Ore Huiying/NYT
Ore Huiying/NYT

Como é embarcar em um cruzeiro que vai para 'lugar nenhum'

O World Dream, em Cingapura, não para em portos para evitar contaminações pelo novo coronavírus. É possível se divertir ainda assim?

Sui-Lee Wee, The New York Times

08 de dezembro de 2020 | 07h00

As bebidas não tinham álcool e o distanciamento era social quando os bailarinos de strip Dream Boys invadiram o palco. As máscaras na beira da piscina eram obrigatórias. Os pontos de higienização das mãos estavam próximas das máquinas caça-níqueis. E em uma visão do futuro do setor global de cruzeiros, os passageiros a bordo do navio World Dream usavam pequenos dispositivos cor-de-rosa para o rastreamento dos contatos, monitorando seus deslocamentos e gravando os nomes de todas as pessoas com quem se encontravam.

“A bordo do World Dream procuramos fazer o máximo para que o seu cruzeiro conosco seja algo saudável”, disse Robert Bodin, capitão do navio, aos seus 1.400 passageiros no início da viagem: uma mudança radical em relação ao convite costumeiro para que relaxassem e aproveitassem da experiência.

O World Dream parte de Cingapura duas ou três vezes por semana para um cruzeiro sem destino, um raro raio de esperança para um setor que se encontra sob uma ameaça mortal. Em fevereiro, o mundo observou horrorizado enquanto o novo coronavírus infestava mais de 200 pessoas a bordo do navio Diamond Princess, com seus 3.600 passageiros aprisionados junto com a tripulação. Os governos proibiram os cruzeiros: as tripulações foram mandadas para casa; e os passageiros cancelaram as suas reservas, abandonando um setor que costumava empregar mais de um milhão de pessoas.

Cingapura, assim como vários países da Europa e o Japão, lançou então uma linha de salvamento a este setor. Como muitos navios estão ociosos ao redor do mundo, a cidade-estado promoveu as viagens obedecendo a determinadas limitações e a rigorosos controles.

Para verificar se isto seria possível, reservei uma viagem de três dias no World Dream. Amigos e colegas perguntaram por que eu iria me aventurar em uma “placa de Petri flutuante”, como o definiram. Os seus temores não eram infundados. Os funcionários da saúde dos Estados Unidos sugerem que as pessoas evitem as viagens de cruzeiros e disseram às operadoras que deverão criar um esquema a fim de programar como pretendem recomeçar. A maioria das grandes linhas de cruzeiro dos EUA anunciou que só retomarão as operações em 2021. Uma semana antes de eu embarcar, um navio que circulava pelo Caribe e zarpara de Barbados foi obrigado a retornar porque cinco passageiros testaram positivo para o novo coronavírus.

Entrei em contato com especialistas em doenças infecciosas para me informar a respeito dos riscos. “Quando vi o seu e-mail, pensei: ‘Péssima ideia’”, respondeu o dr. Edward Ryan, diretor de doenças infecciosas globais do Massachusetts General Hospital. No entanto, ele e outros médicos me disseram que, com as restrições de Cingapura, os cruzeiros parecem seguros. “Eles estão criando efetivamente uma bolha razoável”, disse Ryan.

A demanda voltou. A Genting Cruise Lines, a operadora do World Dream, informou que recebeu seis mil reservas no prazo de cinco dias. As reservas para a Royal Caribbean, que se prepara para zarpar de Cingapura este mês, foram seis vezes superiores ao número que a companhia receberia normalmente no mês de outubro, informou a linha.

Dentro da embarcação

O World Dream oferece praticamente tudo o que oferecia antes da pandemia, disse a Genting, inclusive uma tirolesa, duas piscinas, um cassino, 11 restaurantes e cafés e vários shows. Somente a sala de karaokê foi fechada, de acordo com as diretrizes oficiais.

Cingapura exige que os passageiros façam um teste de covid-19 antes de subir a bordo. Em vez de Hong Kong, Okinawa ou outro destino ensolarado, o navio não deverá atracar em nenhum outro lugar, somente em Cingapura. A capacidade foi reduzida pela metade, limitando o número até 1.700 hóspedes.

Seguindo as diretrizes de Cingapura, as linhas de cruzeiros tiveram de modernizar seus filtros de ar e adotar o distanciamento social. Além disso, os passageiros terão de carregar os dispositivos de rastreamento dos contatos, conectados com os sistemas de monitoramento de Cingapura. E treinarão para saber o que fazer se um passageiro apresentar sintomas: teste, rastreamento de contatos, isolamento das pessoas infectadas, dizer aos passageiros que voltem para as respectivas cabines e retornar à base.

A Royal Caribbean planeja adquirir o seguro contra a covid-19 para cada passageiro a fim de cobrir os custos da modernização até US$ 19 mil se o hóspede estiver infectado, explicou Angie Stephen, diretora-gerente para a região da Ásia-Pacífico da linha.

As medidas implicam um aumento dos custos de cerca de 40%, informou Michael Goh, diretor de vendas internacionais da Genting Cruise Lines em uma coletiva à imprensa. Mas elas tornam as viagens de cruzeiro “as férias mais seguras neste momento”, afirmou.

A Genting pretende intensificar as suas iniciativas com o objetivo de garantir a saúde. “Viaje com segurança”, diz o site da World Dream, destacando os sistemas de ventilação (“100% de ar puro externo”) e práticas de higiene dos alimentos (“O auto-serviço nos restaurantes com bufê será suspenso.”).

Em segurança

Provavelmente o principal motivo que me fez sentir seguro no cruzeiro foi o fato de que, quando subi a bordo do navio, Cingapura havia registrado sete dias contínuos sem nenhum caso conhecido de infecção pelo novo coronavírus.

Tive de fazer um rápido teste de antígeno, ministrado por um enfermeiro que vasculhou gentilmente minhas narinas com um cotonete. Não foi nada invasivo, como os longos bastõezinhos que conhecemos usados como testes de PCR, o método comum para detectar o vírus. Os testes de antígenos são fáceis de aplicar a grandes grupos de pessoas, mas os especialistas alertam que podem não detectar todos os que estão infectados.

Por isso, a Genting adota outras medidas. Depois das normas de Cingapura, ela despachou 40 “embaixadores de cruzeiro” com camisas polo azul-marinho para garantir que os hóspedes mantenham a distância uns dos outros. A gente acaba se acostumando à recomendação: “Por favor, fiquem a um metro de distância”.

Quase todos os passageiros obedecem, “mas há sempre aquele um 1%”, disse Zulkifli bin Ibrahim, um embaixador de cruzeiro. Um passageiro, contou, gritou com ele porque o lembrou de usar a máscara depois de nadar.

O cassino foi a maior atração. Dezenas de passageiros de cabelos grisalhos sentaram nas fileiras de caça-níqueis, sempre a um metro de distância. Havia várias mesas para o mahjong. Um grupo de mulheres idosas, usando máscaras, misturava as peças.

Tenho a certeza de que não fui a única hóspede preocupada com os riscos. Um golpe de tosse me lembrou se acaso a mulher duas mesas depois da minha não seria um vetor de germes.

No entanto, os passageiros pareciam agradecidos pela oportunidade de ir a qualquer outro lugar pela primeira vez, mesmo que “em qualquer outro lugar” fosse em um navio de cruzeiros no meio da água. "Fazia séculos que eu não viajava", disse Doris Yeo, uma assistente de vendas e aficionada por cruzeiros, que embarcou com um grupo de familiares.

Na última noite do cruzeiro, assisti ao show do teatro burlesco dos Dream Boys em um restaurante chinês, que foi anunciado como "uma noite para as senhoras em que suas fantasias realmente ganharão vida”. O salão parecia lotado, embora o público sentasse pelo menos a um metro de distância em uma série de mesas redondas. Como o show começou depois das 22:30, não foram servidas bebidas alcoólicas em razão das restrições.

Os números realizados pelos bailarinos – um desfile militar com armas supostamente falsas e outro número com bonés de capitão e não muito mais além disso – foram recebidos com gracejos abafados pelas máscaras. Quando os bailarinos foram chamados para que voltassem para a ribalta, o público aplaudiu com entusiasmo e uma mulher gritou: “Bis!”.

Planejamento é fundamental

Divertimento e relaxamento exigem planos precisos em um cruzeiro com a covid-19. Os shows precisam ser reservados com antecedência. Os nadadores devem fazer o mesmo; a piscina principal comporta 26 de uma só vez, que podem nadar apenas uma hora.

Com um pouco de planejamento, Raymond Lim e sua esposa conseguiram nadar, ir para a jacuzzi, dançar e ainda tomar aulas de dança (“Muito engraçado”). Ele também assistiu a uma aula de pintura sobre seixos (“Um pouco desajeitado”).

Lim, que trabalha para o Departamento do Turismo de Cingapura, definiu a experiência como uma “pausa legal”, mas “mais tranquila”. Em comparação a cruzeiros passados, ele disse, não conseguiu encontrar uma sala para relaxar e não houve “nenhuma dança espontânea”. “No geral,” disse Lim, “não se consegue relaxar de verdade”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
cruzeiro marítimoCingapura [Ásia]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.