Stringer/ Reuters
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Cinco programas para curtir o verão na Patagônia

No extremo sul do país, temperaturas entre 4 e 14 graus marcam a estação mais quente do ano – época perfeita para explorar as trilhas e parques nacionais, como o cobiçado Torres del Paine

Jéssica Otoboni, O Estado de S. Paulo

06 Março 2018 | 05h00

De Puerto Natales

O vento forte e gelado me recebeu de forma arrebatadora em Punta Arenas. Localizada no extremo sul do Chile, a capital da região de Magalhães me apresentou um verão com temperaturas máximas de 15 graus (as mínimas ficam próximas a zero). Meu destino, no entanto, estava a quase três horas dali: Puerto Natales, porta de entrada para o cobiçado Parque Nacional Torres del Paine.

O sol não parecia ter muita vontade de dar as caras, disputando espaço entre as nuvens cinzas e pesadas e a garoa fina que insistia em cair. Mas, já na estrada em direção a Puerto Natales – conhecida como Rota do Fim do Mundo –, a paisagem já dava uma amostra do que nos seria apresentado nos próximos dias: montanhas cobertas de neve e extensos rios cercados por geleiras e imensos icebergs, além de pampas cobertos de rebanhos de ovelhas. 

Apesar do vento gelado e das temperaturas sempre próximas aos 10 graus, observar o dia claro (mesmo quando o relógio marcava 21h30) era bem agradável. Nesta época do ano, o dia chega a ter até 17 horas de luz solar. No inverno, contudo, a lógica se inverte: o sol nasce por volta das 9 da manhã, e às 16h30 já é noite. 

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Sossego. Puerto Natales é uma cidadezinha tranquila, sem trânsito nem semáforos, com muitas casinhas de madeira. São apenas 19 mil habitantes e poucas atrações turísticas, mas simpatia é o que não falta – é comum ser cumprimentado pelos moradores ao caminhar pelas ruas pacatas.

Uma tarde é suficiente para conhecer a cidade. Na orla, o monumento La Mano é bem parecido à versão da uruguaia Punta del Este, mas em tamanho menor. Ali pertinho, o Muelle Historico tem apenas os resquícios de uma antiga doca, mas oferece uma boa vista para o mar. Para as inevitáveis comprinhas, o Mercado de Artesanato Ether Aike é simpático por fora e por dentro, com pequenos chalezinhos que vendem artigos de vestuário, bijuterias e decoração feitos de madeira, couro ou lã. Se você esqueceu suas luvas em casa, eis uma boa oportunidade de comprar um par extra.

A cidade é segura e você pode caminhar com tranquilidade, mas não perca a hora: o comércio funciona das 10h às 13h e das 15h às 20h. E isso inclui restaurantes: melhor almoçar ao meio-dia para não correr risco de não achar um restaurante aberto.

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Como ir: apesar de Puerto Natales ter um pequeno aeroporto, normalmente os voos de São Paulo para a região chegam a Punta Arenas, que tem mais opções de rotas. Até Puerto Natales são cerca de 3 horas de viagem. Para viajantes independentes, a Bus Sur (bussur.com) tem ônibus entre Punta Arenas e Puerto Natales (cerca de R$ 40) e para outros destinos patagônicos (como Ushuaia e El Calafate), caso você queira estender a viagem. A mesma empresa também leva de Puerto Natales ao Parque Torres del Paine (cerca de R$ 40). 

Moeda: 1.000 pesos chilenos equivalem a R$ 5,45.

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O essencial

Na mala. Gorro, luva e cachecol são itens fundamentais. Se for fazer trilhas, leve uma bota de caminhada impermeável (e já amaciada). Bastões para caminhada ajudam, especialmente nas trilhas longas. Mochila pequena, óculos escuros e protetor solar serão seus companheiros diários. Vista-se em camadas e não esqueça um bom casaco por cima de tudo. 

Dinheiro. Dentro do parque, leve pesos chilenos. Na cidade, pode usar seu cartão de crédito. 

Internet. O acesso à internet nos parques é restrito. No Torres del Paine, há Wi-Fi em alguns refúgios, mas não conte com ele em todos os dias. Aproveite para curtir a paisagem – e acesse as redes do seu hotel. 

VIAGEM A CONVITE DO SERVIÇO NACIONAL DE TURISMO DO CHILE.

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Jéssica Otoboni, O Estado de S. Paulo

06 Março 2018 | 04h50

A neblina da manhã adiou o esperado encontro com as famosas Torres del Paine. Mas não saí de lá sem esse “troféu”: durante a tarde, com o horizonte mais limpo, foi possível ver os três picos de granito de até 2.850 metros de altura. 

O Parque Torres del Paine é quase um sinônimo de Patagônia chilena. Criado em 1959 e declarado Reserva da Biosfera pela Unesco em 1978, tem cerca de 230 mil hectares e vem experimentando um aumento contínuo no número de visitantes – atualmente, são cerca de 150 mil pessoas por ano. 

Tanto que a administração do parque vem atuando para organizar a visitação turística. Desde outubro de 2016, exige-se reserva antecipada para pernoitar nos seus dez acampamentos e refúgios – dois deles, Paso e Italiano, são administrados pela Corporação Nacional Florestal (Conaf) e gratuitos. Outros oito são administrados por duas concessionárias e cobram. Reserve em bit.ly/reservecamping.

Dois circuitos de trilhas são os principais: o W, mais curto, com cerca de 70 km de extensão (leva em média 5 dias), e o O, com cerca de 120 km de trilhas (8 a 10 dias). 

E há várias outras opções de passeios. Rios e lagos que se formam a partir do degelo dos cumes do maciço rochoso mudam de cor de acordo com a luminosidade e o ponto do parque onde se está. De encher os olhos. Visitas aos lagos Pehoe e Nordenskjöld e ao lago e glaciar Grey não dependem necessariamente de trilhas longas: de Puerto Natales partem ônibus de linha até o centro de visitantes, e também é possível alugar carro. 

A administração pede que você se registre na chegada e informe seus planos de visita, por segurança. Outras regras incluem não fazer fogueira, levar o lixo embora e preservar flora e fauna. Uma placa me chamou a atenção: a que ensina a se portar em caso de encontro com um puma – há vários. Não se deve correr, nem encarar o animal. Feliz ou infelizmente, não encontrei nenhum. Mas os guanacos, um tipo de lhama, estes estavam por toda a parte. A entrada no parque custa de 11 a 21 mil pesos (R$ 60 a R$ 115). Site: parquetorresdelpaine.cl.

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2. Navegação entre icebergs

A paisagem de formações de gelo, as montanhas cobertas por neve e lagos de águas esverdeadas e azuladas torna impossível não ficar boquiaberto diante da grandiosidade da natureza local

Jéssica Otoboni, O Estado de S. Paulo

06 Março 2018 | 04h45

A navegação pelo Lago Grey, que fica dentro do Parque Torres del Paine, é imperdível. Conforme a embarcação se deslocava, passei um longo tempo contemplando os icebergs que se desprendem das geleiras. Em um certo momento, passamos tão perto de um deles que parecia que iríamos tocá-lo.

A paisagem de formações de gelo, montanhas cobertas por neve eterna (nem tudo derrete no verão) e lagos de águas esverdeadas e azuladas torna impossível não ficar boquiaberto diante da grandiosidade da natureza local. 

A navegação é feita em um catamarã que abriga os visitantes em um ambiente aquecido e onde se serve de cortesia uma dose da bebida típica do país, o pisco sour, com gelo glacial recolhido das próprias geleiras. 

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Para admirar melhor a paisagem, subi até o segundo andar da embarcação, onde há um deque ao ar livre. Ver aquele cenário deslumbrante, formado pelas Cordilheiras dos Andes e do Paine, sem a barreira dos vidros das janelas, é uma experiência bem mais intensa e imersiva. A única preocupação é se proteger do vento cortante acentuado pela velocidade do barco.

A navegação custa entre 65 mil e 75 mil pesos (R$ 355 a R$ 410) e dura cerca de três horas. O ponto de partida é o Hotel Lago Grey, onde fiquei hospedada. O hotel tem 60 quartos e seu principal diferencial são as janelas com vista para o próprio Maciço do Paine

O restaurante é outro ponto alto. Delicioso, tanto pelos pratos que serve, baseados em ingredientes locais como pescados, quanto pela vista do lago que se tem de suas janelas. Para os passeios, a própria recepção faz as reservas. Diárias partem de 110 mil pesos (R$ 600) – também há pacotes all inclusive, com passeios incluídos, a preços que começam em 935 mil pesos (R$ 5.100) por pessoa, duas noites, em quarto duplo. Reserve: lagogrey.com.

Pernoites. O Explora Patagônia é outro hotel com a proposta de imersão total dentro dos limites do parque. Fica na margem do Lago Pehoe e seus pacotes, com duração de três noites, refeições e passeios, começam em US$ 4.900 para duas pessoas dividindo um quarto. Site: explora.com

Ficando nos hotéis dentro do parque você evita deslocamentos e aproveita as paisagens durante todos os períodos do dia – as noites são lindas. Se prefere uma hospedagem um pouco mais urbana, perto das opções de restaurantes de Puerto Natales, o Hotel Costaustralis está a cerca de duas horas do parque. Os 112 quartos são confortáveis – parte deles têm vista para o Fiorde da Última Esperança. Diárias começam em 130 mil pesos (R$ 711).

Para quem se hospeda na cidade, agências vendem tours de um dia inteiro ao Parque Torres del Paine, com cerca de nove horas de duração, por 40 mil pesos (R$ 220).

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Jéssica Otobani, O Estado de S. Paulo

06 Março 2018 | 04h40

O segundo passeio de barco do meu roteiro pela Patagônia chilena me levou ao Rio Serrano, que recebe a carga de diversos lagos e rios da região e deságua no Oceano Pacífico. Dali pude admirar o Campo de Gelo Sul, a terceira maior extensão de gelo continental do mundo. 

Depois de uns 45 minutos a bordo de um bote inflável em alta velocidade, exposta a um vento forte e gelado que dificulta a observação da paisagem e congela até o último fio de cabelo (prepare-se!), desembarquei na entrada do Parque Nacional Bernardo O’Higgins.

Fundado em 1969, o parque abriga mais de 60 espécies de pássaros. Há uma trilha tranquila – mas que ainda exige atenção em razão da presença de pedras e poças d’água – de cerca de 1 quilômetro. Ela leva aos pés do Glaciar Serrano, onde uma geleira “escorre” entre duas montanhas até chegar ao lago de mesmo nome, formando uma paisagem magnífica.

A bordo de um catamarã, seguimos de volta, mas não sem antes parar na Estância Puerto Consuelo (puertoconsuelo.com) para um almoço patagônico. À mesa, um dos pratos principais da gastronomia chilena: um delicioso cordeiro com batatas, servido após uma salada de folhas e uma sopa tradicional feita com verduras, carne de vaca e arroz, a carbonada. 

A refeição, claro, foi acompanhada por um saboroso vinho tinto chileno. Para os que não quiserem provar o cordeiro, também é servido frango assado. O passeio completo, incluindo a refeição, sai por 89.500 pesos chilenos (R$ 490).

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Jéssica Otoboni, O Estado de S. Paulo

06 Março 2018 | 04h35

Na entrada de Puerto Natales, uma estátua da figura símbolo do local dá as boas-vindas aos visitantes: o milodonte, uma espécie de preguiça gigante que habitou a região há cerca de 10 mil anos.  

Não se pode conhecer a cidade do milodonte e não ir à sua gruta. Restos dessa criatura, como ossos e pelos, foram encontrados na caverna que, em 1968, foi declarada Patrimônio Histórico pelo Ministério da Educação do Chile. Escavadores ainda trabalham no local em busca de mais informações sobre a história da Patagônia. É um passeio que agrada a todas as idades, incluindo as crianças, que ficam boquiabertas diante da estátua do milodonte na gruta – vi acontecer com um grupo de pequenos estudantes que visitavam o local. 

O parque é composto por três cavernas e uma formação rochosa gigante apelidada de “cadeira do Diabo”. A visita à área custa 5 mil pesos (R$ 28) – e também costuma estar incluída nos tours de dia inteiro ao parque Torres del Paine.

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Jéssica Otoboni, O Estado de S. Paulo

06 Março 2018 | 04h30

Em uma cidade cercada por tanta água, é claro que os pescados e frutos do mar estão entre os principais ingredientes da gastronomia. Além do salmão, prepare-se para ver nomes como congrio e mexilhões em vários cardápios – e ainda o cordeiro e as batatas que acompanham quase tudo. 

No restaurante do Hotel Lago Grey há menus com preço fixo compostos por entrada, salada ou sopa, prato principal e sobremesa, a 28.300 pesos (R$ 154). Inclui ainda pisco, água ou refrigerante, e café ou chá no fim da refeição. O congrio com ervilhas e polenta ao estragão é excelente. 

No centro de Puerto Natales, o Espacio Ñandu (facebook.com/espacionandu) fica em uma das esquinas da Praça de Armas, a principal da cidade. A especialidade da casa é o salmão, servido com batatas “duquesa” feitas à moda chilena. O local vende também souvenirs e o ambiente todo é embalado por trilha sonora de música britânica e americana, como Michael Jackson, Beatles e Madonna

Uma das casas mais recomendadas para provar comida tipicamente patagônica é Los Ganaderos (losganaderos.cl) A especialidade é o churrasco chileno, e a estrela, o chamado cordeiro magalhânico (17.900 pesos chilenos ou R$ 97). A seleção de peixes também é muito saborosa, com destaque para o salmão na manteiga (9.900 pesos, R$ 54).

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O Estado de S.Paulo

06 Março 2018 | 04h25

Puerto Chacabuco, Chile 

As belas Capillas de Mármol são um monumento natural deslumbrante no norte da Patagônia chilena. A navegação até a geleira San Rafael é linda e também inclui o brinde com bebida finalizada com pedras de gelo de glaciar. Para ver tudo isso, a base é Puerto Chacabuco. Chega-se lá pelo aeroporto de Balmaceda; desde o Brasil, o voo tem conexão em Santiago. Leia mais: bit.ly/nortepchile

Ushuaia, Argentina

É possível ir de Puerto Natales a Punta Arenas, e daí a Ushuaia, em ônibus da Bus Sur (bussur.com). Punta Arenas também é ligada a Ushuaia por pequenos aviões da DAP (dapairline.com); e navios Australis (4 noites; bit.ly/australi), que incluem Avenida dos Glaciares, Cabo Horn e Baía Wulaia. Em Ushuaia, visite o Parque Nacional Tierra del Fuego e navegue pelo Canal de Beagle. 

El Calafate, Argentina

É a cidade-base para visitar o majestoso glaciar Perito Moreno. Está a cerca de 7 horas de ônibus de Puerto Natales, também com a Bus Sur (bussur.com), e há voos desde Buenos Aires (e também de e para Ushuaia). Visite também a geleira Upsala e faça o bate-volta a El Chaltén com a Caltur (caltur.plataforma10.com.ar); são 215 km de distância e a cidade é perfeita para quem gosta de trekking.

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