Como fica o mundo sob nova direção

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

15 Novembro 2016 | 03h30

O resultado da corrida pela presidência dos Estados Unidos fez Mr. Miles vociferar um “ Oh, my God!” ao saber da vitória de Donald Trump. “Eu jamais deveria ter invocado Connie, a rainha do mau presságio, como fiz na coluna da semana passada. Presumo que ela tenha ido até lá, participado das últimas manifestações pró-Hillary e, unfortunately, deu no que deu!”

A seguir a pergunta da semana, escolhida por aproximar-se do tema.

Diga-me, caro Mr. Miles: a vida dos viajantes será cada vez mais difícil. O senhor não concorda?

Leonardo S. Taletti, por e-mail

Well, my friend: infelizmente você deve ter razão. Há cada vez mais gente na porta de seu país a montar barricadas contra o viajante, o ser mais interessado do mundo e, I’m sorry to say, o mais facilmente confundido com refugiados e imigrantes. On the other hand, dear Leonard, o viajante é, antes de tudo, um forte – parafraseando meu velho amigo Euclydes da Cunha em seu livro Os Sertões. Ou, como diria Gonçalves Dias, ‘viver é um combate, que aos fracos abate e aos fortes e bravos só faz exaltar’. 

Portanto, não nos deixemos abater. Conclamo-os: ‘Às malas, às frasqueiras e às mochilas!’.

Vamos mostrar a esses porteiros que o mundo segue sendo de todos, uma extensão do quintal da casa de cada um. E que não abrimos mão do direito de ir e vir, do direito de conhecer e aprender até que esses senhores vetustos e de maus bofes deixem de ser eleitos por pessoas que só saem dos seus sofás para comprar pipoca e cerveja, o que ocorre em quase todo o centro-oeste americano, terra dos chamados red necks (nucas vermelhas, queimadas pelo sol da lida rural).

E há uma outra questão: em minha opinião, quem quer ter as rédeas do mundo (como nós mesmos, britânicos, tivemos até o inicio do século 20), deve, as well, carregar a responsabilidade por seus tutelados. Largar o mundo na inércia, como os Estados Unidos da América estão fazendo, é como deixar um carro na ladeira apenas com o passageiro algemado.

Na minha visão antiquada, só fecham as portas os estabelecimentos que não deram certo. Os falidos, os incompetentes e os medrosos.

Essa eleição non sense, assim como nossa decisão de deixar a aliança europeia, os novos lideres populistas do leste europeu e a real ameaça de madame Le Pen, na França, lembra-me de um divertido episódio que vivi em Honduras. Vivia ali, numa estância, o poderoso Don Enrique Ordoñez, cuja única obsessão era proteger a virtude de sua linda filha Preciosa. Don Enrique chegou a atirar, com doloridas balas de sal, em uma dezena de pretendentes que aproximavam-se de sua propriedade. Eis que, certo dia, ansiosa por estrear seus talentos, a bela Preciosa resolveu seduzir o mordomo da casa, senhor de provecta idade.

‘Es lo que tiene para hoy!’, exclamou Preciosa que, meses depois, apareceu grávida sem que ninguém houvesse entrado na casa. Ainda que desconfiado, mister Ordoñez saiu pela região contando que sua filha, agora chamada de Santa Preciosa, estava prestes a dar à luz ao mais sagrado dos filhos de Honduras.

Em muitos aspectos, o senhor Trump lembra o bravo estancieiro. Ambos creem que quanto mais fechadas estiverem suas casas, melhor será para seus filhos. Lá dentro, porém, sempre haverá um serviçal pronto a passá-los para trás.

Quanto a mim, dear Leonard, vou esperar o andar da carruagem. Se a América acha que merece Trump, é possível que muitos viajantes achem que não merecem a América. 

E isso, of course, seria um caos. É cada dia maior a participação do turismo no PIB de vários países, e os Estados Unidos da América, repletos de parques de diversão e atrações naturais, não fogem à regra.

O fechamento daquela nossa antiga colônia aos turistas – que, believe me, vão sofrer tanto quanto os imigrantes –, será sentido na pátria de Lincoln e Washington. E isso vai obrigar o novo presidente a comprar muita tintura laranja para esconder suas ambições grisalhas.” 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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