Cem anos de solidão

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2015 | 00h00

Nosso aguerrido correspondente britânico anuncia que está perambulando pela Jamaica, a caminho do Goldeneye Resort, de Chris Black-well, um bom e velho amigo. Mr. Miles vai na companhia de Trashie, sua raposa das estepes siberianas. Para quem não sabe, Blackwell (e sua gravadora Island Records) foi o primeiro a gravar Bob Marley e toda uma geração que consagrou o reggae ao redor do mundo. Foi Blackwell, também, quem lançou uma certa banda chamada U2, “mas, neste caso, graças a um empurrãozinho meu”, confessa mr. Miles. O resort mencionado é a antiga propriedade onde Ian Fleming concebeu o personagem James Bond e escreveu quase todas as suas histórias.

A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles, tenho a impressão de que, por trás desse humor aparente, o senhor deve ser um homem muito solitário, que viaja sem parar porque não tem nada nem ninguém que o prenda em um lugar para chamar de lar. O senhor conhece o significado da palavra saudade?

Carlos Henrique Tonelli, por e-mail

Well, my friend, sua opinião a meu respeito não é exatamente lisonjeira, mas suponho que existam outros leitores que dela compartilham. E é muito justo que assim seja, I must say, porque, para um olhar objetivo, sou, de fato, apenas um súdito da Grã-Bretanha que viaja sozinho com um frequência acima do comum.

Permita-me, entretanto, discorrer um pouco mais sobre esse tema. Para um olhar objetivo, my fellow, a Esfinge de Gizé é apenas o corpo de um felino sustentando um rosto humano que, não bastasse a incoerência, ainda por cima carrega um nariz dilacerado; a Torre Eiffel não é nada além de uma pontiaguda estrutura de aço que, probably, para evitar pagar taxas municipais, não teve acabamento e nem solicitou o Habite-se; livros são papéis com tinta e a Lua, um satélite da Terra.

Não há nada errado com a objetividade, of course, mas ouso dizer que ela é apenas parte de um olhar. Don’t you agree?

Não, my dear Charles, não sou um homem solitário. Sinto-me sozinho sometimes, como qualquer outro ser humano, que viaja ou não. Meu fornecedor de açafrão e grande amigo, Ahmed Abdul, que tem quatro esposas, três sogras e 14 filhos também chega a sentir-se assim. And he has four homes!

De forma geral, porém, a atividade de viajante vem me rendendo, ao longo dos anos, uma sensação exatamente oposta a que você descreve. Tenho pessoas queridas em inúmeros lugares do mundo. Sou chamado de padrinho em quatro dezenas de idiomas diferentes. Há drinques e pratos com o meu nome – homenagem de generosos amigos – em bares e restaurantes de lugares como hotéis de luxo e – shame on me! – até em áreas de meretrício. E, of course, há cidadãos que não gostam de minha companhia em todos esses lugares as well. Mas, como você vê, não me faltam pessoas queridas, exatamente como em uma família, you see? Com uma vantagem adicional: como estou sempre de passagem, logro evitar os desgastes de uma convivência prolongada. Se o ambiente no lugar não estiver devidamente harmônico, basta pegar meu bowler hat e dirigir-me ao aeroporto mais próximo.

Yes: foi minha opção transformar o mundo em um lar e o único desconforto dessa escolha é a última palavra de sua pergunta. Não, my friend, não conheço o significado da palavra saudade. Mas vivo com ela e por isso nunca estou sozinho.

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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