Coleções tiveram de começar do nada

Cenário: Rachel B. Doyle

O Estado de S.Paulo

01 Julho 2014 | 02h07

As instituições de arte nem sequer existiam em Ruanda há uma década. Mas, em 2006, uma decisão improvável foi tomada para converter um antigo palácio real no primeiro museu de arte contemporânea do país. O local escolhido, um prédio neoclássico no topo de uma colina exuberante, hoje abriga a National Art Gallery e fica na cidade de Nyanza, no sudoeste do país, a cerca de 90 minutos de Kigali; ele um dia serviu de sede majestosa da Suprema Corte ruandesa.

Como construir uma coleção contemporânea do nada num país onde há poucos artistas? A solução foi realizar competições anuais nas quais as obras vencedoras eram adquiridas para o museu. Os artistas foram instados a criar obras que tratassem de temas associados à história terrível do país. "Ninguém tinha consciência da importância da arte numa sociedade duramente ferida", disse Lia Gieling, ex-curadora da National Art Gallery. "Era importante mostrar como eles poderiam contribuir para a cura e reconciliação."

As competições ajudaram a dar início à cena artística ruandesa e, após várias doações, a coleção do museu cresceu para cerca de 125 pinturas, esculturas e instalações. O artista ruandês Jean Claude Sekijege, que morreu em 2007, criou algumas das obras mais intrigantes aqui. Uma de suas esculturas retrata um avestruz com pés atados. Outra obra notável é um torso feminino moldado em gesso, seu braço feito com o cano de metal de um rifle.

Meu motorista de táxi, Fidel, que nunca havia visitado um museu de arte, caminhou até uma escultura em tamanho natural de um pombo guiando uma bicicleta motorizada e começou a dar tapinhas em aprovação. O pessoal do museu nem pestanejou - aparentemente é uma reação comum na National Art Gallery (museum.gov.rw). Fidel disse que gostou de admirar a obra de Epaphrodite Binamungu, embora tivesse se decepcionado porque os bens pessoais do ex-rei, que morreu em circunstâncias suspeitas em 1959, estavam em outro palácio.

A corrida de volta de Nyanza a Kigali passou por vales enevoados e encostas escarpadas cobertas de eucaliptos e vegetação densa. Mulheres carregando fardos sobre as cabeças cruzavam verdes campos de arrozais. De repente, todas aquelas pinturas de paisagem com morros ondulantes que vi em Kigali fizeram sentido.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.