Elva Obeso
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Cidade realizou primeiro casamento lésbico da igreja

Fato ocorreu em 1901; hoje, cidade é referência no respeito à diversidade sexual

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2019 | 13h00

Coruña é uma das cidades espanholas que mais respeitam a diversidade sexual. Com boas opções de bares e baladas LGBT, o local ficou conhecido mundialmente por realizar o primeiro (e único) casamento lésbico dentro da igreja católica.

O episódio histórico aconteceu em junho de 1901. Marcela Gracia Ibeas e Elisa Sánchez Loriga se casaram na Igreja de São Jorge. Na ocasião, Elisa usou o nome de Mario e vestiu um terno masculino. Ela, na verdade, assumiu a identidade do primo, morto num naufrágio.

Marcela e Elisa se conheceram em meados de 1880 na escola de magistério da cidade. Por mais de uma década, as duas mulheres viveram juntas em diferentes regiões da província de Coruña. Mas, a partir do momento em que decidiram se casar, o anonimato acabou. 

Marcela casou grávida (não se sabe quem seria o pai da criança). Depois do casamento, os vizinhos perceberam a “fraude” e as denunciaram. A imprensa local deu início a uma intensa cobertura do caso, que teve grande repercussão não só na Galícia, mas também em Madri e em países como França e Bélgica

Diante do assédio da imprensa e da perseguição da Igreja e da polícia - a Justiça havia decretado mandado de prisão -, elas fugiram da Espanha e se mudaram para a cidade do Porto, em Portugal. Elisa, então, passou a se chamar Pepe.

Elas foram presas em Portugal, mesmo com Marcela grávida. Em 18 de agosto de 1901, a Espanha solicitou a extradição do casal e Portugal aceitou. Antes disso, no entanto, a filha de Marcela nasceu, e as duas conseguiram escapar novamente. Desta vez, rumo à Argentina, onde mudaram suas identidades. Em Buenos Aires, Marcela passou a se chamar Carmen e Elisa, Maria.

Depois de alguns meses, mais uma reviravolta. Elisa - que na Espanha se chamava Mario, em Portugal, foi Pepe e na Argentina, Maria - se casou. Desta vez, como mulher, e com um marido de origem dinamarquesa. Marcela foi apresentada como sua irmã.

O paradeiro da criança se perdeu, assim como o desfecho desta história e das duas mulheres. Não se sabe ao certo como ela terminou. Fato é que, desde junho de 2018, Coruña tem uma rua com os nomes de Marcela e Elisa no bairro central de San Roque.

A placa é um símbolo de resistência LGBT na cidade e recebe centenas de turistas todos os dias. Em 2020, a prefeitura de Coruña estuda promover um tour para mostrar os principais pontos desta fantástica história de amor, que virou até filme. O longa Elisa e Marcela, da diretora Isabel Coixet, pode ser visto na Netflix.

 

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