Como guardar viagens na memória

Ainda caçando fotos de pássaros com seus binóculos, nosso viajante segue na Escandinávia, agora matando enormes mosquitos nos lagos finlandeses.

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2015 | 02h10

A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles: já viajei com minha esposa por vários locais, nacionais e internacionais. Obviamente sentimo-nos tornar mais enriquecidos internamente. Mas, lendo sua coluna, o que me deixa muito impressionado é que, ao contrário da sua fantástica memória, não consigo lembrar a maioria dos nomes dos lugares, das pessoas e dos detalhes das conversas descompromissadas de um viajante. Recorro às fotografias, mas sinto que nada se compara às suas lembranças fidedignas. Seriam frutos de sua ótima memória ou faz uso de algum recurso de um verdadeiro viajante como o senhor?

Motoi Tanaka, por e-mail

"Well, my friend. Dizia meu tímido amigo, o poeta Fernando Pessoa, ainda mais quando acompanhado de uma bagaceira, que 'a memória é a consciência inserida no tempo'. Linda frase, isn't it? Entretanto, um pouco difícil de entender. Don't you agree? Portanto, esqueçamos Pessoa e sigamos adiante. Seu elogio é generoso, mas não acredito ser dotado de um talento especial para lembrar-me de lugares. A vantagem que levo sobre um viajante bissexto é evidente: volto tantas vezes às localidades das quais gosto que lembro-me delas como outros lembram-se das ruas de seu bairro. Consigo até rever detalhes do lugar, como as placas que ali existiam, o aroma das coisas ao redor, a cor do céu, os ruídos e, principalmente, a companhia de quem eu desfrutava.

Associar pessoas a momentos é uma boa técnica, my dear Motoi. Mas nada como voltar e voltar, até que tudo se torne tão familiar e íntimo como o pub do Harry - aquele que frequento quando estou em casa. Já os lugares e as coisas que não me agradaram eu simplesmente elimino de minha memória. Ou, como dizem os jovens de hoje, eu os deleto.

In fact, a seletividade da memória já faz esse trabalho automaticamente. Todas as vezes que vou ao Quênia para um safári fotográfico em Masai Mara, passo por Nairóbi. Sequer me lembro como ela parece, mas posso lhe assegurar que não possui nenhum atrativo. Lembro-me em detalhes de cada safári. Mas nem me importa que haja essa cidade no caminho. Há uma outra frase, however, bem mais clara que a de Fernando Pessoa. Ela pertence a Goethe, que é, for sure, o maior autor alemão de todos os tempos. 'Quando o interesse diminui, o mesmo ocorre com a memória.'

Concordo com ele - e isso não vale apenas para o ato de viajar. Se você, for instance, fosse um grande apreciador de música e por ela tivesse perdido o interesse, em pouco tempo esqueceria quais eram as faixas preferidas de seu disco de... De quem mesmo? Quando se viaja menos compulsivamente do que este pobre andarilho inglês, a tendência é concentrar seus sonhos, estudos e atenção no destino a ser visitado. Aposto que você e sua esposa já viveram juntos essa experiência. On the other hand, uma próxima viagem os levaria a diminuir o interesse pela anterior. Am I right? E, exatamente como já disse Goethe, o interesse diminui junto com a memória.

Fotos, souvenirs, ingressos e cardápios são ótimos gatilhos para reativar a memória de viagens anteriores. Mas, as you say, detalhes como os nomes dos lugares, dos restaurantes, da comida tendem a sumir com o tempo. Para minimizar esse problema, há uma outra frase, dita em Cartagena, pelo meu saudoso amigo Gabriel García Márquez, com quem passei cem anos de boa companhia. Gabo disse: 'Aquele que não tem grande memória, arranja uma de papel.'

De seu jeito atrevido e ligeiramente arrogante, ele quis dizer que, para guardar detalhes, o melhor é sempre viajar com um caderno."

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos.

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