Marina Guedes
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'Caribe' no Panamá: o charme rústico de San Blás, terra dos gunas

Povo local mantém tradições e é responsável pela maior parte da operação turística no arquipélago

Marina Guedes, Especial para o Estado

09 Outubro 2018 | 04h50

Areia clara que massageia os pés, vegetação predominantemente de coqueiros e mar que oscila entre tonalidades de azul e verde são os principais atrativos do arquipélago de San Blás, na costa Leste do Panamá. De janeiro a março, quando há menor incidência de chuvas, chegam os veleiros, muitos deles dos Estados Unidos. E são recepcionados pela população local, formada por indígenas de baixa estatura da etnia guna.

Para eles, a denominação correta não é San Blás, mas Comarca de Guna Yala. Influências contemporâneas como painéis solares e telefones celulares contrastam com a simplicidade das rústicas habitações. Geograficamente, o arquipélago pertence ao Panamá. Em questões político-administrativas, porém, a região é independente, sujeita à gerência indígena local. 

As mulheres vestem saias abaixo dos joelhos, estilo canga, que chamam de sabure. Os braços e pernas são cobertos com coloridas miçangas – wini ou shakiras. Lenços, geralmente vermelhos, cobrem os cabelos e protegem do sol. Aos homens, não há vestimenta típica, seguem o estilo ocidental. 

Nos últimos dois anos, este foi o endereço da catarinense Elaine da Cruz, de 29 anos e de sua família, a bordo do veleiro Pura Vida. “Os indígenas mantém vivas suas tradições. As mulheres têm autoridade máxima sobre a família”, conta. Segundo ela, eles se destacam no artesanato, tecendo os molas, panos com desenhos que refletem o cotidiano. 

Diferentemente do concorrido Caribe, em território guna ainda é possível visitar uma das mais de 340 ilhas e ter o privilégio de desfrutá-la individualmente. Em 2012, após passar quatro anos pelo Caribe, Gabriel Calado, de 31 anos, chegou às ilhas panamenhas. Hoje, ele trabalha como capitão em veleiros de charter. “Naquela época, raramente avistava uma vela branca passando aqui”, lembra. Pela segurança nas ancoragens e belezas naturais, os grupos de ilhas do Holandês, Limão e Coco Bandero são algumas das favoritas entre os visitantes. 

Regras

Para os brasileiros, os estragos causados no Caribe pelos ciclones tropicais de 2017 (Maria, Irmae José) alteraram o turismo em San Blás. “Muitas empresas que faziam charter no Caribe vieram para o Panamá pela primeira vez. Haviam muitos barcos enormes que não costumavam atuar aqui”, explica Elaine. 

Gabriel conta que, pelo excesso de veleiros na última temporada, os gunas começaram a rever regras. “Por enquanto, estão controlando os barcos para saber quais fazem charter”, completou Gabriel.

“A estrada que conecta Guna Yala ao resto do país segue aberta a todos os visitantes que não violarem as regras de nossa comarca. A medida visa fortalecer que os turistas de veleiros ilegais não desrespeitem nossas leis”, justifica o secretário de comunicação do Congresso Geral de Guna Yala, Anelio Merry López. O Congresso é a instância máxima da Comarca de Guna Yala. Conforme López, na última Assembleia do Congresso, em junho, ficou estabelecido que os barcos que fazem turismo de charter podem ser multados no valor de U$ 5 mil ou 5 mil balboas (a moeda local, balboa, é o equivalente ao dólar norte-americano). 

Por terra

Além de veleiros e charters, outra opção de conhecer a região é se hospedando em uma das cabanas rústicas que existem em cerca de 30 ilhas habitadas do arquipélago. Nesse caso, a ausência do luxo é compensada pelos atrativos naturais. 

Para chegar lá, o ideal é contratar uma agência local, que conhece as sinuosas estradas que ligam a Cidade do Panamá ao território dos gunas – que cobram uma espécie de pedágio no caminho. São cerca de 5 horas de viagem até porto de Barsukun, um dos que levam turistas às principais ilhas habitadas. 

Aos que desejam uma dose a mais de aventura, também é possível conhecer Guna Yala em viagens que duram quatro dias, com Cartagena, na Colômbia como destino inicial ou final. A expedição é feita em pequenas lanchas ou barcos locais e custam cerca de US$ 150. Os turistas, em sua maioria europeus, dormem em redes armadas nas ilhas ao longo do caminho. 

ANTES DE IR

Como chegar: SP – Cidade do Panamá – SP: R$ 2.021,99 na Copa Airlines. De lá, são mais 5h de carro até o território Guna (agências fazem o percurso por US$ 50). A parte final do trajeto, até ilhas habitadas, é de barco.

 

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