Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Consórcios para viajar valem a pena? Veja como funcionam

Cartas de crédito podem ser usadas para comprar viagens à vista e aplicativos apostam em plataformas com passagens aéreas e hotéis

Nathalia Molina, Especial para o Estado

26 de outubro de 2020 | 05h00

Você vai pedir para viagem? O delivery, que deu a tônica da pandemia, ganhou sentido literal. Aplicativos como o Rappi lançaram áreas para a venda de passagens e hospedagem. Acompanhando a tendência de serviços de turismo oferecidos por empresas de fora desse segmento, consórcios também resolveram atrair viajantes. Em um dos setores mais afetados no mundo com a covid-19 – no Brasil, a retomada do turismo doméstico é prevista para 2021 e das viagens internacionais apenas para 2022 –, essas empresas veem oportunidade de negócio com a demanda reprimida.

Geralmente lembrado como opção para a compra de carros, motos ou imóveis, o consórcio começou a ser divulgado depois da pandemia como uma alternativa para planejamento de viagens. O Consórcio Magalu, que vende planos de serviço desde 2009, lançou uma área no site dedicada a viagens em 5 de outubro. “Nós acreditamos que haverá uma demanda represada de pessoas que queriam viajar e não puderam por conta da pandemia, e o fato de terem uma carta de crédito, em que o cliente não precisa definir data nem local para sua viagem, faz toda diferença neste cenário ainda incerto”, afirma Edvaldo Ferraro, gerente comercial do Consórcio Magalu.

A iniciativa Viaja Brasil Consórcios, parceria da administradora Embracon e da Voetur Operadora, foi lançada no fim de setembro. “O turismo, como todos os segmentos, se reinventou. Embora estejamos cuidando de nós e do próximo, nossos sonhos não precisam parar. O Viaja Brasil Consórcios vem ao encontro dessa tendência, pois possibilita que nossos clientes se programem para viajar quando se sentirem seguros, pagando valores acessíveis, sem cobrança de juros, com planos de até 48 meses”, diz Rogério Pereira, diretor de Parcerias da Embracon.

O perfil do Viaja Brasil no Instagram investe nos agentes de viagens como parceiros de vendas. “O consorciado terá sempre a liberdade de utilizar sua carta contemplada onde e como achar mais interessante. No entanto, temos incentivado nossos parceiros a trabalharem na fidelização de seus clientes, de modo que, após contemplados, a agência vendedora da cota seja sua primeira opção para compra da viagem.” Na Voetur Operadora, os destinos nacionais mais procurados atualmente, pela ordem, são: Natal, Maceió, Fortaleza, Porto de Galinhas (PE) e Gramado (RS).

“Com a pandemia do novo coronavírus, diversos produtos voltaram ao mercado, como o setor de turismo. Os nichos foram reativados e as parcerias tiveram suas estratégias reiniciadas”, afirma Paulo Roberto Rossi, presidente executivo da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac).

Apps investem em produtos turísticos

Novos produtos de viagem vêm aparecendo também entre aplicativos de fora do setor. O banco digital Inter vende pelo app, desde 14 de outubro, bilhetes da Latam, da Gol e da Azul, entre investimentos financeiros e seguros de vida, seus produtos clássicos. “Nosso plano é acrescentar cada vez mais serviços. No futuro, pretendemos vender hotéis, locação de automóveis, viagens terrestres e atividades diretamente no app”, afirma Rodrigo Gouveia, CEO do Inter Marketplace. “Esse segmento é muito importante. Queremos estar prontos para a retomada. Nos posicionamos como uma opção vantajosa para os clientes terem uma experiência fluida de compra e economizarem com ofertas e cashback.”

O Inter devolve ao cliente 3% do valor pago em passagens – a promoção ainda não tem data prevista para acabar, mas o banco digital garante que o cashback sempre será de pelo menos 1%. Já no Rappi Travel, os viajantes ganham 20% do que gastarem em viagens nos três primeiros meses de funcionamento da nova área.

Na nova área do Rappi, os viajantes podem garantir passagens de avião ou ônibus, além de aluguel de veículo pela Unidas e hospedagem em 30 parceiros, caso de sites de reserva como Expedia e redes hoteleiras como Atlantica, Bourbon, GJP e Wyndham. Bilhete aéreo é o produto mais vendido, seguido de hotel e passagem de ônibus. Rio de Janeiro e São Paulo fazem sucesso em aéreo e hospedagem. Duas capitais do Nordeste também aparecem entre as mais procuradas: Natal em passagens de avião e Fortaleza em hotéis.

“O Brasil é um dos nossos maiores mercados na América Latina. As opções de viagem ao exterior estão disponíveis, mas incentivamos bastante o turismo local como uma maneira de ajudar a movimentar a economia do País”, diz Sérgio Saraiva, presidente do Rappi no Brasil.  “Continuamos acompanhando o comportamento do nosso consumidor para aprimorar e aumentar a cartela de opções. O Rappi Travel também conta com parceiros de programas de pontos, como Livelo, TudoAzul e Dotz.”

O botão dedicado à venda de produtos de turismo foi lançado aqui, no México e na Colômbia. No mês de pré-lançamento do Rappi Travel, nos três países, foram realizadas 1,5 mil vendas. Segundo os dois apps, não há cobrança de taxa pelas operações. O consumidor paga apenas o valor do produto e, por enquanto, tem cashback nas compras de turismo. “Oferecemos essa vantagem para estimular nossos usuários a aproveitarem todos os serviços e produtos, podendo centralizar as compras em uma só plataforma”, diz Saraiva.

Para Marcio Pochmann, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a pandemia agilizou o processo de digitalização já em andamento. “Há algum tempo, você tinha um comércio concentrado no centro da cidade. Depois, nos anos 70, vieram os shopping centers, com tudo ali. O que estamos vendo agora não é físico, com mais possibilidades de diversificar as atividades a um baixo custo, pois a operação já existe, e de fidelizar o cliente oferecendo algo mais.”

Para o viajante, segue valendo a máxima de pesquisar com antecedência, evitando compras por impulso, tanto para aplicativos quanto para consórcios. “Dada a instabilidade da vida, a gente não trabalha muito com planejamento. Mas as decisões feitas antecipadamente significam custos menores”, diz Pochmann.

Vale a pena usar um consórcio para viajar? Entenda

O que é um consórcio?

Na definição da Abac, é “a modalidade de compra baseada na união de pessoas – físicas ou jurídicas – em grupos, com a finalidade de formar poupança para a aquisição de bens móveis, imóveis ou serviços”. Quem cria esses grupos é uma empresa administradora de consórcios, autorizada e fiscalizada pelo Banco Central. A categoria de plano que pode ser usado para viajar se chama consórcio de serviços.

Como se recebe a viagem?

Consórcios realizam assembleias para contemplar os ganhadores de cada mês por meio de sorteio de vencedor e também análise de lances de quem queira antecipar seu prêmio. O sorteio define apenas a ordem em que os prêmios serão distribuídos porque todos os participantes vão receber até a data limite definida como fim do plano do consórcio.

Como funciona o lance?

O participante oferece o pagamento antecipado de prestações. A administradora analisa a quantidade de caixa disponível no grupo e decide se é possível antecipar prêmio para lances, priorizando quem ofereceu pagar o maior número de parcelas.

O que é uma carta de crédito?

É o nome dado a um documento emitido pela administradora do consórcio para que o participante contemplado possa ir a uma empresa para solicitar seu prêmio. No caso de viagem, pode escolher um pacote ou serviço em uma agência e usar a carta de crédito para pagar por ele. Dica importante para economizar, dada por Rossi, da Abac: “Carta de crédito na mão significa pagamento à vista, bem como poder de compra pelo consorciado, a situação que permite negociação e obtenção de descontos”.

Quanto custa o consórcio?

No Viaja Brasil, um plano de 18 meses para carta de R$ 14 mil tem parcelas mensais estimadas em R$ 926,37. O plano mais em conta do Magalu é o de R$ 9 mil, com pagamento em até 60 meses, de parcelas de R$ 181,81.

Vale o consórcio para viajar?

Como instrumento de planejamento, é útil. “A ideia do consórcio ganhou importância especialmente para um segmento da sociedade que sente a necessidade de ser forçado a uma poupança”, explica Pochmann, professor da Unicamp. Mas o consumidor deve perguntar quanto paga de taxa de administração e de fundo de reserva, que podem custar em torno de 20% juntos.

 

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