Kieran Doherty/Reuters
Kieran Doherty/Reuters

Carta para o Pitoco (de quando o seu dono foi viajar)

Eu, que não sou muito de sentir saudade, vou ter que admitir que com você é diferente

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

03 Abril 2018 | 03h00

"Caro Pitoco,

Quando essa carta estiver embaixo da sua caminha, eu já estarei viajando. Sabe, velhinho, assim como você precisa sair três vezes por dia para carimbar os postes da nossa rua, eu também preciso ‘sair’ de vez em quando em busca de novos postes. Aqui, entre os bípedes, costumamos chamar isso de férias.

Eu, que não sou muito de sentir saudade, vou ter que admitir que com você é diferente. Você é o meu despertador de todas as manhãs, minha primeira interação de todos os dias, a primeira bronca que eu levo quando me demoro no banheiro – e você late e resmunga ansioso para passear. Já estou com saudade de ver você pedindo para subir no sofá e, lá de cima, assistir comigo algum jogo de futebol. Acho que você torce para o Real Madrid.

Estou com saudade também de ver você organizar seus porquinhos de pelúcia no tapete do corredor. Você tem toque de arrumação. Talvez precise de terapia. Mas, cá entre nós, acho fofo.

Bom, como eu ia dizendo, vou passar quase 30 dias fora. Felizmente, você é um cão de sorte e tem muitos donos. Não vai te faltar nada. Água e ração irão brotar das mesmas vasilhas – que estarão no mesmo cantinho da cozinha. Tente maneirar nas outras comidas. Franguinho desfiado só aos domingos. Não faça cara de pidão quando as pessoas estiverem tomando sorvete ou comendo pizza. Não te faz bem. Ainda assim, sei que vai conseguir mastigar algumas bordinhas (sua cara de vira-lata faminto é irresistível). Ah, aquele líquido meio amarelo não é pra lamber. Aquilo é uísque. Você não pode com isso.

Qualquer dorzinha, reclame. Vontade de fazer xixi, resmungue. Pulgas, carrapatos ou afins, coce.

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Seja educado com as visitas. Todo mundo que entra em casa é legal e de confiança. Tem gente que você só vai ver uma vez na vida. Então, não se apegue tão facilmente. Ainda vale o nosso combinado. Se a porta do quarto estiver fechada, espere sem reclamar. Você sabe, não costuma demorar. Além do mais, no final, você sempre ganha um ossinho como recompensa.

No final desse mês, você vai ter que tomar vacina. Já combinei com o seu outro dono. É ele quem vai te levar. Seja forte. É só uma picadinha. A veterinária é bonita e te acha super cool. Você também tem banho agendado. 

Uma dica: não fique tão desesperado na frente da cadelinha da vizinha. Hum, isso soou ruim. O que eu quero dizer é: não fique tão desesperado na frente da Lulu da Pomerânia da vizinha. Se faça de difícil. Você é um cachorro experiente. Mantenha a postura que uma hora ela vai olhar pra você. Essa Lulu é chegada em um coroa. E você, Pitoco, apesar dos presumidos 14 aninhos, está com um pique de fazer inveja a muito filhote por aí.

Você nem vai notar minha ausência. Ou melhor, quando eu voltar, vai fazer o mesmo escândalo que sempre faz quando passo um dia fora, quando passo 8 horas fora, quando passo 10 minutos fora, quando saio para jogar o lixo no corredor e você age como se eu tivesse passado por um portal fantástico e desaparecido do planeta.

Deixei uma camisa velha na sua caminha para que você fareje meu cheiro caso se sinta sozinho ou tenha saudade. Continue lendo os poetas russos. E você também sabe ligar a Netflix.

Quando chegar, Pitoquinho, prometo deixar a mala no corredor e, imediatamente, sair para passear com você. Vou te trazer um presente.

Fique firme. Não morra. Não morra nunca. E não esqueça de mim.

Beijos no focinho.”

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