David Gray/Reuters
David Gray/Reuters

Chineses não mordem

Para Mr. Miles, é maravilhoso ver que membros da maior população do mundo estejam finalmente deixando o seu país para conhecer outras culturas

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

10 Julho 2018 | 03h00

A Copa do Mundo termina no fim de semana. Mr. Miles já apresentou, nesse espaço, sua avaliação de cada um dos países como viajante. “Digo-lhes, however, que para muitos deles não fui recentemente, de modo que posso ter sido superado pelos fatos. No espírito, com certeza, as nações mudam muito mais lentamente”, explicou o correspondente britânico.  

Como sempre acontece em eventos catárticos, nosso grande viajante ficou encantado com as manifestações de união dos torcedores que, a seu ver, “superou, thank God, a dureza idiota dos nacionalismos. Temos de ter alegria pelos lugares onde vivemos, mas, as always, jamais fazer disso uma demonstração de superioridade.” 

A propósito, a correspondência da semana esbarra no tema.

Caro Mr. Miles: estive visitando alguns pontos turísticos tradicionais na Europa e na Rússia e, por estimativa, minha percepção é de que 70% dos visitantes eram chineses. Até em museus de arte viam-se grupos de cerca de 50 chineses. O senhor acredita que em breve será impossível fazer esse tipo de turismo?  Luis Gasparian, por e-mail 

Well, my friend, tenho a impressão de que não compreendi bem a sua pergunta. A que turismo você se refere? Ou seria uma insinuação – indecorosa, as I see – de que fazer viagens com chineses nas proximidades vai ser uma atividade impossível? 

De minha parte, prefiro acreditar que o prezado leitor expressou-se mal – assim como duvido que ele (você, no caso) saiba distinguir entre orientais por conhecer os idiomas que utilizam. Trata-se, by the way, de uma porção de idiomas e dialetos derivados de um único tronco linguístico – o mais utilizado no planeta, I must say –, que podem diferir tanto entre si a ponto de tornar-se incompreensíveis para pessoas de regiões distintas.

Actually, a única coisa que me incomoda quando encontro grupos grandes de viajantes amalgamados (ocidentais ou orientais) é a sensação de multidão. Nessas ocasiões, Trashie me pede que a carregue no colo, porque ver quadros em um museu ou placas em um mausoléu tornam-se tarefas complicadas. 

Besides, é maravilhoso ver que membros da maior população do mundo estejam finalmente deixando o seu país para conhecer e interessar-se por outras culturas. Sinal evidente de que começam a prosperar. O fato de que o façam em grupos também é perfeitamente compreensível. Animais gregários que somos, é normal que prefiramos explorar o desconhecido na companhia de quem conhecemos. A história, porém, tem comprovado que, ao longo do tempo e com o crescimento da sensação de segurança, os povos, sejam eles quais forem, atrevem-se a viajar em grupos menores, depois em casais e, finalmente, sozinhos. 

Defendo sempre, em meus alfarrábios, que esse planeta azulado é uma extensão do jardim de cada um de seus habitantes. O que o faz imaginar, dear Luis, que você tem mais direitos do que os orientais aos quais se refere? Ou pior: o que o faz dizer que viajar vai tornar-se impossível? 

De um ponto de vista simplesmente prático, é fato que o aumento da procura pelos destinos e o aumento do número de viajantes vai resultar, a médio prazo, em mais hotéis, restaurantes e infraestrutura. O que, ao fim e ao cabo, levará a preços mais acessíveis tanto para você quanto para as pessoas que você gosta de ter como companhia. Sobre o dinheiro que sobrar dessa equação, my friend, tenho uma sugestão: aplique em uma viagem à China. E fique tranquilo que, ao contrário de Trashie, os chineses não mordem. 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS. SIGA-O NO INSTAGRAM @MRMILESOFICIAL.

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