Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

Felipe Mortara, especial para o Estado, Jerusalém

07 Novembro 2017 | 05h15

Há uma certa surpresa ao primeiro olhar sobre Jerusalém. Placas em três idiomas – hebraico, árabe, inglês. Soldados e policiais fortemente armados. Crianças e mulheres judias e muçulmanas garimpando os melhores preços. Comerciantes barganhando o preço de seus souvenirs com turistas. Estabelecido por resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948, Israel é um país jovem, com múltiplas identidades. E Jerusalém, a capital formal, sintetiza essa vibrante mistura que é nada e tudo ao mesmo tempo.

Me explico: Jerusalém abriga uma série de edifícios e de histórias que a tornam sagrada para as três principais religiões monoteístas do Ocidente. Ao mesmo tempo em que é capital do Estado de Israel, se divide como lar do terceiro ponto mais importante para os muçulmanos no planeta e epicentro da fé cristã. A ideia de Terra Santa permeia cada milímetro de todo o território. 

Existe nitidamente uma cisão entre as fés. Por outro lado, a Cidade Velha de Jerusalém é o resumo da pluralidade de crenças que coabitam um mesmo lugar em razoável harmonia. Com menos de 1 quilômetro quadrado de área, é nesse espaço cercado por muralhas, erguidas no início do século 16, que se concentram alguns dos mais emblemáticos patrimônios da humanidade da Unesco. Ao todo, oito portões ligam a parte mais nova da cidade à área histórica.

 

Violência é artigo raro, mas a tensão está no ar. Infelizmente, por conta de inúmeros conflitos e atentados ao longo dos séculos, alguns sítios religiosos têm entrada vetada a praticantes de outras religiões. Porém, um único felizardo pode, com sabedoria e respeito, admirar praticamente todos os cantos singulares para judeus, muçulmanos e católicos: o turista. Com uma espécie de passe vip intrínseco à sua condição de visitante, respeitando dias e horários adequados, o viajante pode desfrutar de (quase) cada canto repleto de história e sentido religioso. É praticamente um privilégio não ser nativo.

Grupos de turistas religiosos, principalmente católicos e judeus, exercem em massa sua convicção de peregrinar aos cantos narrados em seus livros de fé. Muitos dos episódios descritos pela Torá e pela Bíblia supostamente ocorreram sobre este chão, nestas esquinas, entre estes muros. Assim, cada passo torna-se uma imersão em fatos e versões e transforma os detalhes em protagonistas. 

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Expertise

Contar com o repertório e a didática de um bom guia faz toda a diferença para explorar e aprender em Jerusalém. Inúmeros profissionais brasileiros residentes há anos oferecem um serviço de excelente qualidade e entendem bem nossos anseios e curiosidades. Claro, há também um exército de guias estrangeiros muito competentes, afinal há um curso oficial bastante seletivo para a formação destes profissionais. Na página de informações turísticas de Israel há uma relação de guias credenciados que falam diversos idiomas – inclusive o português. 

Um dia inteiro não é o suficiente para passar correndo por todas as principais atrações do centro antigo de Jerusalém – você merece mais do que isso. Separe ao menos um dia da sua programação para ficar livre, leve e curioso pelo centro antigo e permitir-se descobrir uma Jerusalém do seu jeito. 

Muito embora a cidade guarde uma infinidade de atrativos históricos e modernos, este é um roteiro dedicado a explorar pontos emblemáticos para cada religião dentro das muralhas. Traçamos um percurso compacto pelas principais atrações histórico-religiosas, circulando pelos três principais redutos da Jerusalém antiga – os bairros judeu, árabe e cristão-armênio. Mesmo assim, uma ressalva: a melhor vista de Jerusalém continua sendo do alto do Monte das Oliveiras, fora da Cidade Velha. 

Entenda a muralha

Ao todo, são oito portões que levam a áreas distintas da Cidade Velha

Zion

Sião, na tradução em português, era o nome da região onde está Jerusalém. Ao sul da cidade, o portão fica em frente ao Monte Sião, e leva aos bairros Armênio e Judeu.

Dung 

O nome (estrume) se refere à antiga área de descarte de lixo, que se localizava depois do portão. Por ele chega-se ao Muro das Lamentações e à Cidade de Davi. 

Golden (ou Mercy) 

Está de frente para o Monte das Oliveiras, mas foi bloqueado há anos. Segundo uma tradição judaica, por ele entrará o Messias.

Lion

Com quatro figuras felinas na decoração, ele leva ao início da Via Dolorosa e ao Bairro Muçulmano. No Domingo de Ramos, a procissão para o Monte das Oliveiras passa por ali.

Herodes 

Já do lado norte, o portão também é conhecido como Flower’s Gate (Portão das Flores), por causa de um desenho na entrada. Leva ao Bairro Muçulmano.

Damasco 

Preste atenção no formato do portão, similar a uma coroa (ou um castelo). Desde o século 1 a.C. esta foi uma das principais entradas da cidade. É o mais movimentado dos portões. 

New 

Este portão foi construído bem depois dos demais, em 1889. O objetivo era facilitar o acesso ao Bairro Cristão. 

Jaffa

Ao entrar, você logo vai ver a Torre de Davi. Leva para os bairros Cristão, Judeu e Armênio. Foi batizado dessa forma porque dali saía o antigo caminho para a cidade de Jaffa.

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O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 04h30

Depois das mesquitas de Meca e de Medina, ambas na Arábia Saudita, não há lugar mais sagrado para os muçulmanos do que a Cúpula da Rocha, na Cidade Velha de Jerusalém. Ali teria sido o ponto de onde Maomé ascendeu aos céus. Principal edifício da Esplanada das Mesquitas, foi erguido em 691 d.C. e seu domo dourado pode ser visto de vários pontos da cidade e dos arredores, como o Monte Sião. O complexo de templos batizado Haram esh-Sharif, ou Templo do Monte, tem formato retangular – curiosamente, uma de suas paredes (a oeste) é o Muro da Lamentações. 

As paredes aliás, teriam sido erguidas em torno de um ponto sagrado também para os seguidores da Bíblia. Foi no topo do Monte Moriá que Abraão teria oferecido seu filho Isaac em sacrifício a Deus – que acabou poupando o menino. Judeus não podem entrar no perímetro, mas como turista você será autorizado.

Os visitantes entram diariamente, das 8h às 11h30 e das 12h30 às 14h, mas não muçulmanos são proibidos de visitar internamente a mesquita principal e a de Al-Aqsa. Vá preparado para as filas e chegue antes do horário para conseguir percorrer o lugar sem muita correria.

Ainda assim, dá para ver do lado de fora os mosaicos em azulejos multicentenários, milimetricamente lapidados. Erguida no século 8, Al-Aqsa é o polo rotineiro de fé dos muçulmanos – todas as sextas-feiras, o dia mais sagrado para os seguidores de Alá, milhares de pessoas se reúnem ao meio-dia para rezar. 

A visita permite observar também os detalhes de El-Kas, a maior das fontes desse quase parque no meio da Cidade Velha, feita com um único bloco de pedra no ano de 1320. Aberto a todos, o Museu de Arte Islâmica ocupa um impressionante edifício que já foi refeitório na época da ocupação de Jerusalém pelos Cavaleiros Templários. Ali você verá antigos exemplares do alcorão manuscritos e uma parte belíssima do teto entalhado da Mesquita Al-Aqsa. 

A entrada no Templo do Monte se dá apenas pelo Portão Mugrabi, por uma passarela ao lado do Muro das Lamentações, onde há um checkpoint – com detector de metais e aparelho de raio X. Já a saída pode ser feita por qualquer um dos outros quatro portões. Todos os visitantes devem estar com as pernas cobertas – evite alugar lá dentro, pois cobra-se algo entre R$ 20 e R$ 30 por uma saia.

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O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 04h30

Como se o Muro das Lamentações pudesse oferecer conselhos e ouvir suas lamúrias, judeus, ortodoxos ou não, encaixam suas cabeças entre as maiores fendas do mais icônico símbolo do judaísmo no mundo. Muitos rezam silenciosos, outros se mexem para frente e para trás, num movimento tradicional de oração. Mas o som das rezas em voz alta mistura cânticos e leituras que vão se confundindo num grande mantra transcendental. Principalmente se for um sábado pela manhã. Nem ouse tirar fotos no período do shabat, você será imediatamente repreendido. A fé e o respeito à Torá são palavras de ordem explícitas.

Visitar o Muro em qualquer outro dia é diferente, pois as fotos são permitidas e ficam bem melhores no período da tarde, quando o sol banha de amarelo as pedras-sabão. Descubra que o trecho exposto da famosa parede oeste do Templo do Monte – parte de uma construção erguida há mais de 2000 anos pelo Rei Herodes (37 a 4 a.C.) – é apenas uma parte dele. Para isso, explore o complexo de túneis que seguem por 488 metros – é bom reservar pelo site. Na mesma página é possível ver ao vivo o que acontece no chamado Western Wall neste exato momento – e escrever virtualmente os famosos bilhetinhos deixados entre as fendas do Muro. 

Na Praça Hurva, uma das poucas áreas de respiro no denso Bairro Judeu, fica a Sinagoga Ramban. Fundada no Monte Sião em meados de 1270 d.C. por Moses Ben Nahman, um rabino vindo da Espanha, foi transferida cerca de 130 anos depois para a área do centro antigo. Havia uma ausência de presença judaica por ali desde a diáspora, em 135 d.C.. O local era um dos poucos pontos de oração dos hebreus até fins do século 16, enquanto os otomanos controlaram Jerusalém. Passou séculos ocupado como uma oficina. A partir de 1967, quando o Estado de Israel tomou o controle da Cidade Velha, o prédio retomou sua vocação de sinagoga. 

Mesmo fora do centro antigo, dois lugares muito caros aos judeus merecem destaque. Na área de Givat Ram, o Museu de Israel  é essencial para compreender os porquês da importância da região, abrigando as principais descobertas arqueológicas e obras de arte de épocas distintas. Inaugurado em 1965, passou por reforma completa em 2010 e revela a força do judaísmo ao longo do tempo. Encontrados em Qumran, em 1947, por um beduíno que procurava um bode desaparecido, os Pergaminhos do Mar Morto são a maior preciosidade da religião judaica, escritos entre o século 3 a.C. e 68 d.C., e têm um moderno edifício arredondado arquitetado especialmente para eles dentro da área do museu. 

Igualmente marcante, mas por outro motivo, o Yad Vashem funciona como Memorial do Holocausto e narra de forma intensa e penetrante o extermínio de cerca de seis milhões de judeus pelos nazistas. Num corredor repleto de informações, depoimentos de sobreviventes e milhares de objetos, como sapatos, roupas e brinquedos traduzem a história recente dos judeus e os perigos da perseguição religiosa. Experiência impactante e dolorida, mas necessária. 

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O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 04h30

Grupos de peregrinos de inúmeras nações cristãs seguem seus guias cantando pela Via Dolorosa. Só mesmo num lugar onde a crença vive tão forte seria possível ouvir orações em russo, filipino e hindi num intervalo de poucos metros. A cada parada pelo circuito de 14 estações por onde, acredita-se, Jesus Cristo percorreu seu calvário, uma série de fotos, perguntas e mais cânticos. Ironicamente (ou simbolizando a mistura e coexistência das crenças em Jerusalém), a rota mais emblemática para os cristãos fica toda no Bairro Árabe. 

O caminho começa perto do arco de Ecce Homo e termina na Igreja do Santo Sepulcro, marcando os pontos onde Jesus foi condenado por Pôncio Pilatos, caiu pela primeira e segunda vez, entre outros eventos, segundo os evangelhos e livros apócrifos. Dentro da Igreja Armeno-Católica, a quarta estação lembra o lugar onde Maria sofreu ao ver seu filho carregando a cruz a caminho da morte. 

A quinta estação, pela qual desavisados podem passar batido, é uma pedra engordurada onde o Filho de Deus teria se apoiado. A fila para encostar e tirar uma selfie ali pode demorar alguns minutos. Importante ressaltar que, caso vá próximo à Páscoa ou ao Natal, as multidões podem ser ainda mais intensas do que em dias normais. Todas as sextas-feiras, às 15 horas, padres franciscanos organizam uma procissão pelo caminho sagrado

Túmulo de Jesus

 As últimas cinco estações ficam dentro da Igreja do Santo Sepulcro. O local engloba o Calvário (Gólgota), onde Jesus foi crucificado, e também a tumba para onde seu corpo foi conduzido. A construção da igreja começou em 326 d.C., a mando do Imperador Constantino, sobre os restos de um templo romano do século 2. 

Queimada e saqueada pelos persas em 614, a igreja foi reconstruída anos depois pelo patriarca Modesto de Jerusalém, e danificada por um terremoto em 808. Embora uma parte tenha sido reerguida pelo imperador bizantino Constantino IX em 1048, a maior parte do prédio atual é resultado de uma reconstrução das Cruzadas do século 12. A renovação mais recente começou em 1959, e a igreja atual abrange metade da área do templo e da basílica bizantinos originais. 

Contudo, isso não diminui a fé que pulsa dentro do amplo complexo. Você logo identificará a fila para entrar e ver o Túmulo de Cristo, que pode facilmente passar de 1h30. O local fica sob a Rotunda, parte mais majestosa da igreja e avistável de longe, reconstruída depois do incêndio de 1808. A tumba passou por dez meses de restauração recentemente, e foi reinaugurada em março deste ano. A Pedra da Unção teria sido usada para lavar o corpo antes do sepultamento, e é normal os fiéis levarem itens para serem benzidos ali. 

No Gólgota, o local da crucificação, um delicado altar grego-ortodoxo cheio de velas traz ainda mais emoção e intensidade à visitação. Talvez você passe batido pelo Monastério Etíope, habitado por monges daquele país. 

A entrada é franca e o movimento é intenso o dia todo (prefira as primeiras horas da manhã). Mas a qualquer hora você notará que cada cantinho revela o poder da fé cristã mundo afora. 

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O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 04h30

Como ir

Os voos internacionais desembarcam em Tel-Aviv, a 50 km de Jerusalém. De lá, você pode optar por ônibus ou vans que fazem o trajeto em 1 hora. O trem leva 2 horas e para mais distante do centro da cidade. 

Passaporte

Deve ter validade de 6 meses após a data da partida. Não perca o papel de entrada.

Segurança

Os procedimentos de segurança no aeroporto envolvem longas entrevistas. Tenha paciência. 

Sites

info.goisrael.com; itraveljerusalem.com.

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