Carlos Eduardo Entini/Estadão
Carlos Eduardo Entini/Estadão

Conheça Pigneto, um bairro de Roma para curtir como os romanos

A apenas três quilômetros da estação Termini, a região fica um pouco mais distante do centro, mas tem hospedagem mais barata e charme que encantou cineastas

Carlos Eduardo Entini, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2019 | 05h00

Dez dias de férias colados ao carnaval. Passagem para Roma comprada. Faltava a última decisão: onde ficar? Terceira viagem à capital italiana, será que já não era hora de arriscar um pouco e procurar outros locais? 

Apesar de ser um bairro “fora muros”, Pigneto (que significa bosque de pinheiros) está apenas a três quilômetros da estação Termini, a principal da cidade. A viagem de bonde (tram) não passa de 30 minutos e, por isso, acaba sendo uma boa opção para uma estadia mais barata. São duas linhas que saem de Termini em direção a Pigneto (5 e 14) e fazem uma linda e lenta viagem passando pela Porta Maggiore, erguida em 52 d.C.. O bairro também tem uma estação de metrô – Pigneto, linha C – com acesso muito bem localizado.

Destoando dos subúrbios romanos, com quarteirões planejados e avenidas largas preenchidas por prédios, Pigneto parece uma cidade do interior. Vielas e ruas de trajeto sinuoso e estreitas – que ficam ainda mais com o jeito anárquico all’Italiana de estacionar carros e motos. As casas não seguem um padrão arquitetônico.

A razão é que o bairro foi ocupado por migrantes vindo do sul da Itália após o final da Segunda Guerra Mundial em busca de trabalho, e construíram suas casas e pequenos prédios sem planejamento. Pigneto se desenvolveu de modo espontâneo, afirma o fotógrafo Dario Coletti, morador do bairro desde 2008. 

As opções de alojamento não são muitas, mas as que existem são simpáticas – casinhas e apartamentos a preço razoáveis, todos próximos do metrô.

Salve, simpatia

Desço do bonde ainda perdido, e pergunto ao primeiro romano que vejo onde fica o meu destino. Esperava um “vira ali”, depois um “siga em frente”, mas ele interrompe seu trajeto e pede para segui-lo um quarteirão acima. Me mostra detalhadamente para onde devo seguir. Eis o espírito de Pigneto me recebendo. 

Como toda Roma, Pigneto também tem queda pela arte. Foi no bairro que muitos diretores de cinema do neorrealismo italiano usaram suas ruas e personagens em seus filmes. Roberto Rossellini, Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Pierpaolo Pasolini foram alguns deles. O diretor mais lembrado no bairro é Passolini, que filmou Accattone (1961) num dos bares que existe até hoje, o Necci. 

Diversos grafites com sua imagem e poesias estão espalhados pelos muros e fachadas das casas de Pigneto. Hoje, o bairro é um museu a céu aberto, repleto de arte de rua – e atrai cada vez mais artistas e gente descolada. As comparações nunca são aconselháveis (nem exatas), mas Pigneto lembra muito a Vila Madalena antes do boom imobiliário. 

Durante o dia, o bairro é bucólico: moradores nas ruas fazem compras para o almoço no mercado municipal ou na feira, crianças vão à escola, passarinhos cantam. Após o pôr do sol, independentemente do dia da semana, Pigneto se transforma. Bares, restaurantes e enotecas começam abrir e os primeiros romanos chegam para tomar um aperitivo ou jantar. 

Os pratos mais encontrados são os tradicionais da região, como as massas à cacio e peppe, à carbonara e alla gricia. Para quem quer beliscar a solução são as clássicas frituras romanas (i friti), como os bolhinhos supplì, com diversos recheios, e os empanados com fiori de zucca e filé de bacalhau. Outra opção são as bruschettas. Vendidas em 'trio', cada casa tem uma receita além das clássicas com molho de tomate e aliche. 

Claro que não falta a pizza à romana. Grande, fina e crocante que se come com a mão após dobrá-la. Outro sucesso, para começar a noite, são os taglieri, tábuas de embutidos e queijos (também com versão vegetariana) que acompanham uma taça de vinho, cerveja ou coquetel à escolha (em média, 5 euros). 

Além de comida e bebida a preço justo, os bares e restaurantes de Pigneto guardam uma surpresa que foge do estereótipo do italiano e transformam a experiência mais prazerosa: o silêncio. Por ficarem numa região cercada de residências, há um acordo entre os frequentadores de evitarem o barulho. Música nem pensar. E o acordo funciona. 

Os bares e restaurantes se concentram em duas ruas separadas pela linha do trem e nas suas perpendiculares. A primeira é Via Braccio da Montone e a outra é a Via del Pigneto, que desde 2015 foi transformada em rua de pedestres e ficou conhecida como Isola Pedonale del Pigneto. 

A criação da Isola Pedonale foi fundamental para a mudança de ares do bairro. Pigneto, um bairro historicamente popular e operário desde o começo do século 20, conheceu o abandono após o fechamento das fábricas. A construção da Pedonale foi um grande incentivo, junto com melhorias na segurança, para reflorescimento do bairro boêmio que é hoje. 

No final das contas, conhecer Pigneto revelou-se uma ótima experiência. Não deixei de passear pela Roma clássica e ganhei a experiência de experimentar o cotidiano com os romanos. 

Onde ficar

Por não ser um bairro turístico, Pigneto não tem muitas opções de hotel. O mais estruturado é o Eurostars Roma Aeterna. Em compensação, a quantidade de B&B ou casas e apartamentos para locação é cada vez maior.

Onde comer

A vantagem de Pigneto é que em poucos quarteirões existe uma grande variedade de opções para fazer um lanche, jantar ou petiscar. E não só de comida italiana. Mas se a opção for por ela, procure restaurantes que fazem a massa, como o Necci e o Beliveat. E não deixe de provar a combinação de massa com molho de peixe ou frutos do mar, muito comum na cozinha romana e não tão familiar para nós.

A pizza mais simpática de Pigneto se encontra na Ciaksi Mangia. Além de oferecer uma pizza honesta (a partir de 6 euros) feita no forno à lenha e saborosa, o ambiente é muito agradável. Fotos e objetos de cinema decoram a casa e conta com simpatia da dona que atende a todos no salão. 

Perto da saída do metrô, o Burro Cream&Coffee (Circonvallazione Casilina 79) oferece ótimos cornetos e doces e é a opção para o café da manhã ou para abastecer o corpo de açúcar após a jornada. 

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