céu, fazendo com que se tenha a sensação de estar sobre as nuvens. A qualquer momento, peça para o carro parar, desça e feche os olhos: você perceberá um silêncio profundo, no qual se pode ouvir até as batidas do próprio coração.

 

"É preciso conhecer bem os caminhos para dirigir por aqui", gaba-se Lúcio. Caminhos? Não há estradas, placas de sinalização, nada. Como se localizar? "Pelo Vulcão Tunupa, lá no fundo", aponta ele. Ah, bom.

 

 

Visual. Céu e terra se misturam nos trechos alagados do imenso deserto de sal

 

 

Hora do almoço. O silêncio e a solidão terminam na parada para o almoço - um piquenique com frango, salada, pães e refrigerante -, quando os exploradores do salar se encontram na Isla Pescado ou Incahuasi. Trata-se de uma das muitas ilhas existentes no salar, escolhida para o turismo por suas trilhas fáceis e pelos cactos gigantes, alguns com mais de 10 metros de altura.

 

Com o estômago cheio, reforce o protetor solar e caminhe pela ilha. Nos diversos mirantes do caminho, a certeza de estar isolado só é interrompida quando mais um veículo com turistas chega ou parte, rasgando a imensidão do deserto de sal.

 

No ponto mais alto da ilha, uma curiosidade: uma infinidade de fotos e objetos na cruz que marca a oferenda feita à pachamama. Sinal de que os antigos rituais aymaras ainda têm muita força por ali.

 

É hora de seguir na direção do povoado de Coquesa, para um confortável hotel aos pés do Vulcão Tunupa. Quase ao chegar, o incrível contraste: o salar termina abruptamente, em um pequeno riacho lamacento que parece marcar a "fronteira" com um campo verde, onde um grupo de lhamas pasta tranquilamente.

 

 

BATE-VOLTA

 

Atacama

Quem tem espírito aventureiro pode emendar o salar com uma visita ao Deserto do Atacama, já em território chileno. Uma boa alternativa para conhecer a região é encarar dez dias de expedição em veículo 4X4. Há opções para orçamentos variados - a versão com mais conforto custa cerca de US$ 6 mil, sem aéreo.

 

Lagunas

Ao sul do salar surgem belas lagoas, de cores que parecem ter saído de uma pintura de Dali. A mais famosa é a Colorada, notória por ser a preferida dos flamingos. No extremo sul do país, a Laguna Verde ganhou sua tonalidade de esmeralda graças à concentração de magnésio em suas águas. Para chegar até elas, é necessário fazer um roteiro de quatro ou cinco dias.

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