Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Catamarã é o novo camarote do pôr do sol do Jacaré

Repaginado depois de muitas polêmicas, passeio segue sendo um clássico paraibano

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2017 | 04h30

CABEDELO - Na Paraíba, quem diz que um clássico nunca muda está errado. O famoso espetáculo do pôr do sol na Praia do Jacaré, responsável por reunir centenas de turistas todos os dias em Cabedelo, cidade vizinha ao norte de João Pessoa, foi repaginado – não sem protestos, é verdade. 

Os bares sobre palafitas, que por anos disputaram clientes interessados em acompanhar o crepúsculo às margens do Rio Paraíba, não existem mais. Agora, são os catamarãs que assumiram o posto de camarote do evento e praticamente tomam conta da atração mais popular do Estado.

Uma coisa permanece igual: a trilha sonora. Com mais de 5.700 apresentações no currículo, o músico Jurandy do Sax continua executando o Bolero de Ravel, composição do francês Maurice Ravel (1875-1937), de dentro do rio, enquanto o sol vai se escondendo atrás da mata ciliar. Às 17 horas, ele surge à bordo de uma canoa, com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo e vestido de branco da cabeças aos pés (exceto pelo lenço amarelo que traz no pescoço). Parecendo entrar na dança, gaivotas cortam o céu, e o rio vai se tingindo de dourado. A cena resume um pouco a beleza da Paraíba.

Então agitados por quadrilhas e apresentações de forró, os catamarãs ficam quietinhos para ouvir Jurandy tocar. Ele passa a maior parte dos 15 minutos da música ziguezagueando na frente das embarcações. Ao fim, sobe de um em um, onde se apresenta, fala um pouco dos mais de 16 anos de Bolero de Ravel ao pôr do sol e executa mais três ou quatro canções. Nem se compara à atenção prestada aos que ainda preferem ficar em pé no calçadão da margem, muito menor.

Fim das palafitas. Mas nem sempre foi assim. Após a ordem judicial que fez tratores passarem por cima dos bares na Praia do Jacaré, em 2015, Jurandy protestou. Fez desabafo nas redes sociais, chegou a declarar luto. Hoje, já adota um discurso mais resignado. “Vivemos um período de ajustes, porque os restaurantes deixaram uma lacuna”, diz o músico. “Antes as pessoas vinham mais cedo, havia um período maior de movimentação comercial, mas, por outro lado, a contemplação do espetáculo está maior agora.”

Era comum bares e catamarãs discutirem por espaço para assistir à apresentação – problema que deixou de existir com a sobrevivência de só um dos empreendimentos que capitalizavam o show. Ainda que não cobrassem couvert, os restaurantes lucravam com bebidas e petiscos. Hoje, se quiser ter uma visão privilegiada, é preciso desembolsar entre R$ 30 e R$ 40 por pessoa, preço da entrada na embarcação.

No catamarã, as atrações começam antes de o sax de Jurandy emitir a primeira nota, que também será reproduzida nas caixas de som dos barcos. As primeiras embarcações começam a sair às 16 horas e iniciam um tour pelo Paraíba. O clima é de muita descontração, com guias turísticos bem humorados e músicos (há uma clara preferência por saxofonistas que, vale dizer, não podem tocar o Bolero, uma vez que Jurandy patenteou a ideia).

O passeio atrai crianças, adultos e idosos. O ideal é comprar o ingresso com antecedência, porque há risco de lotar – os hotéis têm indicações. Um dos pontos altos é quando Lampião e Maria Bonita, dançarinos profissionais, convidam os turistas para o forró. Apesar de a fantasia de cangaceiro soar meio fake em um catamarã, a risada é garantida. Depois, o grupo forma uma quadrilha animadíssima, especialmente porque são poucos os que realmente dominam a dança.

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