Roman Nemee/Estadão
Roman Nemee/Estadão

Cativeiro na Baía de San Sebastian

53°12'00?S 68°19'59?O - “Pela primeira vez na minha vida fiquei tanto tempo em um barco e em alto mar. Para mim, que nunca tinha velejado, foi difícil ficar tanto tempo tendo de lidar com enjoos, mares agitados, dias de tédio. Conviver com desconhecidos por tanto tempo foi uma experiência incrível. No geral, nos demos todos muito bem, apesar de cada um ter sua personalidade. Por isso, tivemos alguns pequenos conflitos, mas nada demais. O desafio dessa interação é ter paciência e saber lidar com as diferenças.” Marine Chevallier, jovem estudante de Paraty.

Ramon, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2017 | 02h30

  Pouco depois das 3 horas, sou acordado pelo capitão para o meu turno. Preparo um chá preto com leite no qual coloco algumas gotas de rum para me esquentar. No barco inteiro reina um frio silencioso, só o motor murmurando sua melodia. Na ponte de comando troco com Lauro que, cansado, deita na sua cama e, no mesmo instante, adormece. Anoto no diário do barco as informações sobre nossa posição e pressão barométrica e já começo a controlar a posição das velas, as quais batem numa rajada repentina, descendo vez ou outra da poltrona para olhar a tela de radar por enquanto vazia.

De vez em quando alguém fala no rádio, o que inesperadamente soa como um trovão em meio ao silêncio. O indicador do barômetro cai e chega a prevista baixa acompanhada pelas rajadas fortes. Com a aurora, por volta das 7 horas, subimos com Marcão para o convés e damos boas-vindas para o sol, um novo dia frio e famílias inteiras de toninhas patagônicas, as quais pulam com alegria nas ondas criadas pelo nosso barco. Os majestosos albatrozes chegam logo em seguida para se divertir com o “vácuo” criado por nossas velas.

O Endurance é um veleiro muito elegante e forte que tem 67 pés e foi projetado pelo famoso construtor belga Thierry Stump. Tem um pouco mais de 10 anos, muitos dos quais passou apenas na Patagônia. Seu casco é composto de placas grossas de alumínio dobradas a frio e todas as partes de cordame foram projetadas para durar nas condições extremas de vento. Quanto às velas, possui três: genoa, bujarrona e grande. O interior da embarcação é bem confortável e torna agradável a viagem para toda a tripulação durante longas travessias. Então, olhando dessa forma, tanto a tenacidade do capitão quanto o barco recebem, merecidamente, o nome “Resistência” (Endurance). 

No final da tarde, molhados e quase congelados por causa do vento frio, ancoramos na frente de um farolzinho, na enseada de San Sebastian, que fica ao norte da cidade de Rio Grande, na Terra do Fogo. A enseada oferece uma proteção limitada contra o bramido do vento sudeste. Baixamos 60 metros de corrente achando que vai ser suficiente. E, assim, finalmente chega a hora em que posso tirar as panelas do armário e preparar um goulash de carne, prato tradicional do leste europeu. A tripulação inteira se reúne atrás da grande mesa do salão, num lugar aparentemente seguro, enquanto sirvo um jantar quente com um belo vinho (Malbec, ano 2013).

No rosto de todos é possível observar grande exaustão. Até hoje, cada um de nós havia passado pelo seu inferno pessoal, seja por causa dos enjoos incessantes, das panelas dançando ou devido às inesperadas falhas de motor e navegação dura. Naquele momento, entendi que havia chegado a hora certa para que eu contribuísse com boa comida e boa bebida, o que iria mudar positivamente o humor de todos. Marcão telefona para o dono do veleiro, que nos informa sobre os ventos fortes e a profunda área de baixa pressão. A previsão fala de até três dias, durante os quais a baía sombria se torna nossa prisão.

Os dias passam devagar a bordo do Endurance. A âncora e a corrente forte estabilizam parcialmente o barco e, no salão, os tripulantes se divertem com o jogo Batalha Naval, enquanto os irmãos Bins falam até o anoitecer sobre suas inúmeras experiências de viagem.

Felipe, jornalista de São Paulo, emotivamente comenta o atual fracasso político no Brasil; Rodrigo, empresário do Rio Grande do Sul, explora um novo mundo de aventuras marítimas por meio de livros dos famosos autores Ernest Shackleton e Amyr Klink; nossas duas marinheiras, Adriana e Marine, que geralmente dormiam a maior parte do dia, não tomam mais Dramin e, alegremente, se juntam à conversa no salão ou me ajudam na cozinha. As duas realmente merecem grande admiração, porque se juntaram a essa expedição sem saber o que esperar.

Com a meia-noite chegam as rajadas fortes de até 45 nós por hora. “Alarme! Alarme: a âncora  se soltou e o barco se aproxima das rochas!”,  grita o capitão. O vento frio nos desperta rapidamente e, depois de uma luta com o guincho quebrado, soltamos de novo a âncora. “Sugiro soltar uma âncora reserva, para ter mais segurança”, digo para o Marcão, que, afinal, concorda.

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