Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Constrangimento de viagem: quando viajar vira 'mau exemplo'

Depois que o mundo entrou em quarentena, viajar deixou de ser algo para se gabar para se transformar em possível comportamento de risco

Natalie B. Compton, The Washington Post

08 de setembro de 2020 | 07h00

A pandemia deu início a uma nova era de constrangimento. As pessoas são constrangidas por usarem máscaras e por não as usarem; são constrangidas por não observar o distanciamento social; e até por causa do vírus, quando alguém é criticado por contrair o coronavírus.

Agora temos o constrangimento de viagem (ou travel shaming, em inglês).

Antes do coronavírus, o turismo era uma moeda social. Perguntávamos aos amigos e aos novos conhecidos (lembra de quando era possível conhecer pessoas novas?) onde eles já tinham estado e quais lugares gostariam de visitar. Na época, o único constrangimento associado às viagens se referia àqueles de quem se caçoava por não terem viajado o bastante. As pessoas compartilhavam suas experiências de viagem com orgulho, como medalhas.

Depois que o mundo entrou em quarentena e voos foram cancelados, com aeroportos e fronteiras fechados, o status social do turismo mudou. Viajantes começaram a enfrentar as reações de quem acredita que esses deslocamentos durante a pandemia colocam todos em risco.

Diferentemente de outras formas de constrangimento ligadas ao coronavírus, o constrangimento do turista não leva ao “cancelamento" de ninguém. Ele se manifesta discretamente nas mensagens trocadas ou em manifestações de agressividade passiva nas redes sociais.

Matt Long, que mantém um blog e um podcast de turismo em Upper Marlboro, Maryland, fez várias viagens desde o início do relaxamento das restrições causadas pelo coronavírus nos Estados Unidos.

“Em cada uma, fui alvo de algum tipo de constrangimento social", diz Long.

Sua primeira viagem foi durante o feriado do Memorial Day. Long foi de carro até o Nemacolin Woodlands Resort, propriedade de 8 quilômetros quadrados em Farmington, Pensilvânia, onde passou dois dias. Ainda que todos os comentários em suas publicações nas redes sociais tenham sido positivos, Long ficou surpreso com as mensagens ressentidas que recebeu dos amigos.

“Eles disseram, ‘Faz dois meses que não chego nem à calçada, e você aí passeando. Minha filha não pode ir à aula de natação, mas você vai curtir um resort. Não é justo’", diz Long.

Mas a maior polêmica começou com sua viagem à Disney World em agosto. Foi uma situação de lazer e trabalho, como esse reconhecido fã da Disney relataria em seu blog e podcast.

“Muitos me criticaram dizendo, ‘Não acredito que você está indo para a Flórida bem agora’", diz Long. “Tive parentes lá (na Flórida) que não gostaram do que fiz e não queriam a visita de ninguém de fora do Estado, pois tinham a sensação de estarem literalmente lutando por suas vidas, e a última coisa que precisam era de forasteiros de outros Estados piorando ainda mais as coisas."

Foi esse sentimento que levou Lola Méndez, americana de origem uruguaia que escreve a respeito de turismo, a deixar de viajar com o começo da pandemia, a primeira pausa em cinco anos de viagens constantes.

 

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Eu jamais poderia viver sabendo que alguém adoeceu e morreu por minha causa
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Lola Mendes, jornalista de turismo

Lola se sentiu frustrada ao ver jornalistas da área e influenciadores retomando os deslocamentos. Quando alguém pede conselhos de viagem a Lola, ela tenta responder com dicas pessoais, e em vez disso envia artigos publicados nesses destinos com citações de moradores locais pedindo aos turistas que não venham.

“Realmente fiquei irritada com isso e fiz comentários críticos no Instagram e no Twitter explicando por que considero isso uma irresponsabilidade, e tudo aquilo que devemos ter em mente antes de tomar a decisão de viajar a lazer", diz Lola.

A professora de psicologia June Tangney, da Universidade George Mason, autora de Shame and Guilt  (Vergonha e Culpa), diz que é natural o desejo de constranger alguém por viajar durante a pandemia. Entretanto, June não acredita que o constrangimento do turista tenha o impacto que as pessoas esperam.

 

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Constranger quem não segue as regras ou fazer com que essas pessoas se sintam culpadas é produtivo ou contraproducente? Me parece claro que o resultado é contraproducente
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June Tangney, professora de psicologia

Ainda que June diga não haver estudos empíricos a respeito do tema, todos os dados que ela já viu a respeito do constrangimento indicam que o resultado é fazer com que as pessoas fiquem defensivas, irritadas, ou joguem a culpa nos outros.

“É natural ficar irritado com as pessoas por causa disso, ficar ressentido e querer que elas se sintam mal com aquilo", diz June. “Mas usar o constrangimento para que se sintam mal não ajuda."

June diz que há outra forma de influenciar o comportamento de risco de uma pessoa: tente “incentivar as pessoas a pensar no seu impacto para as demais de uma forma que as incentive a serem mais cuidadosas em vez de repreendê-las e esperar que se redimam", diz ela.

O medo da culpa ou da vergonha pode manter algumas pessoas em casa ou fazer com que escondam suas viagens. Mas algumas celebridades expõem tudo nas redes sociais.

Foi o caso do rapper Drake, visto em Barbados em julho; do ator Timothée Chalamet, visto no México em junho; e Kylie Jenner, que publicou fotos de si sem máscara em Paris essa semana, mesmo com a proibição a turistas americanos em vigor na UE. E a lista continua.

O constrangimento por viajar não funcionou com Long, que não tem vergonha de suas viagens, embora tenha reduzido as publicações que faz pelo caminho.

“Diminui o quanto compartilho", diz ele a respeito da mais recente viagem à Disney World. “Normalmente, minhas redes são uma avalanche de Mickeys, mas, dessa vez, fui mais contido."

Depois de voltar da Disney, ele passou duas semanas de quarentena e fez testes para detectar o coronavírus. Long acredita que está tomando as precauções adequadas para viajar com segurança e se enxerga como alguém que pode aliviar o constrangimento alheio ao normalizar a ideia de viajar novamente.

“Se formos cuidadosos e não expusermos ninguém a um risco desnecessário, pessoalmente não vejo problema (em viajar)”, diz Long. “Mas, pelo futuro próximo, acho que esse constrangimento de viagem será uma realidade.”

Tradução de Augusto Calil 

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