André Feltes/Estadão
André Feltes/Estadão

Cobrança para marcar assento no voo: pior para as famílias

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Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2018 | 00h42

Muito tempo atrás, se você fizesse o check-in online assim que ele ficasse disponível, conseguia reservar poltrona na primeira fileira sem pagar por isso.

Comigo deu certo algumas vezes. Numa delas, enquanto eu saboreava os primeiros momentos de espaço amplo, a comissária veio me pedir a gentileza de ceder o lugar a uma família com bebê que precisava usar o berço do avião. Claro que concordei – frustrada, mas concordei. Porque sou civilizada e porque o lugar, àquela altura, era gratuito tanto para mim quanto para a família em questão.

Mas assentos, bons ou ruins, viraram fonte de renda para as companhias aéreas no Brasil graças às novas regras da Anac, que permitem cobrar mais do passageiro que quiser escolher o lugar em que vai se sentar. A taxa já é antiga pelo mundo, é verdade, mas isso não a torna menos controversa. O Senado brasileiro aprovou na semana passada um projeto que proíbe a cobrança no País, mas que ainda depende de análise da Câmara para virar lei.

Enquanto isso, a Latam começa a nesta quinta-feira, 16 de agosto, a aplicar a taxa em suas categorias tarifárias mais econômicas. É a terceira das quatro empresas que operam voos nacionais no Brasil a adotar a medida. A Gol cobra desde fevereiro e a Azul, de maio. Avianca não aplica a taxa.

A redução do preço médio da passagem aérea nacional, prometida pelas empresas em troca da autorização para cobranças extras, nunca se concretizou – ao contrário, segundo a Anac, só no primeiro trimestre de 2018, o reajuste foi de 7,9%. E a taxa da poltrona, desagradável para todos os passageiros, no caso específico de quem viaja com crianças representa desconforto e também um risco.

Sem desembolsar um valor extra, é o tal “Sistema”, essa entidade toda poderosa contra a qual reles seres humanos como eu, você e os atendentes do check-in nada podem, que decide que mamãe vai sentar na 28B – poltrona do meio, por supuesto –, enquanto o menininho de 7 anos vai para a 30E – meio também. Não, senhora, infelizmente não temos lugares disponíveis para colocar vocês dois juntos, dirão no check-in.

E lá vai mamãe pedir licença e implorar empatia para poder ir até ali abrir o pacotinho de biscoitos da criança e evitar uma hecatombe de farelos. Isso quando ainda oferecem um biscoitinho, claro.

Quanto ao risco: felizmente, ninguém morreu no assustador acidente que atingiu um voo da Aeromexico há duas semanas, quando o avião despencou de uma certa altura sobre a pista do aeroporto de Durango ao não conseguir decolar. Mas uma passageira, a mexicana Jackeline Flores, deu uma declaração que não me sai da cabeça. “Desafivelei o cinto da minha filha e lhe disse: ‘vamos sair por aí’. E pulamos.” Creio que toda mãe é capaz de ver a si mesma na situação de Jackeline. E se a filha estivesse em alguma poltrona distante dela, quem se preocuparia com a garota em primeiro lugar?

A Azul (marcação a partir de R$ 10; escolha do lugar sem taxa três dias antes do voo) informou que “não há a possibilidade de crianças (pessoas de até doze anos incompletos) viajarem em assento separado (em localidade distante dentro da aeronave) de seu responsável”. A Latam – taxa de R$ 15 a R$ 25 – afirmou que “todos os passageiros adultos viajando com crianças serão acomodados em assentos próximos”. Fica o registro do compromisso das duas empresas para que você, viajando com filhos, possa cobrá-las. A Gol (taxa de R$ 10 a R$ 20; sem custo sete dias antes do voo) foi consultada, mas não respondeu.

A partir de agora, desejo sorte aos passageiros na corrida pelo check-in a tempo de conseguirem voar ao lado dos filhos. E muita paciência aos comissários na árdua missão de reacomodar viajantes dentro do avião, contando com a boa educação de uns e tendo de suportar a arrogância do “eu paguei” de outros.

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