Causos e sustos sob a lua cheia

Para degustar Diamantina é preciso deixar-se empanturrar de história e embriagar-se de causos, qual fossem feijão tropeiro e cachaça. As ruas de pedra carregam tempero comum às cidades coloniais, mas com um quê só daqui. Cada esquina tem sabor. Adicione uma pitada de lendas urbanas ambientadas em um bem preservado casario colonial a uma boa porção de alegria seresteira e carnavalesca. Para arrematar, cada uma de suas 15 igrejas enche o peito de entusiasmo e coragem.

DIAMANTINA, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2014 | 02h06

Por sinal, um pouco de valentia é pré-requisito necessário para seguir a pé no city tour de lendas da agência Minhas Gerais (38-3531-1667), subindo e descendo ladeiras, ouvindo e confabulando sobre curiosas - para não dizer assustadoras - histórias que o povo conta. Espelho de Diamantina, a Serra dos Cristais é simétrica à cidade e onde, dizem, ocorrem as aparições da Mãe do Ouro, uma bonita mulher iluminada da qual é preciso se aproximar sem medo. Segundo a lenda, quem não a teme ela torna rico. Os medrosos, porém, desaparecem para sempre.

Na Praça da Unesco, batizada após o tombamento de Diamantina, em 1999, uma casa do século 18 é o ponto de partida. Locação do seriado A Cura, da TV Globo, carrega a fama de ter abrigado dois exorcismos.

Depois de uma ladeira chatinha, outra casa ali perto - que hoje abriga uma república de estudantes - teve, em 1978, um episódio de possessão. Urânia Ferreira, nossa intrépida guia, pede que não revelemos o nome da rua e nem o da república, para não semear o pânico. Ok, não conta para ninguém, mas parece que uma criança teve a perna puxada por um monstro escondido atrás da porta...

Mais adiante, a Igreja das Mercês, palco de uma das histórias mais famosas. Uma mulata e um homem negro teriam se apaixonado perdidamente, sem o consentimento da família dele. Resolveram fugir. Com o padre da igreja, combinaram um encontro no dia seguinte, para se casarem ali às 18 horas e partir em seguida. No entanto, o pai do moço descobriu a intenção e lhe pediu o favor de ir a uma cidade vizinha.

Ao perceber que estava atrasado, ele saiu em disparada rumo a Diamantina. Ela, nervosa e impaciente, ao badalar do sino às seis da tarde, acreditou ter sido abandonada e enforcou-se no alto da torre. Ele chegou a tempo de ver sua amada balançando com o sino. E assim surgiu a lenda da Noiva da Igreja das Mercês. Toda meia-noite, dizem, ela aparece na igreja. Confesso que olhando de relance, o cabeçal (suporte de madeira que segura o sino) tem o perfil de uma noiva, com véu e tudo. Finalmente, um calafrio.

Noite adentro, sob a lua cheia, ainda ouviríamos outra meia dúzia de bons causos, como o da procissão dos mortos, que ocorre todo dia 15 de julho dentro (!) da Igreja Nossa Senhora do Carmo, a mais rica da cidade, com 150 quilos de ouro na decoração. O tour termina na igreja do Rosário dos Pretos, primeira de Diamantina, de 1728. Do alto desta torre, dizem, o noivo viúvo e a noiva enforcada se comunicam nas noites de lua cheia. / FELIPE MORTARA

A Vila do Vau é o único ponto de parada oficial da Estrada Real. Pertinho de Diamantina, ali os viajantes podem usar chuveiros e a cozinha gratuitamente. Na lojinha, café fresco e, com sorte, biscoitos de polvilho assados na hora

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