Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão

Bodegas de Carmelo, a 'pérola' viticultora do Uruguai

Cidade no departamento de Colônia reúne seis vinícolas familiares e com histórias centenárias

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

28 de maio de 2019 | 04h40

NARBONA

Às margens do Rio da Prata

Por volta de 1909, o padre Juan de Narbona criou, às margens do Rio da Prata, uma das primeiras adegas do país. Nos anos que se seguiram, o local passou por outros donos e foi usado como armazém e bodega. Até que, na década de 1990, a família argentina Canton comprou a área de 50 hectares e fez nascer a Narbona: uma fazenda com produtos competitivos e oferta turística.

Os argentinos deram à marca o sobrenome do primeiro dono e preservaram construções antigas, utilizadas pelo restaurante e pela hospedagem de luxo, que ostenta o selo Relais & Chateux. 

São apenas cinco quartos. Três deles têm vista para a adega e os outros dois, para os parreirais – todos com um convidativo terraço. A diária começa em US$ 250 o casal na baixa temporada e inclui serviços como transfer a Puerto Camacho, passeios de kart pelos vinhedos, empréstimo de bicicletas e visita guiada com degustação.

Quem não é hóspede também pode participar da degustação com três tipos de vinhos, queijos e pães. Custa US$ 40, dura 1h30 e é realizada numa enorme sala com móveis antigos e paredes umedecidas e desgastadas pelo tempo, parte do charme do local. 

Dos 19 hectares de parreirais, a Narbona dedica 15 deles exclusivamente ao cultivo da uva tannat. Gostos pessoais, o vinho que mais me fez suspirar foi um pinot noir (US$ 21 a garrafa). Pelo sabor aprazível, mas também por ter sido a primeira vez que diferenciei claramente os aromas do líquido antes e depois de fazer movimentos circulares com a taça, como mandam os bons apreciadores. 

Como fazenda, a Narbona produz também doce de leite, geleia, azeite, queijos, iogurtes, massas, conservas e biscoitos. E, com exceção dos vinhos, que podem ser encontrados no aeroporto de Montevidéu a preços semelhantes, vale a pena comprar o que você gostar antes de ir embora. Site: narbona.com.uy/pt.

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ALMACÉN DE LA CAPILLA - CORDANO

Como antigamente

O Almacén de la Capilla, ou Cordano, fica em frente à Casona Campotinto, bem perto da capelinha de São Roque. Ali, o genovês Antonio Cordano abriu, em 1855, seu armazém para servir a comunidade que crescia na região. 

Até hoje o espaço mantém a atmosfera de vendinha do interior. Na entrada, nos perdemos entre as prateleiras que rodeiam o balcão antigo, repletas de produtos como garrafas de vinho e de licor, pó de café, erva-mate e bala de vinho, “a única da região”, diz orgulhoso Diego Vecchio, dono do lugar ao lado da mulher, Ana Paula Cordano.

É só quando atravessamos a segunda porta, em direção ao jardim interno, que se tem ideia das dimensões da propriedade. São 8 hectares, a maior parte deles coberto por parreirais, onde a colheita das uvas tannat, syrah, moscatel, cabernet, chardonnay e merlot é feita manualmente. A parte mais divertida é sempre a da chegada das uvas ao galpão, quando todo aquele tanque de frutos roxos é despejado no maquinário para começar a virar suco – a produção do local é de 10 mil litros ao ano.

O Almacén tem apenas um chalé para hospedagem, com diária a US$ 200 o casal – o preço inclui café da manhã e empréstimo de bicicletas (reservas pelo Booking.com e pelo Airbnb). Mas seu jardim com ares românticos e algumas mesinhas me pareceu a melhor oferta do lugar para uma tarde livre. A degustação custa US$ 28 e inclui seis tipos de vinhos, licor de uva tannat, tábua de queijos, doce de leite e grappamiel, tradicional bebida uruguaia que mistura grappa, mel e água. Site: bit.ly/almacencapilla.

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FAMILIA IRURTIA

De avô para neto

Quem plantou o primeiro parreiral desta pequena bodega, nascida em 1913, foi Lorenzo Irurtia. De origem basca, ele se instalou na região na metade do século 19 e, como outros imigrantes, esculpia pedras para pavimentação. Apaixonado por vinhos, porém, arranjou tempo para testar o solo de outra forma: cultivando videiras. 

A plantação cresceu, mas as técnicas de cultivo não acompanharam os tempos modernos. Ao menos não até 1954, quando Dante, um dos netos de Lorenzo, assumiu a vinícola e investiu em tecnologia, importando plantas da França para replantio em Carmelo. Além da tradicional tannat, há cabernet, syrah, malbec e pinot noir.

Embora não tenha grande estrutura turística, seu ponto alto é a preservação da história. No passeio, além da fábrica, você verá os mais antigos parreirais da região, uma curiosa coleção de rótulos e uma espécie de museu com fotos, objetos e móveis que revelam a trajetória dos Irurtia no Uruguai. 

O tour inclui uma taça de vinho (200 pesos, R$ 23). Para degustar mais rótulos, desde US$ 25. Site: irurtia.com.uy.

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CAMPOTINTO

Amor no século 21

A história desta bodega também começa com um imigrante, o florentino Diego Viganó, e sua mulher, María Eugenio Barreiro. Contudo, ela é do início do século 21. 

Apaixonados pela região e seus parreirais, o casal viu ali a chance de ter seu próprio vinhedo. Juntos, adquiriram, além de terras, uma casa de campo de mais de 100 anos, próxima à Igreja de São Roque, do século 19, e outro casarão centenário, distante 450 metros.

A casa deu lugar a um restaurante e uma pousada de clima familiar, com 12 quartos, inaugurada em 2013. Tem piscina e um quarto adaptado para pessoas com dificuldade de mobilidade. As diárias custam, em média, US$ 180, e hóspedes têm 10% de desconto no tour com degustação da vinícola.

 Já o casarão, ou melhor, a Casona Campotinto, serviu de morada aos donos. Hoje, é espaço de descanso, entretenimento e degustação de vinhos. Foi ali, numa sala de paredes de adobe, que experimentamos seus tannat mais finos, descansados em barris de carvalho. Sobre o Reserva (2016), nossa guia brincou: “Tem cheiro de fruta podre, fruta que está doce, né?”. De fato, ele era mais suave e adocicado. Já o Grand Reserva (2017), mais intenso, assumia o cheiro do carvalho, ideal para carnes – e para esta repórter degustar. 

A prova que fizemos custa 540 pesos (R$ 62), mas há opções desde 430 pesos (R$ 49). Além das degustações, é possível reservar piquenique nos parreirais (US$ 40 por pessoa) ou o day use (US$ 30 por pessoa), do meio-dia às 20h – inclui cavalgada, acesso ao salão de jogos e duas taças de vinho. Site: posadacampotinto.com.

POSSIBILIDADES DE BATE-VOLTAS EM COLÔNIA

1. Colônia do Sacramento 

Para dar um tempo no roteiro de vinhos, considere a parada nesta cidade histórica: está a 2h30 de Montevidéu e a 1h de Carmelo. Fincada no estuário do Rio da Prata, ela foi alvo de uma longa disputa entre portugueses e espanhóis ao longo de dois séculos. Como resultado, preserva em seu centro, patrimônio da Unesco, traços das arquiteturas espanhola e portuguesa, com ruas de paralelepípedos, casas de barro, ruínas e a mais antiga igreja uruguaia, do século 17, à beira do rio – com vista para Buenos Aires. 

2. Colônia Valdense 

A 1h30 de Montevidéu e também de Carmelo, essa simpática cidade, fundada por italianos no século 19, pode ser um desvio interessante se você é fã de queijos: há diversas granjas produtoras de tipos como dambo, gruyère e provolone, entre elas a Brassetti e a Don Santi. Visite ainda o Museu do Colecionador. 

ONDE DORMIR E COMER EM CARMELO

1. Grand Hyatt Carmelo

Isolado e luxuoso, este resort (ex-Four Seasons) ocupa 44 mil hectares, com 150 mil metros quadrados de parreirais. Tem 44 quartos amplos e bem equipados, campo de golfe, piscinas e spa. Diárias desde US$ 369, com café; bit.ly/hyattcarmelo.

 

2. Las Liebres

Com pratos braseados à la Francis Mallmann, este restaurante-hospedaria está no ponto mais alto do Estado de Colônia. Fui de cordeiro preparado no forno de barro, delicioso (650 pesos; R$ 74). Diárias desde US$ 315. Site: lasliebres.com.uy.

 

3. El Bodegon 

A fachada é antiga, mas este bar de vinho com decoração simpática abriu há menos de um ano no centro de Carmelo. Peça ojo de bife, clássico uruguaio; bit.ly/bodegonuy

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