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Chinês cria enciclopédia colaborativa linguística do mundo

Só o Brasil tem variedade “incontável” de sotaques e dialetos; conheça algumas delas

Marcela Braz, Especial para O Estado

27 Fevereiro 2017 | 10h47

Em meio a um mochilão pela Europa, o chinês David Ding se deparou com a dificuldade de pronunciar palavras em ucraniano e com poucas gravações na internet para guiar sua pronúncia. Esse foi o ponto de partida para o ex-engenheiro de softwares da Microsoft criar o site Localingual (https://localingual.com), uma espécie de Wikipédia de línguas e dialetos do mundo todo.

No ar desde 8 de janeiro, a página já tem mais de 26.000 gravações de voz e atingiu a marca de 600.000 visitantes únicos. “O site definitivamente superou minhas expectativas. Estou animado para ver como vai ficar depois que eu implementar recursos mais interessantes”, disse Ding.

Por enquanto, o abrangente mapa-múndi linguístico permite navegar por diversas cidades e regiões dentro de um mesmo país. E, como a plataforma se alimenta das gravações de seus usuários, muitos pontos do globo ainda não foram explorados.

“Aprendi que, apesar das diferentes culturas e linguagens existentes, todos nós compartilhamos mais semelhanças do que pensamos”, diz ele, que se mudou aos 9 anos de idade para os Estados Unidos e, embora tenha sido criado bilíngue, tem no inglês sua língua dominante. Esse histórico foi a semente de seu grande interesse pelas sutilezas e variações culturais e linguísticas de cada território (e dentro dele).

Origens e diversidade brasileiras. O Brasil tem 26 estados, um distrito federal e 5.570 municípios distribuídos por uma área de mais de 8 milhões e meio de quilômetros quadrados. Isso se traduz em uma variedade incontável de subdivisões linguísticas, de sotaques e de dialetos. “É impossível você quantificar e dar uma resposta precisa”, esclarece Suzana Alice da Silva Cardoso, diretora presidente do Projeto Atlas Linguístico do Brasil (Projeto ALiB), um trabalho conjunto de universidades públicas, federais e estaduais, para mapear a diversidade linguística do país.

Embora o português seja uma única língua, explica Suzana, ele se realiza de modos diferentes dependendo das características sociais do falante: idade e escolaridade. O outro aspecto determinante para o uso da língua é o espaço físico. Isso porque cada região tem uma história socioeconômica definida: como se construiu e se constituiu a população daquela região, qual é a natureza das imigrações que aconteceram, a localização espacial -- é uma área isolada ou de trânsito constante? “Esses aspectos todos vão interferir na língua de qualquer país”, diz Suzana.

O resultado disso são diferentes sotaques, como se percebe pelo “r” caipira em contraste com o carioca, por exemplo. Ou as vogais abertas do norte do país, comparadas às fechadas do sul, quando se diz “pópulação” ou “pôpulação”.

A variação também afeta o vocabulário. No Rio Grande do Sul, a geleia pode ser chamada de chimia. Isso porque nessa área há uma influência da imigração alemã, para quem o “schmier” é um doce pastoso similar à geleia. “Em algumas áreas da Bahia, do Nordeste, ‘solteira’ é sinônimo de ‘prostituta’. Tanto que as pessoas não denominam as suas filhas do sexo feminino como ‘solteiras’. São ‘moças’”, exemplifica.

Pequeno dicionário português-português

Conheça abaixo alguns sinônimos brasileiros mapeados pelo Projeto ALiB:

- Mosquito, carapanã, muriçoca, pernilongo

- Mandioca, aipim, macaxeira

- Laranja-cravo, tanja, mimosa, maricote, carioquinha, bergamota, tangerina, poncã, mexerica

- Bala, caramelo, bombom, confeito, queimado

- Estilingue, peteca, badogue, atiradeira, funda, setra

- Pipa, arraia, pandorga, papagaio

- Libélula, lava-cu, zigue-zigue, assa-peixe, bate-bunda, lavadeira, jacinta

- Cacetinho, pão francês

- Prostituta, solteira, puta, rapariga, quenga, meretriz, rameira.

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