Caruaru é centro de tradições populares

Entre zona da mata e caatinga, no agreste pernambucano, está Caruaru, cidade feita da argila de seus artesãos, nascida e sustentada nas feiras populares e festejada no arrasta-pé de São João. Sua poesia sai das loas, versinhos de improviso recitados na hora de comer ou de cantar. Sua realidade sai de onde nada parece possível sair: do chão seco, que molhado vira barro, que trabalhado vira obra da arte sertaneja. Ou, ainda, do dia do santo João, quando tem fogueira, muita festa e pamonha para comer. Sai também das barracas enfileiradas na confusa Feira da Sulanca, onde a gente da cidade e do campo se encontra para vender e comprar as coisas que vêm do Sul. A 130 quilômetros do Recife, Caruaru mostra a quem quiser ver a vida no Nordeste, bonita muitas vezes, sofrida outras tantas. É um turismo gostoso de se fazer. Principalmente porque a história da cidade se confunde com as histórias contadas por sua gente. Assim, parte dela se aprende nos museus da cidade e parte, em suas ruas. Veja o Museu do Barro de Caruaru, cujo espaço ganha o nome de Zé Caboclo, em homenagem a um dos mais ilustres seguidores de Mestre Vitalino. Lá, o visitante descobre, com um guia, que Mestre Vitalino retratava em seus trabalhos o dia-a-dia do matuto e vê obras bonitas como o Bumba-Meu-Boi e Cavalo-Marinho, de Manuel Eudócio. Mas só vai conhecer de perto o encanto de dar vida ao barro quando andar pelas ruas do Alto do Moura, berço da arte figurativa nordestina, onde moram os herdeiros de Vitalino. No final fica a constatação de que as mesmas mãos que plantam o milho para fazer a pamonha mais apreciada do Nordeste trabalham o barro para dar vida à arte figurativa. Como disse Mestre Vitalino, pai de todos os homens de barro do Brasil, "era mais importante que eu aprendesse a usar minhas mãos que minha cabeça. Na minha terra as mãos produzem comida e a cabeça só produz confusão." Outro exemplo se dá com o forró. Porque no Museu do Forró Luiz Gonzaga está a trajetória do Rei do Baião, com discografia completa e as roupas e a sanfona de 120 baixos usadas no derradeiro show, de 2 de junho de 1989. Gonzagão também está em fotos ao lado de Carmélia Alves - a rainha do baião - e Humberto Teixeira, com quem compôs Asa Branca. Está tudo lá, preservado no museu - e a visita é indispensável. No entanto, os ritmos de Caruaru, com o xote, o xaxado, o baião e o forró pé-de-serra, só têm vida nos trios regionais de sanfona, zabumba e triângulo espalhados nas ruas da cidade na época de São João. A entrada nos museus é gratuita e na festança de São João também. Infra-estrutura - Caruaru está pronta para o turismo. Tem razoável rede hoteleira, com estabelecimentos de até quatro-estrelas. Há também bons restaurantes de comida regional, caso do Mestre Vitalino (Rua Leão Dourado, 13, 0--81-3721-0499) e do Tia Teta (Avenida Agamenon Magalhães, 553, 0--81- 3721-4265). Não espere mordomia. Mordomia seria chegar ao agreste voando, mas o avião da BRA que fazia o primeiro vôo comercial entre São Paulo e Caruaru, no fim de fevereiro, atolou na área de embarque do Aeroporto Oscar Laranjeira, adiando até depois de agosto o sonho da cidade de receber vôos regulares. Mesmo com o insucesso da operação, a companhia aérea vai manter traslados terrestres entre Caruaru e Recife. Não só pelo turismo, mas também para os comerciantes da Sulanca. A partir dali, o turista também pode tomar parte da Paixão de Cristo, espetáculo encenado há 34 anos em Fazenda Nova, no município de Brejo da Madre de Deus. A cidade-teatro, o maior palco a céu aberto do mundo, fica a 47 quilômetros da Princesa do Agreste, apelido popular de Caruaru. Mais de 2 milhões de pessoas já viram a montagem.

Agencia Estado,

12 de março de 2002 | 11h51

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