Clima de ficção científica nos Pireneus

A quase 3 mil metros de altura, observatório astronômico com mais de um século de história convida a desvendar seus domos, escadarias e deslumbrantes paisagens

Mônica Nóbrega / LA MONGIE, O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2010 | 02h19

A afirmação pode soar algo infantil. Mas a culpa foi mesmo do arco-íris, que surgiu de um minuto para o outro abaixo dos meus pés. Exatamente, abaixo. Empoleirado nos Pireneus, no sul da França, o Pic du Midi invade as nuvens e permite cenas assim, fora do convencional. Como o queixo voltado para baixo, e não para cima, na hora de contemplar um arco-íris.

Pois o semicírculo colorido faz você esquecer as orientações do guia. Não foi por falta de preparo físico que de repente percebi os pulmões sem um pingo de oxigênio. A corridinha a fim de chamar a atenção do grupo para a maravilha que havia descoberto sozinha mal chegou a ter 50 metros de extensão. Mas nenhum passo acelerado fica impune a quase 3 mil metros de altura - 2.877 por respeito à precisão.

Ainda na base da montanha, antes do embarque na gôndola que transporta os visitantes entre a cidadezinha de La Mongie e o observatório astronômico construído lá em cima, o guia ensinou os cuidados a serem tomados para evitar os desconfortos do ar rarefeito, com concentração de oxigênio 30% inferior à encontrada no nível do mar. Não correr, óbvio, era um deles.

O esquecimento me obrigou a descansar a próxima hora e meia no restaurante. O almoço foi servido diante de um janelão de vidro que deixa ver as montanhas cobertas de neve e o céu ora azul, ora cheio de nuvens. Cardápio francês e bem simples (a refeição com entrada, prato principal e sobremesa custa 22 por pessoa). Os ingredientes são levados àquela altura na mesma gôndola que transporta os turistas.

O aparelho envidraçado transporta também cientistas e guias que trabalham no pico. Trajeto, dizem, que nunca deixa de provocar frio na barriga e a sensação de estar suspenso no vazio, mesmo feito todos os dias.

Estudos do sol. O Pic du Midi é uma estação meteorológica e observatório astronômico. Começou a funcionar há 132 anos e, em meados da década de 1990, viveu a ameaça de fechamento. Diante dela, a comunidade dos arredores formou um consórcio para transformar o lugar em ponto turístico, aproveitando a boa infraestrutura que já existia e as paisagens deslumbrantes dos arredores - o principal motivo de visitas. Hoje, 40 pessoas fazem parte do grupo que gerencia o complexo. As atividades astronômicas continuam, atualmente, com foco na observação do sol.

Visto de longe, com seus domos esféricos e suas antenas, o complexo lembra um filme de ficção científica. Impressão que fica ainda mais nítida lá dentro. As salas e galerias estão distribuídas em vários níveis, interligados por escadas estreitas.

O salão usado para cursos e convenções é um dos momentos mais empolgantes da visita. Em um canto está um respeitável aparato de segurança e primeiros socorros. Fácil se sentir em um bunker, caso os bunkers da vida real sejam mesmo como mostrados em filmes. Balões de oxigênio e desfibrilador fazem parte do acervo, porque é muito difícil chegar socorro lá em cima caso alguém tenha um problema de saúde. O guia conta que já precisaram reanimar um homem, que teve uma parada cardíaca.

Antes de chegar ao museu que conta a história do Pic du Midi e à loja, o grupo é levado à ala dos quartos. São aposentos simples, paredes de cimento, sem banheiro individual, onde dormem os pesquisadores.

Em datas específicas, as Nuits au Sommet (Noites no Topo), são abertas aos turistas que querem dormir uma noite no observatório. A programação inclui observar estrelas e ver palestras animadas ao ar livre, sob um frio que desce fácil aos dois dígitos negativos. O pacote individual com pernoite e atividades custa 199. Reservas: www.picdumidi.com

 

 

 

SAIBA MAIS

Como chegar

O aeroporto de Lourdes é o mais próximo. Há voos regulares desde Paris, com a Air France. O caminho (de carro alugado ou táxi) até La Mongie é feito pela Estrada do Tourmalet, um vaivém percorrido todos os anos pelos atletas do Tour de France

La Mongie

A 1.100 metros de altitude, a cidadezinha funciona como base da estação de esqui Domaine du Tourmalet, com 69 pistas. A temporada vai de outubro a março (consulte o site bagneresdebigorre-lamongie.com). Também é possível descer de esqui o Pic du Midi - o trajeto é recomendado apenas para experts, já que não existe pista

Quando ir

A vista ao Pic du Midi é mais agradável no verão (março a setembro), quando o frio é menos intenso e você consegue passar algum tempo ao ar livre para admirar a paisagem. O observatório fica aberto das 10 horas às 15h30. Entrada: 30, mais 5 pelo audioguia

Limite de visitantes

O número de visitantes na temporada chega a 2.100 pessoas por dia. Mas são permitidos apenas 600 visitantes nas dependências do observatório ao mesmo tempo. Ou seja, quem chega tarde precisa esperar outros turistas descerem para poder subir. Nas Nuits au Sommet, no máximo 19 pessoas podem dormir no local a cada noite

Mais informações

Dias, horários e reservas no site www.picdumidi.com

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