Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Um conto de inverno no Valle Nevado, no Chile

Do sol a pino à nevasca intensa, ascensão (e quedas) de uma repórter que chegou como iniciante e terminou a estada esquiando sozinha uma pista de 500 metros

Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2018 | 05h00

VALLE NEVADO - Bela me ultrapassou deslizando numa tal velocidade que temi pela integridade do seu corpinho de aparentes 7 ou 8 anos de idade. A menina não conseguia frear os esquis. Torci para que se jogasse logo na neve, o que ela fez antes da curva, para meu alívio. Seu pai, responsável por eu saber o nome da garotinha de tanto ouvi-lo gritar na pista “freia, Bela”, “faz o ‘A’, Bela”, “o formato da pizza, Bela” alcançou a pequena em seguida. Ajudou-a a levantar e a se recompor, e logo partiram novamente, Bela como se não tivesse acabado de dar uma cambalhota na ladeira gelada. Crianças, ao que parece, são de borracha. Enquanto isso, eu tentava ser mais forte que o medo dos meus próprios tombos: já tinha levado dois.

Era a segunda semana da temporada de inverno de 2018 na estação de Valle Nevado, no Chile. O complexo está completando 30 anos de funcionamento neste 2018. Começou com um hotel e um prédio de apartamentos privados. Hoje, é a maior estação do país. Brasileiros somam 55% dos 350 mil hóspedes de cada temporada, segundo Ricardo Margulis, diretor geral do Valle Nevado. Empreendimentos imobiliários são o foco atual dos investimentos.

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Meu último fim de tarde na estação foi o mais glorioso dos três dias, aquele em que consegui sair da pista dos aprendizes, descer esquiando os 500 metros da pista Camino Bajo e estacionar no ponto de embarque do teleférico Vaiven, que leva aos hotéis. Ao embarcar sozinha na cadeira dupla, eu me sentia a maior esquiadora do mundo.

Mais tarde, descobriria o joelho roxo, o quadril ralado, o dedão da mão esquerda batido, as panturrilhas doloridas. Diferentemente das crianças, adultos não são de borracha. Temos ossos e receios rígidos. Nada disso, no entanto, me tirou o gostinho de conquista e de quero mais.

 

PARA ENTENDER

Aéreo

SP-Santiago-SP: Avianca é parceira oficial do Valle Nevado na temporada e dá descontos de 10% em ski pass e hospedagem, e de 20% em aluguel de equipamentos e roupas e em aulas coletivas. Desde R$ 1.654,50 (em 13/8), ida e volta. Latam (R$ 880) e Gol (R$ 960) também fazem voos. 

Transfer

Ida e volta desde Santiago, desde 19.500 pesos (R$ 115) na Skitotal e 29.000 pesos (R$ 171) na Turistik.  De carro alugado, atenção: para subir a montanha é obrigatório carregar cadenas, correntes para instalar nos pneus se nevar. Aos sábados, domingos e feriados, a estrada opera em mão única para subida da montanha das 8h às 15h, e para descida das 16h às 20h.  

 

Temporada

Os hotéis ficam abertos até 30 de setembro. Pistas e restaurantes continuam funcionando enquanto houver neve. 

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Estrutura

São 40 pistas e 16 meios de elevação.

Pacotes

Sempre mínimo de 3 noites, para duas pessoas, com meia pensão e ski passes: desde US$ 1.820 no hotel Três Puntas, em julho. Em agosto, desde US$ 1.326. 

 

Ski passes

Preço regular para adulto, diário, das 9h às 17h: 49.500 pesos (R$ 292). Combo iniciante (ski pass + aula + aluguel de equipamentos): 78.000 pesos (R$ 461). Subida na gôndola com almoço no Bajo Zero, 49.000 pesos (R$ 290).

 

Crianças

A Kids Zone é incluída na diária. Jardim de Neve, das 11h às 16h, com almoço e aulas, 79.000 pesos (R$ 467). Para 4 a 11 anos. 

 

Site

vallenevado.com/pt.

*VIAGEM A CONVITE DE VALLE NEVADO E AVIANCA.

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Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2018 | 04h30

A neve chegou – chegamos a ela – no terço final da subida pelo paredão rochoso dos Andes. Sessenta curvas numeradas por plaquinhas amarelas tem o trajeto entre a base da montanha, na altitude média de 600 metros, e os 3.000 metros onde está a estrutura do Valle Nevado. Em uma hora, sobe-se 2.400 metros; o custo disso se chama mal de altitude. Mas já volto a ele, que não deu imediatamente o ar da graça, no meu caso.

Depois de desembarcar pela manhã no aeroporto de Santiago e de percorrer em transfer os 80 quilômetros até a estação, nosso grupo de sete pessoas chegou ao alto da montanha numa tarde azul brilhante. Por volta das 15h30 de sexta-feira, a recepção do hotel Puerta del Sol estava lotada de hóspedes que faziam check-in para pacotes de três noites, já que a segunda-feira seguinte, dia 2 de julho, era feriado no Chile.

As primeiras horas num resort de esportes de neve são deslumbradas e atarefadas. Meu quarto no sétimo andar era quase um camarote, mirava a pista de nível intermediário Retorno Bajo, pela qual deslizavam esquiadores e snowboarders. Para abrir as portas da varanda e curtir o show foi preciso reforçar as camadas de roupas. Invariavelmente você chega de Santiago com menos agasalho do que o necessário.

Vencida a etapa das primeiras fotos e (como não?) das primeiras selfies, era hora de descer até a loja de aluguel de roupas. De três experiências anteriores em estações de esportes de inverno eu trazia a impressão ruim sobre roupas alugadas, sempre malcheirosas. Ali, não: as peças estavam limpas, bem conservadas e pude até escolher modelo e cor. Mesmo uma iniciante percebe rápido que estilo importa na montanha. Quanto custa o outfit? Por dia, 26 mil pesos chilenos (R$ 153) pelo conjunto de calça, jaqueta, luvas e óculos. Tudo precisa ser impermeável. É indispensável mesmo.

A primeira après ski veio antes do primeiro esqui. Après ski é a happy hour que começa quando fecham as pistas, às 17 horas. A do Valle Nevado é um encontro com clima familiar e lanchinho: sopa, croissants e chocolate quente. Um momento para se enturmar um pouco e admirar o pôr do sol na face sul do vale, que pinta de cor-de-rosa o céu e as rochas nuas dos Andes. Um espetáculo.

É verdade que faltou clima de balada na après ski do Valle Nevado – já vivi outras mais emocionantes, com DJ e gente jovem reunida destravando botas e dançando de um jeito meio robótico no fim de tarde. Mas a estação tem sim a sua balada de fato. Depois do jantar, quem está no clima segue para o pub Três Puntas para curtir som de banda ao vivo ou karaokê. Aos sábados, lá pelas 18h30, depois da Descida das Tochas, em que mais de cem instrutores percorrem pistas carregando tochas acesas, o bar Valle Lounge serve vinho, pisco sour e cerveja como cortesia. Com DJ, vira uma festinha.

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Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2018 | 04h30

Os quartos da face norte do hotel Puerta del Sol são os que recebem primeiro a luz do dia: o sol nasce deste lado, muito embora demore a aparecer de fato, oculto pelas altas montanhas até quase o meio da manhã. O Puerta del Sol, de faixa de preço intermediária, é o mais conveniente e mais gostoso dos três hotéis do complexo do Valle Nevado. Quatro dos seis restaurantes e dois bares ficam dentro ou a poucos passos dele. O boulevard com nove lojas e os terraços para descanso são seus anexos, assim como o guarda-volumes para esquis e pranchas de snowboard. É nele que fica a piscina aquecida que serve todo o complexo – dá para ir de roupão, o que faz muita diferença na chegada e mais ainda na saída, quando é humanamente impossível ficar ao ar livre se secando com toalha e vestindo roupas. E, mais importante, tem a vista mais bonita, para as pistas na face norte e para o vale na face sul.

A hospedagem mais em conta do complexo é o hotel Três Puntas, o do pub. Os quartos acomodam de duas a seis pessoas em beliches. No extremo oposto, o hotel Valle Nevado é o cinco-estrelas do complexo. As maiores suítes têm quarto e sala, há acesso direto ao spa e après ski exclusivo com menu mais caprichado. Também é o único ski in/ski out, ou seja, dá para chegar até a porta e sair dela esquiando.

O complexo é como uma cidadezinha de uma rua só, cercada de neve por todos os lados. Além dos hotéis, nessa rua ficam também dez edifícios de apartamentos particulares de até quatro quartos. Vários deles podem ser alugados para temporada e pelo menos três edifícios têm apartamentos à venda por preços que começam em US$ 500 mil.

Quatro curvas abaixo dos hotéis está o centro de visitantes para turistas de um dia. Os pasantes, como são chamados, fazem bate-voltas desde Santiago para conhecer a neve ou para praticar esqui e snowboard. Carros particulares e vans ficam no estacionamento, enquanto os pasantes alugam ali os equipamentos e roupas, compram o passe para um dia e sobem de gôndola até o bar restaurante Bajo Zero, de onde saem esquiando ou fazem aulas.

Na manhã de sábado, enquanto os pasantes lotavam o Valle Nevado, meu dia começava difícil. O mal de altitude apareceu durante a madrugada nas formas de dor de cabeça, tontura e enjoo. O sono foi perturbado também pela secura extrema do ar da montanha, que faz acordar várias vezes para beber água. Essa sede toda pode se tornar um prejuízo sem planejamento prévio: no minibar do quarto, cada garrafa de 1,5 litro custa 5.000 pesos, o equivalente a R$ 30. O jeito de reduzir um pouco esse custo é comprar água no mercadinho da rua principal, onde a garrafa de 1,5 litro sai por 3.800 pesos (R$ 22). De qualquer forma, é bom ter em mente: tudo o que não estiver incluído no seu pacote vai custar uma pequena fortuna.

Recomendo reservar o primeiro dia para ócio e adaptação. O plano era acordar às 7 horas, fotografar o amanhecer e ir ao spa fazer a aula de alongamento incluída na diária antes do café da manhã. Na vida real, precisei de muita água e remédios para dor de cabeça e enjoo até conseguir tirar o corpo da cama 15 minutos antes do encontro marcado com o grupo na loja de aluguel de equipamentos (desde 38 mil pesos, R$ 225 por dia o kit que inclui esquis, bastões e botas).

FESTA E DESCONTOS PARA COMEMORAR OS 30 ANOS

A comemoração pelos 30 anos do Valle Nevado inclui festas e descontos. Neste sábado, dia 21 de julho, a Descida das Tochas será acompanhada de show de lasers na montanha, queima de fogos e rodada de drinques por conta da casa. Em 30 de julho haverá esqui noturno, com três horas de pista aberta para praticantes mais experientes. Corridas, concursos e desfiles também fazem parte da temporada comemorativa. Estão programadas ainda semanas temáticas de comida (3 a 10 de agosto) e vinho (17 a 24 de agosto). 

No quesito promoções, a estação acaba de anunciar 20% de desconto na tarifa dos pacotes para o período entre 10 e 24 de agosto. Válido para o hotel Três Puntas e condomínios. 

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Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2018 | 04h30

 

Chilenos têm um jeito direto e assertivo que, aos ouvidos brasileiros, soa um pouco duro. Nossa primeira impressão do professor de esqui foi de alguém um tanto impaciente. Dos quatro alunos da nossa aula em grupo (43 mil pesos, R$ 254), o único que nunca tinha pisado sobre esquis na vida desistiu nos primeiros 20 minutos, inseguro.

Escolhi a mais básica das aulas, mesmo com alguma experiência anterior – mas distante – nos esquis. O começo da aula é mais chato e cansativo. É um tal de abrir e fechar pernas, subir ladeira de ladinho, treinar a tal posição de “un trozo de pizza”, encontrar o equilíbrio sobre o que parece um piso ensaboado sem a opção de mover os tornozelos imobilizados pela bota. Então, finalmente, chega a hora de embarcar no teleférico pela primeira vez. Na outra ponta dele, lá embaixo, está a pista mais básica do Valle Nevado.

Esquiar tem algo parecido com andar de bicicleta. Mesmo depois de um tempão sem praticar, a memória corporal desperta na primeira oportunidade e resgata aprendizados antigos. De repente, descendo a pistinha dos aprendizes no meio da criançada – sempre infinitamente melhores que os adultos –, me vi reencontrando os movimentos básicos de fazer curvas à direita e à esquerda e frear sem grande dificuldade. Andrés Chino Vasquez, o instrutor que àquela altura já alternava entre bravo e animado, elogiou meus movimentos. “Sua prática está voltando.”

Chino é o mais antigo dos 180 instrutores que trabalham nas temporadas de inverno do Valle Nevado. Tem 30 anos de casa, ensina no resort desde a abertura. A verdade é que não é nada bravo: é só o modo de falar. Diz que o esqui é mais fácil que o snowboard no começo. “Mas depois que você pega o jeito no snowboard, evolui mais rápido que no esqui.” Eu me sentia evoluindo rápido no esqui; desci várias vezes a pista dos aprendizes naquela manhã, me dando ao luxo de parar para fotografar uma colega e por ela ser clicada e filmada.

Aos sábados, o restaurante francês La Fourchette faz um churrasco para o almoço (27.900 pesos, R$ 165 por pessoa) e, se o tempo está bom, espalha mesas no terraço ao ar livre. A temperatura não passava dos 3 graus, mas, com o corpo quente da aula e do sol na cabeça, deu para ficar com o mínimo de roupa e beber uma cerveja gelada.

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Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2018 | 04h30

Luz plana, aprendi no Valle Nevado, é o nome que se dá à iluminação difusa dos dias sem sol. O relevo perde seus contornos, fica impossível distinguir os altos e baixos da montanha. É situação de risco: nas pistas, o perigo é de perder a referência do horizonte, o que pode desorientar e causar tontura. 

O domingo amanheceu com tempo fechadíssimo e temperatura 10 graus mais baixa que a do dia anterior. De desorientada bastava eu mesma na minha condição de iniciante, pensei. Decidi passear pela estação em vez de esquiar.

Giovana Lemes, de 9 anos, e seu irmão Gabriel, de 7, foram mais valentes. Minutos antes das 11 horas, quando a área reservada à escola de esqui e snowboard começa a encher de instrutores e alunos, eu os encontrei nos preparativos finais para a aula. O pai das crianças, Rodrigo Lemes, de 44 anos, é um praticante dos esportes na neve. Achou a infraestrutura do Valle Nevado “excelente”.

Coincidentemente, a família paulistana seria acompanhada naquela manhã por Chino, o meu instrutor do dia anterior. As crianças estavam pela primeira vez numa estação e tinham feito aula particular no dia anterior. A melhor parte, para Giovana, foi “andar na esteira” do Jardim de Neve, a ala infantil. Gabriel comentou que “eu só caio de cabeça”. Soube que, apenas um dia depois, o menino já estava descendo uma pista intermediária. 

Quem também se encheu de coragem e foi para a pista dos aprendizes ensaiar os movimentos de snowboard aprendidos na manhã do dia anterior foi um dos meus colegas de grupo. Pouco depois das 11 horas, enquanto começavam a cair os primeiros flocos de neve, chegou a notícia de que ele havia levado um tombo sério. Depois do resgate numa maca e do primeiro atendimento na clínica do resort, estava sendo transferido de helicóptero a um hospital em Santiago. Duas noites de internação e uma ressonância depois, o diagnóstico foi fratura em uma vértebra; felizmente, ele pôde voltar ao Brasil no mesmo voo que o restante do grupo, caminhando, para terminar o tratamento em casa. Sim, a neve pode ser bem perigosa. 

Troy Darrington trabalha na neve há 30 anos. Na estação de Park City, nos Estados Unidos, começou na patrulha de segurança, guiou tours e, nas últimas dez temporadas, vem atuando como instrutor. Consultado na última terça-feira sobre jeitos menos arriscados de cair durante a prática de esqui e snowboard, Darrington disse ao Estado que “não existe um jeito bom de cair”. “Nós ensinamos a não usar as mãos para se apoiar (na queda) porque isso pode acabar mal”, explica. Jones Puig, seu colega de estação e com experiência de três anos como instrutor, afirma que punho e cóccix são as fraturas mais recorrentes.

Segundo Darrington, é na queda frontal que se manifesta o instinto de usar as mãos como apoio, caminho certo para machucar punhos e braços. Ao cair para trás, os esquis continuam apontados para a base da montanha; o jeito de pará-los é jogar os pés para o lado, de forma que fiquem paralelos à descida. No meu maior tombo, consegui “escolher” cair de lado, usando os quadris. Deu certo sem querer: não precisei das mãos e sofri apenas arranhões. “Instrutores devem ensinar controle e equilíbrio para ajudar esquiadores e snowboarders a caírem menos”, disse Darrington.

Da hora do almoço até o fim do domingo, a nevasca caiu forte sobre o Valle Nevado, cobrindo o mundo com uma camada fofa e tornando céu e montanha um todo branco sem distinção. O teleférico Andes Express, que leva a uma altitude de 3.485 metros, de onde partem pistas intermediárias e avançadas, chegou a parar em alguns momentos de visibilidade mais baixa. Esquiar não era uma opção para iniciantes. Restava brincar na neve.

Começamos com guerra de neve, repetida várias vezes em nome dos bons stories e boomerangs nas redes sociais. E terminamos na piscina aquecida. A temperatura no fim da tarde estava pelos 15 graus negativos. Assim mesmo, teve brasileiro rolando na neve e passando neve no corpo para em seguida mergulhar na água quente. O choque térmico, pode acreditar, é uma delícia.

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Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2018 | 04h30

“E não vai assistir à partida?”, perguntou uma instrutora na pista dos aprendizes na manhã de segunda-feira. Eram 10h15 no horário local, 11h15 no de Brasília. Naquele momento, o hexa ainda era possível em 2018. A seleção brasileira estava em campo contra o México pelas oitavas de final.

O dia tinha amanhecido sem sol, mas sem nevasca e mais claro. Com uma colega de grupo, segui para as pistas assim que abriram, às 9 horas. O plano era esquiar por uma hora e voltar para ver o jogo nos telões do Valle Lounge, o bar mais gostoso da estação.

Descer esquiando e subir agarradas ao teleski, um meio de elevação no qual o esportista é arrastado por um suporte colocado entre as pernas, foi ficando fácil. Compreendi os benefícios da neve fofa graças à nevasca do dia anterior – diminui o esforço físico e fica muito mais leve controlar os esquis. Um dos instrutores que estavam por ali nos recomendou a pista Camino Bajo.

Assistimos ao segundo tempo de Brasil e México com uma multidão de brasileiros e dois solitários mexicanos. Almoçamos hambúrgueres no Monte Bianco, o restaurante italiano (13.900 pesos, R$ 82). E seguimos para a fila da jardineira que faz o dia inteiro o trajeto entre a entrada do hotel Puerta del Sol e o ponto de partida da gôndola, lá embaixo, no centro de visitantes.

Se dois dias antes o passeio de gôndola foi para ver a paisagem e tirar fotos, neste cuidamos de estudar o trajeto e observar do alto cada detalhe da nossa pista verde – ainda iniciante, mas muito mais longa, com curvas e declives bem mais acentuados. A gôndola é o único meio de elevação que pode ser usado por quem não vai esquiar, nem praticar snowboard. Por isso o desembarque, na média montanha, é um ponto festivo. Por ali fica o parque de neve. Outro núcleo da escola de esqui e snowboard. O bar restaurante de montanha Bajo Zero.

Partimos. O primeiro trecho era um declive suave que terminava no encontro da nossa pista com a intermediária Diablada. Moleza. Nosso caminho estava à direita. Foi neste ponto que “conheci” Bela. A menina e seu pai faziam uma força danada subindo ladeira de ladinho para uma correção em seu percurso.

Calculei mal. No primeiro impulso para voltar a esquiar, caí sentada. Foi um tombo leve e numa posição conveniente; logo consegui levantar. Ato seguinte, mais abaixo, encontrei minha companheira estatelada na neve fofa da lateral da pista, rindo e contando que tinha “quase levantado voo”. Foi exatamente por medo de “levantar voo” que me joguei de lado no chão mais fofo que pude identificar quando percebi que não seria capaz de fazer uma curva fechada à esquerda; também não estava conseguindo frear. Foi o meu maior tombo. Nessa hora, o pai de Bela me ofereceu ajuda.

No trecho final da Camino Bajo ainda nos aguardava uma descida tão íngreme que cogitamos descer sentadas, escorregando como num esquibunda. Respiramos, retomamos a coragem e, surpreendentemente, nenhuma de nós duas caiu. Meu coração estava acelerado e o rosto quente quando cheguei à entrada do teleférico Vaiven. Minutos atrás, eu praguejava contra o instrutor que nos convenceu a encarar a Camino Bajo. Agora, lamentava que só faltassem dez minutos para o fechamento das pistas naquela segunda-feira.

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Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2018 | 04h30

Soube na loja de aluguel de equipamentos que, durante a tarde, a Bélgica tinha vencido o Japão de virada por 3 a 2 e seria a adversária do Brasil nas quartas de final da Copa. O Japão era, obviamente, um oponente mais fácil. Mas a minha ponta de melancolia tinha outro motivo: era por devolver “meus” esquis e bastões e as “minhas” botas. Agora que eu era uma destemida esquiadora, a brincadeira tinha acabado.

Ainda havia um encerramento respeitável reservado para a noite. O jantar à la carte no restaurante francês La Fourchette foi excepcional. O cardápio enxuto só tem clássicos (27.000, R$ 160 cada prato). Pedi boeuf bourguignon, mas experimentei também sopa de cebola, vitela e confit de pato. Não saberia dizer o que estava mais gostoso. Allez les bleus, diria o bordão.

Saímos do hotel antes de clarear o dia com os pneus da van envolvidos por cadenas, as correntes que tornam mais segura a viagem pelas estradas cobertas de neve. O voo de volta desde Santiago começa com uma espetacular travessia sobre a Cordilheira dos Andes, que mesmo das alturas me pareceu uma amiga próxima. Desde então, sofro de um mal mais persistente que o mal de altitude: acordo em casa com vontade de encontrar neve lá fora e de sair para esquiar.

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O Estado de S. Paulo

17 Julho 2018 | 04h20

Chile espera visita de um total de 82 mil brasileiros na temporada. Ao lado das vinícolas, montanhas nevadas são o principal destino.

Novidades

Portillo, complexo que engloba centro de esqui e hotéis, acaba de inaugurar uma nova pista, a Gauche, com 310 metros de extensão, indicada a esquiadores e snowboarders de nível intermediário – ao todo são 35 pistas. No Hotel Portillo, os apartamentos com vista para o vale foram redecorados, e promoções, como transfer ou uma noite gratuita em Santiago incluídos no pacote, também fazem parte das vantagens da temporada: skiportillo.com.

Perfil 

Familiar. A relativa proximidade com a capital chilena (são 160 quilômetros) permite um roteiro combinado. Também atende desde jovens que podem compartilhar hospedagem até quem procura férias sem preocupação em sistema all inclusive

Temporada  

Até 6 de outubro.

Como ir  

É uma das estações mais fáceis de se chegar: do aeroporto de Santiago, são 2 horas de carro. Há transfers oferecidos pelos hotéis. 

Pacotes  

O Hotel Portillo tem 123 apartamentos e oferece pacotes a partir de 3 noites. Para julho, 7 noites saem desde US$ 3.350 por pessoa, com acesso ilimitado aos teleféricos, quatro refeições diárias e cortesia para até duas crianças no mesmo quarto. Há também dois lodges, o Octagon, com apartamentos de quatro beliches e banheiro privativo, e o Inca, com quartos que podem ser compartilhados, sem banheiro privativo. E cinco chalés com capacidade para quatro a oito pessoas. 

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O Estado de S. Paulo

17 Julho 2018 | 04h30

Novidades

Nevados de Chillán tem um novo lift até sua pista mais importante: a Três Marias, com 13 quilômetros – é a maior do Hemisfério Sul. Mais: nevadosdechillan.com.

Perfil 

Familiar. Além das águas termais (fica aos pés de três vulcões), são 23 pistas para iniciantes e experts e há espaços para crianças. 

Temporada  

Até 30 de setembro.

Como ir  

Há voos diários da Avianca, GOL e Latam para Santiago, onde há conexão para Concepción. De lá, são cerca de 2h30 de carro até Chillán. É possível ir de ônibus ou trem para a estação a partir da capital chilena (5 horas de viagem). 

Pacotes  

O maior hotel é o Gran Hotel Termas de Chillán, cinco-estrelas e com duas pequenas pistas: 7 noites, com café da manhã, jantar e transfer desde US$ 1.400 por pessoa. Os hotéis Alto Nevados, Nevados e Valle Hermoso pertencem aos donos da estação. Para o Nevados, a Point da Neve oferece 4 noites com café da manhã a partir de US$ 970 por pessoa, e a Snowtime faz 7 noites desde US$ 2.139 por pessoa, com café da manhã e jantar incluídos e uma criança de até 5 anos grátis. 

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O Estado de S. Paulo

17 Julho 2018 | 04h20

Novidades

Os serviços de Corralco, complexo com pistas de esqui e hospedagem dentro da Reserva Nacional Malalcahuello, começam esta temporada com o selo ‘S’ de sustentabilidade, concedido pelo Serviço Nacional de Turismo do Chile. Mais: corralco.com

Perfil 

Familiar. Há pistas para iniciantes, mas para quem quer circuitos off road, em Corralco há mais de 5 quilômetros.  

Temporada  

Até 14 de outubro, com a possibilidade de estender até novembro se houver neve – é a estação mais ao sul do Chile e não há lagos ao redor, o que contribui para que sua temporada seja mais estável que nas demais estações.

Como ir  

Há voos de SP para Temuco com conexão em Santiago. De lá, são cerca de 2h até a estação – o hotel oferece transfer. Do hotel até a estação são 15 minutos. 

Pacotes  

O Corralco Resort de Montaña, na base do Vulcão Lonquimay, foi aberto em 2014 e conta com 54 apartamentos. Para a próxima semana, 5 noites com café da manhã, jantar e tíquete para o lift saem desde US$ 1.575 por pessoa. 

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