Cidades passam como um pássaro invisível

Nosso interminável viajante mandou dizer que foi à Ásia para prestigiar o casamento de Lawan Khramanpur, neta de um velho compadre da cidade de Chiang Mai, uma das mais budistas da Tailândia, antigo reino do Sião. Trashie, como sempre, viajou com Mr. Miles. O correspondente britânico afirma que ficou feliz em saber que o imposto de 25% que sufocava operadores, agentes e viajantes brasileiros foi reduzido para 6%. “Ainda há esperança!”, comemorou ele. A seguir, a correspondência da semana:

Mr. Miles, Estadão

08 Março 2016 | 05h27

Querido Mr. Miles: sou uma colecionadora de suas crônicas e grande admiradora. A que mais me agradou até hoje foi uma em que o senhor disse que não passa pelas cidades. São as cidades que passam pelo senhor. Acabei de reler esse artigo e fiquei curiosa em ouvir mais sobre o assunto. O senhor poderia comentar? 

Marcela Look, por e-mail

“Well, my dear, antes de mais nada quero que saiba o quanto me deixa feliz ter leitores assíduos como você. Também peço que, em sua próxima correspondência, você deixe o ‘senhor’ de lado. Faz me sentir muito velho – e, in fact, só me considerei assim no dia que perdi o embarque no Titanic porque meu carro chafurdou nas charnecas de Sussex. Shame on me. Jamais falto ou atraso em meus compromissos. 

A frase a que você se refere acabou soando, para mim, como uma frase de efeito, daquelas que se usa para conquistar leitores, seduzindo-os pela linguagem. Não voltei a usá-la por esse motivo.

Hoje, confrontado com sua carta, pus-me a pensar de onde a tirei. Creio que foi, certa feita, a partir de uma viagem que fiz a Berlim depois da reunificação das Alemanhas. Não acho que, at that time, fui especialmente tocado pela beleza do Sony Center, pela recuperação do Hotel Adlon e pelo novo vigor da Friedrichstrasse onde, no passado, acompanhei a arte e a tristeza, juntas, em estado puro, nos bordéis e nas galerias.

Senti, however, que a capital alemã passou por mim com a força de um Panzer (N. da R.: abreviatura de Panzerkampfwagen, veículo blindado de ataque fartamente utilizado pela Alemanha na 2.ª Guerra Mundial). Eu mesmo passei por ela várias vezes, sem deixar nada além de minha própria sombra pelas calçadas. Ela, entretanto, ao passar por mim, tantas e tantas vezes, deixou marcas profundas. Senti que ela me atingiu, dilacerou, produziu ódio e repulsa, depois pena e comoção.

A chamada ‘cidade dos espiões’, darling, foi uma espécie de aorta do século 20. Por elas circularam ideias e ideais de um mundo que não sabia para onde ir, que destilava poder e ódio e mais tarde, medo e apreensão. Foi tudo isso que me abalou quando Berlim passou por mim com seu kaiser, seu führer, seus check points e a lembrança da querida Marlene Dietrich, com quem vivi momentos tórridos em uma das ausências de Rudolf (N. da R.: Rudolf Sieber, marido de Marlene entre 1923 e 1976)

Mas não foi a nostalgia o que me levou a pensar nas cidades – e também em outras paragens – como pássaros invisíveis que perpassaram meu corpo sem aviso prévio, deixando traços indeléveis. Hoje sei que não importa o número de vezes que eu passe por um lugar. Posso gostar do que vi, posso ter saudades e fazer sempre novas descobertas. Mas se eles não passarem por mim, terá sido como se eu fosse apenas um transeunte do tempo e do espaço. Did you get me? Não se preocupe: se eu não soube me expressar, talvez fique mesmo incompreensível. Um dia, viajando, eu sei que você vai sentir o mesmo que eu. E, então, compreenderá.” 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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