Cenário de sonho

O sonho começa navegando por um mar azul. Baleias e pássaros gigantes acompanham a embarcação, que segue sem que se aviste sinal de terra. Como por encanto, a paisagem se transforma: surgem picos nevados, paredes de gelo azul, um continente completamente branco. E você percebe que não se trata de sonho, mas da mais pura realidade.

ADRIANA MOREIRA , PENÍNSULA ANTÁRTIDA, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2011 | 03h11

Diante de tal cenário, não é de se estranhar que o navio que abriu a temporada 2011/2012 de cruzeiros à Antártida leve sonho no nome. O Antarctic Dream carrega até 80 passageiros rumo a uma mesma utopia coletiva: colocar os pés sobre o continente gelado.

Na última temporada - normalmente, de novembro a março -, 33.824 pessoas, segundo a Associação Internacional de Operadores de Turismo na Antártida (Iaato, na sigla em inglês), realizaram tal façanha. A maior parte delas chega em navios de cruzeiros, a partir principalmente de Ushuaia, no extremo sul argentino.

Para encarar uma aventura como essa é preciso começar esquecendo tudo o que se sabe sobre cruzeiros - até porque não se trata de um cruzeiro propriamente dito, mas de uma expedição. A diferença se nota já na hora de fazer a mala. Deixe de lado as roupas estilosas e troque por peças quentes e confortáveis - seus fiéis companheiros de viagem serão um moletom e um par de tênis, com os quais você vai circular pelo navio. O que é ótimo, já que será preciso economizar no tamanho da bagagem, principalmente se for dividir cabine: os espaços são bem pequenos.

Sai de cena o animador de piscina, entram as palestras educativas sobre pássaros, mamíferos e icebergs. Nada de shows ou bailes: a diversão está do lado de fora, criada, produzida e dirigida pela natureza.

O encontro com o capitão tampouco está restrito a um jantar - você pode conversar com ele todos os dias, na ponte de comando, como faziam alguns dos 44 passageiros a bordo. Sergio Iabaceta, que comandou a minha expedição, faz viagens à Antártida desde 2005. "É um destino repleto de surpresas. O clima pode mudar a qualquer momento, inesperadamente. Não é fácil."

Algo que meu grupo sentiu na pele. Durante os 11 dias de expedição, tivemos dois desembarques cancelados, um realizado apenas por metade do grupo e outro no qual tivemos de deixar às pressas a base inglesa Port Lockroy, em razão do vento e das rápidas mudanças climáticas. Passamos uma noite navegando sobre uma camada espessa de gelo, um dos momentos de maior tensão para a tripulação. Balançamos - e como balançamos - na temida Passagem de Drake, ponto de encontro dos oceanos Pacífico e Atlântico, e no desconhecido Estreito de Bransfield.

Viajar à Antártida é uma experiência extrema em todos os sentidos. Da chegada à partida, das paisagens às sensações, tudo se mostra selvagem, primitivo, arredio até. E inesquecível. Mas não é para qualquer um - e aí a questão nem é tanto pelo preço salgado, em torno de US$ 10 mil por pessoa, em cabine dupla. É preciso ter em mente que não se trata de um roteiro de luxo. A comida é boa (mas não chega a ser um destaque) e os perrengues não são poucos - as primeiras e últimas saídas da temporada, mais baratas, são também as mais sujeitas às intempéries.

O corpo se ressente dos balanços, do espaço restrito, dos quatro dias de travessia do Drake (dois na ida e dois na volta). Mas basta um momento para tudo valer a pena. Deparar-se com um grupo de baleias. Ver albatrozes e petréis acompanhando o barco. Encontrar um pinguim sozinho, navegando sobre um iceberg. Descobrir o mar congelado, em um cenário cuja sensação é de estar navegando sobre as nuvens. Como em um sonho.

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