Adriana Moreira
Adriana Moreira

Cenário de sonho

Há cem anos, Roald Amundsen pisava pela primeira vez no Polo Sul. Hoje, roteiros turísticos levam ao continente mais de 30 mil visitantes ao ano - com muito mais conforto, é claro

Adriana Moreira / PENÍNSULA ANTÁRTIDA,

12 Dezembro 2011 | 22h00

O sonho começa navegando por um mar azul. Baleias e pássaros gigantes acompanham a embarcação, que segue sem que se aviste sinal de terra. Como por encanto, a paisagem se transforma: surgem picos nevados, paredes de gelo azul, um continente completamente branco. E você percebe que não se trata de sonho, mas da mais pura realidade.

Diante de tal cenário, não é de se estranhar que o navio que abriu a temporada 2011/2012 de cruzeiros à Antártida leve sonho no nome. O Antarctic Dream carrega até 80 passageiros rumo a uma mesma utopia coletiva: colocar os pés sobre o continente gelado.

Na última temporada - normalmente, de novembro a março -, 33.824 pessoas, segundo a Associação Internacional de Operadores de Turismo na Antártida (Iaato, na sigla em inglês), realizaram tal façanha. A maior parte delas chega em navios de cruzeiros, a partir principalmente de Ushuaia, no extremo sul argentino.

Para encarar uma aventura como essa é preciso começar esquecendo tudo o que se sabe sobre cruzeiros - até porque não se trata de um cruzeiro propriamente dito, mas de uma expedição. A diferença se nota já na hora de fazer a mala. Deixe de lado as roupas estilosas e troque por peças quentes e confortáveis - seus fiéis companheiros de viagem serão um moletom e um par de tênis, com os quais você vai circular pelo navio. O que é ótimo, já que será preciso economizar no tamanho da bagagem, principalmente se for dividir cabine: os espaços são bem pequenos.

Sai de cena o animador de piscina, entram as palestras educativas sobre pássaros, mamíferos e icebergs. Nada de shows ou bailes: a diversão está do lado de fora, criada, produzida e dirigida pela natureza.

O encontro com o capitão tampouco está restrito a um jantar - você pode conversar com ele todos os dias, na ponte de comando, como faziam alguns dos 44 passageiros a bordo. Sergio Iabaceta, que comandou a minha expedição, faz viagens à Antártida desde 2005. "É um destino repleto de surpresas. O clima pode mudar a qualquer momento, inesperadamente. Não é fácil."

Algo que meu grupo sentiu na pele. Durante os 11 dias de expedição, tivemos dois desembarques cancelados, um realizado apenas por metade do grupo e outro no qual tivemos de deixar às pressas a base inglesa Port Lockroy, em razão do vento e das rápidas mudanças climáticas. Passamos uma noite navegando sobre uma camada espessa de gelo, um dos momentos de maior tensão para a tripulação. Balançamos - e como balançamos - na temida Passagem de Drake, ponto de encontro dos oceanos Pacífico e Atlântico, e no desconhecido Estreito de Bransfield.

Viajar à Antártida é uma experiência extrema em todos os sentidos. Da chegada à partida, das paisagens às sensações, tudo se mostra selvagem, primitivo, arredio até. E inesquecível. Mas não é para qualquer um - e aí a questão nem é tanto pelo preço salgado, em torno de US$ 10 mil por pessoa, em cabine dupla. É preciso ter em mente que não se trata de um roteiro de luxo. A comida é boa (mas não chega a ser um destaque) e os perrengues não são poucos - as primeiras e últimas saídas da temporada, mais baratas, são também as mais sujeitas às intempéries.

O corpo se ressente dos balanços, do espaço restrito, dos quatro dias de travessia do Drake (dois na ida e dois na volta). Mas basta um momento para tudo valer a pena. Deparar-se com um grupo de baleias. Ver albatrozes e petréis acompanhando o barco. Encontrar um pinguim sozinho, navegando sobre um iceberg. Descobrir o mar congelado, em um cenário cuja sensação é de estar navegando sobre as nuvens. Como em um sonho.

Há cem anos, a corrida ao Polo Sul. Os cruzeiros turísticos de hoje nada têm a ver com as experiências extremas dos antigos exploradores, como Roald Amundsen (veja a rota percorrida por ele na página 14), primeiro a alcançar o Polo Sul geográfico. Amanhã comemora-se o centenário da conquista do capitão norueguês, que não avisou nem mesmo a sua tripulação o destino da viagem. A estratégia de Amundsen tirou a conquista do inglês Robert Scott, que chegou 34 dias depois, em uma operação conhecida pela quantidade de decisões desastrosas. Scott e parte de sua equipe morreram no trajeto de volta ao navio.

A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO TURISMO DO CHILE E DA ANTARCTIC DREAM EXPEDITIONS

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