Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Connie e seus maus presságios

Preparando-se para uma viagem rumo à Ásia ao lado de sua raposinha, a adorável Trashie, nosso insuperável viajante respondeu à correspondência da semana

Mr. Miles, Estadão

08 Novembro 2016 | 04h00

Querido Mr. Miles: o senhor acredita em viajantes agourentos? Tenho uma amiga que, ao planejar suas férias, já imagina os piores cenários possíveis. Chuvas torrenciais. Problemas com conexão. Furtos. Passeios desastrosos. Mas o pior é que ela sempre consegue realizar seus piores presságios. Será possível que isso realmente aconteça?

Jandira Farid Torres, por e-mail

“Well, my dear, quem sou eu para aventurar-me pelo perigoso terreno das conjecturas paranormais? O que posso lhe asseverar, honey, é que, unfortunately, conheço, eu também, muitas pessoas que agem de maneira semelhante. Não resta dúvida de que esse tipo de atitude é produzida por uma mistura de incontrolável insegurança com enorme falta de bom senso. Estou entre os que creem que o ato de viajar é uma experiência dupla. In other words: a jornada começa com o sonho e os preparativos e realiza-se na prática. 

 É de uma estultície sem tamanho sonhar uma viagem ruim, porque, well, o sonho já se torna, antecipadamente, um pesadelo. Não importa se haverá o mais azul dos céus em uma ilha do Caribe se, de antemão, o agourento já o imaginou coberto de nuvens, com ventos de 200 quilômetros por hora arrancando o telhado de seu hotel. Ou seja: mesmo que os presságios não se realizem, a primeira parte da viagem estará comprometida. Don’t you agree?

Alguém me perguntará se eu não recomendaria a gente com essa mentalidade que optasse por ficar em casa… Never! Mr. Miles não deseja – nem mesmo aos pés-frios – que se recolham aos seus casulos. Besides, ainda que dê tudo errado mesmo durante a viagem, as chances de que o mesmo ocorra na própria casa do pessimista seriam rigorosamente iguais.

A propósito, darling, sei de muitas pessoas que, com o tempo, livraram-se dessa estranha compulsão. Minha amiga Connie, de Cardiff, chegou a ficar convencida de que o azar a acompanhava depois de alguns incidentes de viagem. In fact, não é comum ser vítima de um assalto à mão armada na Finlândia ou ficar ilhada por tempestades torrenciais em Luxor. Isso sem contar – poor girl – o dia em que apanhou uma shigelose em um restaurante três-estrelas do Guia Michelin. Connie, in fact, deveria aproveitar de seus maus presságios e transformá-los em profissão. Em certa ocasião, by the way, ela foi fazer um documentário sobre a longa estiagem no sertão da Paraíba. Mal pôde deixar as malas em uma pequena pensão e o céu começou a rugir com um ódio quase desconhecido. Durante a temporada de secas no interior do Nordeste, Connie fez chover em abundância, salvando as roças e os animais. Unfortunately, sem nenhum guarda-chuva à mão, ela ficou toda molhada e adquiriu uma rara pneumonia. 

Hoje, depois de algum tratamento xamânico na América Central, Connie não hesita em escalar as paredes do Yosemite Park, na Califórnia. Não é preciso dizer, however, que ela ainda vive preocupada quanto à possibilidade de a parede rochosa despencar, ainda que esteja por lá há milhões de anos.

 Há outros, however, que continuam levando nuvens negras para onde quer que se dirijam – e o melhor que posso fazer é evitar viajar na companhia deles. Nevertheless, não se pode esquecer das pessoas positivas que agem de maneira exatamente oposta. Meu amigo brasileiro Palhares, for instance. Não importa qual seja sua próxima viagem: ele tem certeza de que ela sempre dará certo. Palhares jura que já foi capaz de interromper o período das Monções, na Índia e, eu mesmo presenciei quando ele passou quinze dias nas Highlands, seguindo a trilha do whisky. Em toda a história da meteorologia britânica, foram as únicas duas semanas seguidas de estiagem em Inverness e adjacências. Com Palhares, of course, eu viajo. 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

 

 

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