Nathalia Garcia
Nathalia Garcia

Como é passar um dia no maior jardim de flores do mundo, o Keukenhof

Localizado em Lisse, na Holanda, o parque conta com cerca de sete milhões de bulbos de diferentes espécies - a temporada para vê-lo florido é curtíssima

Nathalia Garcia, Especial para o Estado

05 de maio de 2019 | 05h00

Um flashback até 1967 quando Jane Rose Kasmir se aproxima de soldados armados com baionetas. Nas mãos, essa jovem manifestante contra a Guerra do Vietnã carrega apenas uma flor. Registrada pelo francês Marc Riboud, a fotografia em preto e branco “Jeune fille à la fleur” (“Menina com a flor”, em tradução livre) tornou-se símbolo do movimento “Flower Power”, baseado na ideologia da não violência. É esse poder das flores que o Parque Keukenhof, localizado em Lisse, na Holanda, resgata para celebrar seu aniversário de 70 anos em 2019. Visitar o maior jardim de flores do mundo é uma experiência perfumada, colorida e, acima de tudo, sinestésica.

Ao cruzar os portões, abertos diariamente das 8h às 19h30, deparei-me com uma “salada mista” de tulipas em um grande canteiro central: as flores rosas se entrelaçavam às amarelas, que se misturavam com as vermelhas, as roxas, as brancas, as laranjas... Era o único local em que a regra era justamente não ter regra - isso porque planejamento é um imperativo no Keukenhof.

Perambulando pelas alamedas, meus olhos repousaram sobre um ramalhete de Freedom Flame (Chama da Liberdade) com suas pétalas amarelas raiadas em vermelho, descobri também tulipas que possuem franjas e encontrei até mesmo Ronaldo: uma tulipa roxa escura em referência ao ex-jogador brasileiro de futebol, que atuou no time holandês PSV Eindhoven. 

Anualmente, cerca de sete milhões de bulbos – além de tulipas, há narcisos, lírios, jacintos... – são plantados a mão por 40 jardineiros (sendo uma mulher) nos domínios do Keukenhof, em uma operação que leva cerca de três meses, de outubro a dezembro. A criatividade dos jardins fica a cargo do paisagista conceitual do parque em parceira com 100 fornecedores. Em conjunto, eles decidem as cores, a altura e até mesmo o período de floração das plantas que serão exibidas.

Curta temporada

O objetivo é que o parque esteja florido do início ao fim da temporada, que dura apenas oito semanas. Neste ano, os portões se fecham no dia 19 de maio. Ou seja, ainda há tempo de se juntar às milhares de pessoas que passarão pelo parque holandês. Apesar do grande volume de visitantes, é possível deambular sem “trânsito” pelas ruelas.

O principal inconveniente são as grandes filas nos restaurantes no horário de almoço, mas nada que um pouco de paciência não resolva. Além disso, pontos de venda de sorvete e outras guloseimas estão espalhados por todos os lados. Em 2018, o Keukenhof recebeu 1,4 milhão de visitantes. Número que tende a aumentar...

Navegando entre tulipas

Para fugir um pouco do frenesi, decidi explorar a paisagem em uma nova perspectiva: deslizando pelos canais que circundam o parque em um passeio de barco. Lembrando que essa atividade custa 8 euros (R$ 35) por pessoa e não está incluída no valor do ingresso - 17 euros online ou 18 euros na bilheteria (R$ 75 ou R$ 79).

A travessia tem início ao lado do moinho, que também é uma das atrações do Keukenhof. Cartão-postal holandês, o moinho do século 19 - instalado no local desde 1957 - oferece uma bela vista panorâmica da região. A embarcação de pequeno porte navega às margens dos floridos campos coloridos ao longo de 45 minutos. Um passeio para quem busca tranquilidade, mas confesso que não saciou minha ânsia de ver um “mar” de tulipas.

Aproveitei o trajeto para conhecer um pouco mais sobre as origens do Keukenhof com a ajuda de um áudio-guia – obtive outras informações históricas na exposição Tulpomania, num dos cinco pavilhões do parque. A travessia de barco é um bom cartão de visita, mas a melhor forma de se jogar nos campos de tulipas - não literalmente – é sair pedalando.

De bike, os campos por outra perspectiva

Rodeado de ciclovias, o Keukenhof serve de ponto de partida para quatro roteiros de bicicleta, de 5 a 25 km. Se você não é um grande esportista, não há com que se preocupar: o grau de dificuldade dos trajetos é fácil, o relevo é plano e não é preciso ir longe para apreciar o que há de mais bonito.

Os números podem assustar inicialmente, mas as inúmeras paradas ao longo do caminho suavizam a carga. Após alguns minutos de pedaladas, encontrei meu primeiro campo de tulipas florido. Estacionei a bike e deixei-me guiar pelos sentidos. Respirei fundo, lembrei do lirismo do Cartola ao dizer que as flores não falam, elas simplesmente exalam... Guardei na memória os aromas doces.

Observei, então, a paleta de cores que se abria diante dos meus olhos, quase como um arco-íris. Por fim, escutei o sopro do vento em meio ao balanço das flores. Também tirei fotos (muitas), mas resisti à tentação de entrar no meio dos campos de tulipas. Fica o alerta: as flores são vulneráveis a doenças decorrentes das bactérias que transportamos com os nossos sapatos. Repeti o ritual uma dezena de vezes. 

Em um segundo tempo de bike, me lancei na aventura do trajeto de 25 km até as dunas. Uma boa oportunidade para sentir o clima de praia, com direito até a uma porção de peixe frito no almoço. No entanto, é uma rota que só vale a pena se você tiver tempo de sobra. Meu conselho: priorize o pinga-pinga nos campos de tulipas.

Desbravar a região montado na magrela é um dos pontos altos da visita para quem vai a Lisse em meados de abril. Mas, se sua viagem estiver marcada para o início ou para o fim da temporada (março ou maio), tenha em mente que os campos de tulipas não estarão floridos. Por três horas de aluguel de uma bicicleta, o custo é de 10 euros (R$ 44).

O que está por trás da beleza

Uma vez de volta ao parque, aproveitei para descansar as pernas sentada em um dos bancos com vista para o lago, ouvindo o canto dos pássaros e contemplando as belezas do Keukenhof. Segui a recomendação de André Beijk, que trabalha no parque há 33 anos. Diariamente, os jardineiros entram em ação às 6h para a limpeza das alamedas e o cuidado das flores, antes mesmo da chegada do público.

Eles também são responsáveis pela supervisão dos canteiros com a missão de evitar que as pessoas cruzem os cordões de isolamento que protegem as tulipas. Alguns jardins não permitem a circulação do público, outros são mais acessíveis. “Quando comecei a trabalhar aqui, as pessoas apenas olhavam as flores e tiravam fotografias, hoje elas querem se aproximar o máximo possível das tulipas”, conta. 

Mas há detalhes que não dependem do trabalho de André e de seus colegas, o espetáculo é de responsabilidade da natureza. Enquanto desbravava os quatro cantos do Keukenhof, notei algumas flores desfalecidas, um indicativo dos efeitos da primavera precoce. O aumento das temperaturas em meados de abril neste ano pode diminuir a longevidade das tulipas e deixar o parque mais verde antes mesmo do fim da temporada.

É justamente essa imprevisibilidade que ainda encanta o antigo funcionário. “Nunca sabemos como será a primeira semana, nem como será a última”, admite. 

Em meados de maio, todas as flores irão ao chão e o colorido desaparecerá. Os bulbos serão, então, retirados em um processo que dura cerca de seis semanas e transformados em fertilizantes. Admito que fiquei espantada ao saber que tudo é destruído para evitar contaminação e doenças, até mesmo os compostos não são aplicados novamente no parque.

Os jardineiros trabalharão, em seguida, para garantir a fertilidade do solo. A partir de outubro, começa uma nova temporada de plantio, semeadura e cuidado até a reabertura do parque primaveril em março do ano seguinte. “Todo ano é a mesma coisa, mas quando abrimos o parque em março, eu ainda me surpreendo ao ver como ele é bonito”, resume o jardineiro do Keukenhof. 

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