Gerhard Gellinger/Pixabay
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Como não esquecer uma viagem

Que música você vai escolher para deixar o seu roteiro inesquecível?

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2019 | 04h30

O mundo vai acabar e ela só quer dançar...’ Toda vez que ouço Natasha, do Capital Inicial, volto àquela viagem de ano-novo em Búzios. Um grupo de amigos, uma casa maravilhosa a poucos metros da praia e um ritual. Sempre que entrávamos na casa, Angelus colocava Natasha para tocar – na época, era um hit. “Ninguém aguenta mais, troca a música”, protestávamos. Mas ele se negava. “A gente precisa de uma trilha sonora. Daqui pra frente, quando vocês ouvirem essa música, vão lembrar dessa viagem.” 

A Adriana de 2005 odiaria admitir, mas ele tinha razão. Não mantive contato com todas as pessoas da casa (do próprio Angelus não tenho notícias há anos). Mas é só ouvir um trechinho (um passo sem pensar/um outro dia outro lugaaaar...) para eu ser transportada para um videoclipe com os melhores momentos daquela viagem. Imediatamente, sou invadida por uma deliciosa mistura de nostalgia e felicidade.

Talvez a trilha sonora pudesse ter sido um pouquinho melhor, mas em minha defesa digo que não fui eu quem escolheu (a culpa é sua, Angelus). Por outro lado, atire a primeira caixa de som bluetooth quem não se lembra com saudosismo daquela viagem de formatura em Porto Seguro ao ouvir “o Araketu, o Araketu quando toca / deixa todo mundo pulando que nem pipoca”.

É científico: as músicas são armazenadas em nosso cérebro em uma área diferente das memórias, de modo que se mantêm vivas na mente mesmo em doentes avançados de Alzheimer (quem assistiu ao belíssimo desenho animado Viva: a Vida é uma Festa sabe do que estou falando). Segundo declarou uma representante da Fundação Alzheimer Espanha em uma reportagem sobre o assunto publicada pelo jornal espanhol El País, as recordações mais duradouras são aquelas ligadas a uma experiência emocional intensa – a música tem uma relação estreita com as emoções. “A emoção é uma porta de entrada para lembrar”, diz ela. E viagens, por sua vez, sempre despertam um turbilhão de emoções. Não é uma combinação maravilhosa?

Canções locais ajudam a absorver a cultura do destino

Para tornar a experiência mais interessante, troque sua própria seleção pelas músicas locais. Foi assim que, na Ilha de Páscoa, descobri a banda Matato’a, com canções em rapa nui (a ilha, seus moradores e o idioma são chamados de rapa nui): pedimos aos guias que nos apresentassem o que eles ouviam. Tenho as canções até hoje (voltei a ouvir para escrever esta coluna).

Quem passa o carnaval em Pernambuco retorna para casa cantando vários hinos: “Voltei, Recife / foi a saudade que me trouxe pelo braço...”; “Olinda, quero cantar / a ti, esta canção...”. O mesmo ocorre na Bahia, onde há sempre a canção do verão, mas os clássicos permanecem firmes e fortes, de Chiclete com Banana a Gilberto Gil e seu Expresso 2222. No Rio são os sambas-enredo – é uma delícia ter na ponta da língua o samba que “pegou” naquele ano (nem sempre é o da escola vencedora) e os de outros carnavais. Aquarela do Brasil, de 1964, é um fenômeno, cantado a plenos pulmões por cariocas e praticamente ignorado nos bloquinhos paulistanos. Edith Piaf me leva a Paris na primeira nota. Malagueña Salerosa, ao mês maravilhoso que passei em Málaga, na Espanha. No Peru, fui apresentada por uma amiga ao reggaeton. 

Absorver a cultura local, ganhar um novo repertório musical e, de quebra, um deflagrador de boas memórias seria a meta ideal para uma viagem. Claro que nem sempre isso é possível e você pode passar os 14 anos seguintes cantando Natasha a plenos pulmões. 

Dividir um pouco do conhecimento adquirido com quem não foi junto é ainda melhor – aqui no Viagem, compartilhamos nosso repertório musical às terças-feiras, às 18h30 na Rádio Eldorado (FM 107,3), quando entramos no ar com o programa Check-in Eldorado. Até hoje, nunca tocamos Natasha (mas não prometo nada). 

No último fim de semana, tive a oportunidade de absorver um pouco desse conhecimento musical aqui em São Paulo mesmo, trazido por refugiados de várias partes do mundo, ao integrar o júri do Raízes da Cidade. A iniciativa da ONG Migraflix, em parceria com o Airbnb, tinha como objetivo oferecer a 30 refugiados a oportunidade de transformar seus talentos em tours – ou experiências –, disponíveis no portal de reserva de hospedagem a partir de 20 de junho. Duchelier, da República Democrática do Congo, entrou no palco como um astro pop. Nduduzo, da África do Sul, cantou em zulu – e nos encantou com seus passos de dança. Foram muitas apresentações baseadas em música e dança. Memórias pessoais que, daqui para frente, poderão ser compartilhadas com qualquer um.

E pra você, que músicas trazem as melhores recordações de viagem? Conte pra gente nos comentários.

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