Karla Spotorno/Estadão
Karla Spotorno/Estadão

Cataratas do Niágara: natureza em estado bruto

Niágara tem toda natureza desnuda, mas está numa área absolutamente urbana e a experiência é cheia de conforto

Karla Spotorno, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2019 | 09h00

Sabe aquela sensação arrebatadora de materialização de tudo o que você planejou para uma viagem (desde a infância, em muitos casos)? Pois é. Ficar cara a cara com as Cataratas de Niagara tem essa capacidade. Diria que o destino pertinho de Toronto, no Canadá, tem o mesmo efeito “carimbo-no-passaporte-mental” que a primeira vez de frente à Torre Eiffel, ao Big Ben ou ao Taj Mahal.

No caso de Niágara, aqueles milhões de litros de água caindo de forma torrencial e molhando os turistas – ficar molhado faz parte da diversão – servem de prova que, sim, você está numa das atrações turísticas canadenses mais famosas e, especificamente, na fronteira com os Estados Unidos.

Para mim, chegar à plataforma principal do caminho Behind the Falls (Por trás da queda), uma das atrações do lugar, foi como entrar no livro de geografia da quinta série quando aprendi sobre os Grandes Lagos. Ou ainda voltar no tempo e lembrar das risadas com o episódio Pica-Pau Desce as Cataratas (Niagara Fools, no título em inglês, disponível no YouTube) do personagem de desenho animado. 

Sentir a força destruidora e fantástica da queda d’água também significou presenciar de forma privilegiada a natureza em seu estado bruto. Claro, a experiência é cheia de conforto: tem calçada lisa, degraus construídos com cimento, farta sinalização e até elevador em algumas atrações. Mas, se o nível de dificuldade da aventura possa ser zero, a catarata é, genuinamente, a natureza.

Claro que chorei de emoção na plataforma que fica mais perto da queda canadense. E claro que agradeci estar com a cara molhada, porque assim meus colegas de capa amarela não percebiam o mico de eu chorar por estar olhando água.

Muitos que visitam Niágara atestam sem medo de parecer nacionalista ou de desmerecer opinião contraditória que o passeio a Foz do Iguaçu é muito mais completo e rico em termos de natureza e, obviamente, mais barato para os brasileiros. É pura verdade que as Cataratas do Iguaçu oferecem uma natureza deslumbrante.

Dentro de um parque nacional com trilhas, fauna e flora tropicais, Foz é Patrimônio Natural da Humanidade e uma das Novas Sete Maravilhas da Natureza, juntamente com outra beleza brasileira, a Floresta Amazônica.

Já Niágara tem toda natureza desnuda, mas está numa área absolutamente urbana. Tem tantas atrações construídas por humanos – de Hard Rock Café, a campo de golfe, a parque de diversões, a cassino – que, se o turista não quiser, nem precisa admirar a natureza.

Um ponto apaixonante e especial é que Niágara é um passeio essencialmente democrático. Se o turista quer conhecer o lugar, mas não desembolsar nenhum centavo de dólar canadense nas atrações ligadas às cataratas, não precisa. A queda d´água é visível da calçada, de onde é dá para fazer fotos lindas e ainda se molhar com as gotículas que vêm flanando pelo ar.

Da estação de trem ou dos ônibus de linha que chegam de Toronto, é possível ir, inclusive, caminhando até o encontro com a água. A caminhada leva pouco menos de 30 minutos e revela uma cidadezinha pequena, de casas bonitas e moradores orgulhosos que enchem de flores seus jardins. Quem está em Toronto e decide ir de ônibus para Niagara Falls deve ir até o Coach Terminal (Endereço Bay Street, 610, quase na esquina com a Dundas Street), onde a primeira partida é às 6h.

As empresas que fazem o percurso são a Greyhound e a Megabus. A viagem leva 1h30 ou mais, porque depende do número de paradas no percurso segundo o horário. O preço também varia de acordo com o horário, mas a passagem sai a partir de 19 dólares canadenses o trecho.

Quem decide ir de trem deve ir até a principal estação da cidade, a Union Station, de onde saem de manhã e chegam à tarde os trens para Niágara (21,15 dólares canadenses, o trecho). Mais informações no site da GoTransit

Para quem quer conhecer mais a queda, a Niagara Parks, agência ligada ao governo da província de Ontario e criada em 1885, recomenda o passaporte com as quatro atrações mais requisitadas e que custa 65 dólares canadenses por adulto (todos preços sem os impostos).

Um deles é o passeio de barco Hornblower Niagara Cruises. Comprado individualmente, o ingresso sai por 25,95 dólares canadenses. O pequeno cruzeiro dura cerca de 20 minutos e chega o mais perto possível da queda, o que varia com as condições da correnteza e do volume de água.

Descrevendo parece bobo. Mas o sobe e desce da embarcação e a chuva forte provocada pelo vento e a queda d’água são indescritíveis. Ainda que tenha lugar seco dentro do barco, a maioria dos passageiros prefere ficar com suas capas de chuva vermelhas na proa e nas laterais para aproveitar (ou seria correto dizer, se molhar) o máximo possível. 

O passaporte também inclui o Niagara Fury, uma sessão de cinema em 4D.  experiência em 360º é cheia de efeitos sensoriais: a plataforma balança em alguns momentos, uma pequena cascata jorra água da base da tela e até chove.

Outro passeio é o White Water Walk, uma passarela na margem do rio e que encanta quem se fascina pelo barulho, a força e a velocidade da água. O rio tem grau máximo (classe 6) na escala internacional de dificuldade, segundo o sistema americano de classificar a navegabilidade de rios.

Ao longo do trajeto, há pontos de observação com informações sobre a geologia, fauna e flora. Para chegar até a atração, é preciso de transporte. É possível ir de carro (estacionamento gratuito para quem tem o passaporte) ou pegar o ônibus WeGo (sistema embarque e desembarque) ao qual o turista tem direito com o passaporte sugerido pela Niagara Parks. O ônibus faz algumas linhas pela parte turística das Cataratas do Niágara, inclusive ligando o terminal de ônibus e de trem até as cataratas.

Outro passeio é o Behind the Falls, que leva o turista, literalmente, a caminhar por trás da queda d’água, por túneis construídos há cerca de 130 anos. Para chegar lá, é preciso descer de elevador o equivalente a 13 andares, partindo do principal centro de atendimento ao turista e bilheteria do parque, o Table Rock Centre.

No site da Niagara Parks, consta que esse é o melhor passeio para quem quer ver as cataratas. Tem quem não concorde e aponte o passeio de barco como o mais sensacional. Para mim, é o melhor. Ao comprar separadamente, a jornada custa 21,95 dólares canadenses.

Quem procura um pouco mais de adrenalina pertinho da água vai curtir a tirolesa sobre a margem direita do rio. De uma altura de 67 metros, a jornada leva poucos segundos, visto que o viajante pode voar o percurso de 670 metros a 70km/h ou mais. Por pessoa, custa 59,99 dólares canadenses, sendo que o primeiro voo é mais barato (49,99 dólares canadenses). No site, tem mais informações sobre preços e pacotes para famílias. Como a tirolesa comporta até quatro pessoas, você pode descer com mais três parentes e/ou amigos. 

A partida é muito suave: não precisa de empurrão e nem dá aquela sensação de “tô caiiiiindo”. E, ainda que os monitores sejam em sua maioria (muito) jovens, o sistema de segurança dá muita confiança mesmo a quem está debutando no passeio aéreo. Mesmo sendo uma experiência ultrarrápida, a vista do rio e da queda, somada ao vento batendo no rosto fazem valer cada dólar canadense. Para voltar, há um carrinho elétrico parte da loja de suvenir colada na plataforma de desembarque.

Para ir ainda mais alto sobre as águas de Niagara, é possível fazer um sobrevoo de helicóptero. No site da Niagara Helicopters, tem diferentes possibilidades e preços. O tour clássico dura 12 minutos e é o mais requisitado segundo a empresa, que atua desde 1961. O ingresso custa 149 dólares canadenses por adulto (a partir de 13 anos).

Niagara Falls tem essas e muitas outras atrações. Mas não, não tem brincadeira com barril, nem menção ao Pica-Pau. O máximo que dá para fazer para reviver o desenho é vestir a capa amarela e imaginar o guarda do parque descendo as cataratas, gritando “heeey”.

 

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