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Com que roupa eu voo?

Muitas companhias aéreas parecem paradas no tempo, com um 'dress code' pouco claro – e, aparentemente, aplicável apenas às mulheres

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2019 | 03h35

Com que roupa você voa? Eu procuro estar o mais confortável possível para aguentar horas numa cabine pressurizada, em um assento apertado. Normalmente, uso uma calça preta de moletom ou uma legging com camiseta larga. Mas já embarquei de chinelos e shorts jeans de Porto Seguro para São Paulo. Já usei saia acima dos joelhos voltando de Salvador. Nunca achei que tais trajes pudessem ser considerados ofensivos a ponto de me colocarem para fora de um voo.

Mas minha sorte poderia ter sido outra. Na semana passada, a médica norte-americana Tisha Rowe foi “convidada” a se cobrir em um voo da American Airlines que ia da Jamaica a Miami por usar um macaquinho. Um voo de aproximadamente 2 horas, entre dois destinos de praia – nada de anormal, portanto. Mas, para a companhia aérea, ela vestia roupas inadequadas.

Fiz uma rápida pesquisa no Google para buscar outros casos. Um deles foi o de duas meninas de 10 anos, impedidas de embarcar num voo da United vestindo leggings – o detalhe é que o pai de uma delas usava shorts e não foi importunado pelos comissários. Outra mulher, vestindo shorts, também teve o traje considerado inadequado pela Jet Blue.

Uma outra passageira usava um top cropped (com uma calça de cintura alta) e foi ameaçada a ser retirada do avião da Thomas Cook porque seu traje poderia “ofender” outros passageiros. Ela então perguntou para os passageiros se alguém estava ofendido com seus trajes. Ninguém se manifestou, mas ela teve de vestir uma jaqueta ainda assim.

São inúmeros os casos em que roupas femininas foram consideradas inadequadas por empresas aéreas, mas foi difícil encontrar homens expulsos pelo mesmo motivo. O único que achei foi o de dois imãs, expulsos de um voo da Atlantic Southeast por estarem com roupas tradicionais (o detalhe é que eles estavam a caminho de uma conferência sobre islamofobia).

Houve um tempo em que viajar de avião merecia roupas formais. Era uma época em que poltronas eram espaçosas, o serviço de bordo, atencioso, e as refeições dignas de restaurantes. Hoje, o conforto no vestuário é imperativo, já que o desconforto nas aeronaves é certo. 

Mas muitas companhias aéreas parecem paradas no tempo, com um dress code pouco claro – e, aparentemente, aplicável apenas às mulheres. Não há um campo específico para buscar que trajes são aceitáveis nos sites das empresas. É preciso ir ao contrato de transporte para encontrar regras vagas como “estar devidamente trajado e calçado”.

Me causa espanto, nos dias de hoje, um shorts, um macaquinho ou um top serem considerados ofensivos. Em várias ocasiões já vi homens voando com regatas cavadas e pelos em abundância saindo das axilas, das costas, do peito. Já vi homens circulando pelos corredores do avião de braguilha aberta. Homens de shorts curtos, que mais pareciam cuecas samba-canção. Outros exibindo unhas encravadas e pés ressecados em chinelos malcheirosos. E nenhum desses trajes pareceram ofensivos para as empresas aéreas.

Não acho que esses homens deveriam ser expulsos (mas algum amigo poderia dar um toque, não?). No entanto, já passou da hora de as companhias atualizarem suas políticas e orientarem seus funcionários de que corpos femininos não são ofensivos.

Por isso, listo aqui coisas que acho realmente ofensivas em um voo:

Acabar uma das opções de refeição. Já temos de escolher entre macarrão que é ao mesmo tempo cru e cozido demais ou frango sem gosto. E quando finalmente chega a nossa vez, um deles acabou. Não é motivo para expulsar a equipe de bordo?

Interromper o filme. Você olha o tempo do filme e o tempo de voo que resta. Dá tempo de assistir. Porém, antes da aterrissagem a companhia interrompe o entretenimento de bordo para mostrar algum vídeo desnecessário. E você fica sem ver o final.

Cobrar para despachar a bagagem. Cadê os preços mais baixos prometidos pelas empresas aéreas?

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