Cidades sedutoras, cidadãos hostis

Nosso solerte viajante planeja ir à Islândia para uma longa caminhada na porção norte da ilha, em companhia de Guöjbjörg Grunden, uma amiga que ele fez de tanto tentar pronunciar seu primeiro nome. A seguir, a correspondência da semana

Mr. Miles*, O Estado de S.Paulo

13 Junho 2017 | 04h09

Prezado Mr. Miles: o senhor sempre enaltece a hospitalidade em outras partes do mundo. Pois acabo de voltar de Veneza, uma cidade linda, em que fui maltratado por todos os locais com quem tive contato: garçons, porteiros de hotel, gondoleiros, vendedores de amendoim na Piazza San Marco. Todos! Que hospitalidade é essa?  

Fernando Tavares Solitto, por e-mail

“Well, my dear friend, em primeiro lugar quero manifestar minha contrariedade pelo que lhe aconteceu. E, unfortunately, é preciso admitir que, quanto mais turístico torna-se um lugar, menos agradavelmente agem seus moradores. Em alguns deles – os que recebem hordas de viajantes diariamente – é até possível compreender o que ocorre. Cidades, em primeira instância, são comunidades criadas para que um determinado grupo de pessoas viva com a melhor qualidade e a mais afinada harmonia possíveis.

Receber visitantes, no passado, era uma exclusividade dos ajuntamentos de passagem comercial, aqueles que, as you know, ficavam no meio do caminho entre quem comprava e quem vendia nas diversas rotas de caravanas entre o sul e o norte, o leste e o oeste.

Nenhuma urbe antiga foi projetada para ser um destino turístico e a própria atividade de ganhar dinheiro dos visitantes não era um negócio organizado. Vêm do final do século 18 as primeiras peregrinações com fim exclusivo de conhecimento e lazer. Nowadays, lugares como Las Vegas, Orlando, Dubai e muitos outros vivem quase exclusivamente da prosperidade que seus visitantes lhes trazem – dormindo, comendo, comprando, movendo-se, divertindo-se ou jogando.

Uma curiosidade sobre essas metrópoles turísticas é que, em nenhuma delas, os nascidos no local são a maioria da população. Encontrar verdadeiros dubaians em Dubai, for instance, é mais difícil do que passar um camelo pelo buraco de uma agulha. 

Já as cidades naturalmente espetaculares sofrem o mesmo assédio que as mulheres mais atraentes. Elas têm um poder de sedução que conhecem e outro que desconhecem. Convidam com os olhos, mas são pudicas e não aceitam promiscuidade. Por algum motivo desconhecido (ou não) elas tornaram-se destaques naturais, ao contrário das demais. Muitas delas, however, cansaram de receber os que lhes querem tirar um sorriso ou um carinho. Meu velho amigo Ferruccio, florentino de nascimento, não volta à sua cidade (que é, também, o berço de grandes artistas do Renascimento) há mais de três décadas. Para ele, ver a pequena praça em frente à casa em que nasceu pisoteada, diariamente, por milhares de calçados que não poupam as flores e os canteiros tornou-se insuportável. Ver a cantina que frequentava em Coverciano tornar-se pior e muito mais cara doeu-lhe no coração. É o momento triste em que o cidadão já não reconhece mais sua própria cidade. Em que olha para os lados e só vê estranhos. Em que as lembranças da infância se esfumaçam e os elos do coração se rompem.

Não é aceitável, however, que essa dor se transforme em hostilidade. Não é de quem visita a culpa por tanta beleza. Quando os visitantes chegam em turbas, é claro que comportam-se com a parca inteligência das manadas, provocando sujeira e tendo atitudes inadequadas. Mas há um determinado momento em que a própria comuna resolve viver das divisas que os viajantes trazem. Equipa-se com esse fim. E muda. Leonardo da Vinci jamais teria pintado a Gioconda na Florença de hoje. E a frota de Marco Polo não teria espaço entre tantos e tão poderosos navios comerciais que ocupam os cais de Veneza.

Mas posso lhe dizer uma coisa, dear Fernando? Ainda assim há gente muito hospitaleira em qualquer lugar do mundo. Nem todos andam com caras amarradas e nervos à flor da pele. Alguns conseguem perceber que, ainda assim, é melhor viver junto a beleza e a prosperidade do que fazê-lo em um lugar feio e pobre. Don’t you agree?”

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E  

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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