Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Celle: encontro com o barroco

Foram as casas em estilo enxaimel que deram fama à cidade onde Haesler ergueu os primeiros prédios em ‘estilo Bauhaus’

Mônica Nóbrega, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2019 | 03h50

É por causa de sua coleção de quase 500 casas de estilo enxaimel, conservadas em um centro histórico que entrega aquela Alemanha meio folclórica, meio conto de fadas que a gente tem na cabeça, que Celle existe turisticamente. É o maior conjunto de construções desse tipo na Europa, um patrimônio barroco nesta cidade-dormitório de 70 mil habitantes nos arredores de Hannover

Patrimônio que, este ano, vem sendo celebrado junto com o centenário da Bauhaus por causa de um arquiteto: Otto Haesler. 

Haesler (1880-1962) viveu e trabalhou em Celle de 1906 a 1933. É considerado um dos criadores do movimento Neues Bauen, que começou a revolução no jeito alemão de morar no começo do século 20 e influenciou decisivamente a Bauhaus. Projetou em Celle três conjuntos habitacionais destinados a trabalhadores de renda média para baixa. 

Apesar de sua obra volumosa, Haesler ficou perdido na história de Celle durante muitos anos. Seu resgate começou há cerca de uma década e culmina, este ano, com o slogan “o barroco encontra a Bauhaus”. 

No centro histórico, em um passeio entre as casas enxaimel, começou o city tour. Diante da cafeteria Kiess & Krause, aberta em 1871 e remodelada internamente por Otto Haesler em 1928, o nome do arquiteto surgiu pela primeira vez. Assentos e mesas ainda em uso saíram das pranchetas de Haesler – há uma pequena exposição sobre ele ali.

Mas foi nas paradas seguintes que a influência do arquiteto na Bauhaus ficou evidenciada. No Italian Garden (1923 a 1925), primeiro dos conjuntos habitacionais projetados por Haesler que visitamos, vimos as janelas verticais e fachadas pintadas em vivas cores primárias. Na época, as cores estabeleceram um diálogo consciente com o movimento holandês De Stijl, de Gerrit Rietveld e Piet Mondrian. Os dois movimentos estéticos foram contemporâneos – De Stijl, que completou seu centenário em 2017, também buscava formas limpas e espaços mais funcionais. 

Outro conjunto habitacional, St. Georg Garten (1925 a 1927) tem linhas retas, nada de ornamentos e as amplas janelas envidraçadas que, na época, escandalizaram a conservadora Celle. Blumläger Feld (1930 a 1931), ainda mais minimalista, foi o projeto mais bem sucedido do arquiteto em termos de funcionalidade e baixo custo das residências. 

Escola de vidro

Já no quesito residências de custo não tão baixo assim, a Vila do Diretor (1930 a 1931), projetada para um diretor de ginásio escolar, virou galeria de arte em 2006. No dia de minha visita, o espaço receberia uma peça de teatro, e foi interessante circular pelos cômodos transformados em camarins entre araras de roupas e pedaços de cenário. 

O projeto mais famoso de Haesler, no entanto, é a “escola de vidro”. Visitar a Altstädter Schule é um sopro de otimismo acerca do que podem ser os espaços da educação pública. O prédio de fachada simétrica data dos anos de 1926 a 1928. Todos os ambientes, salas de aula, corredores, laboratórios são amplamente iluminados por janelas de vidro enormes. Mesmo os móveis foram projetados por Haesler. É de ficar imaginando o conforto que vive uma criança ao frequentar uma escola tão bonita, clara, estruturada. E gratuita. 

A visita ao interior da escola está incluída em tours guiados, que podem ser feitos a pé, de bicicleta, segway ou no trenzinho onde foi meu grupo – cômodo e barato, 3,50 euros (R$ 15), mas um tanto constrangedor. Ou vá ao Centro de Informações Turísticas (Rua Market, 14-16), na área histórica – em uma casa enxaimel, claro. 

O que mais ver em Celle

Jardim Francês

O trenzinho cruzou a alameda central, ladeada por árvores milimetricamente enfileiradas, e me deixou com vontade de caminhar demoradamente por ali. Este parque do século 17 tem gramados cuidadosamente aparados, plantas podadas em formatos geométricos, lago, sombra, sol e descanso. 

 

Castelo dos Duques

A história da fortaleza começa no século 14. Com reformas ao longo dos anos, tornou-se a suntuosa residência dos duques de Brunswick-Lüneburg. A arquitetura empilha referências gótica, renascentista e barroca. Ingressos custam de 8 a 11 euros (R$ 33 a R$ 46); em datas selecionadas há até tours guiados por atores em roupas de época.

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