Conto de fadas sem vilão

Parece pintura: castelos

ELISA MALA / SINTRA , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2014 | 02h07

cercados pela mata dão ar medieval à

cidade, a apenas 30 minutos de trem

desde Lisboa

A principal atração da Quinta da Regaleira está sob a terra: o Poço Iniciático, torre invertida que mergulha no terreno, com uma escada em espiral incrustada

nas paredes.

Crianças transformadas em exploradores de cavernas investigavam

o local com lanternas na

cabeça, mais por curtição que por

necessidade

Austero e cinzento em todas suas paredes de calcário e granito, o Castelo dos Mouros foi feito para não ser invadido. Uma caminhada de 15 minutos por um caminho pitoresco leva ao portão principal. Lá dentro, percorra as muralhas - são apenas 400 metros, sem exigir muito do visitante

A mistura de cores e torres do Palácio da Pena produz uma sensação de 'Alice no País das Maravilhas' que

arquitetos atribuem ao romantismo do século 19. Na era do 'selfie', três locais eram disputados: a gárgula da entrada, o cenário das montanhas entre arcos e os vitrais da capela

Combinando influências

góticas, indianas e mouriscas, o Palácio de Monserrate começa sua história no

século 18. O jardim, com plantas do mundo todo,

é da mesma época

Pouco importa como ele começa ou termina; todo conto de fadas tem um vilão. Em minha aventura particular em Sintra, a 32 quilômetros de Lisboa, vilões foram os ponteiros do relógio. Perambulando pelos terrenos impecáveis de castelos no cume dos montes, eu queria que o tempo parasse.

Bastaram 53 minutos para recuar vários séculos. O trem que saiu da estação de Rossio, em Lisboa, estava carregado de distrações da era moderna. Em meio a um enxame de ternos bem passados e carrinhos de bebê, pareceu-me promissor ser a única passageira com um saco de dormir e sem preocupações, livre para trocar subúrbios e rotina enfadonha pelo fim da linha.

Mas foi só depois de passar pela penúltima parada que o cenário começou a parecer fantástico. Olhando pela janela em devaneio, o nariz colado contra o vidro, me maravilhava com o turbilhão de cores que passava voando para trás: conjuntos de apartamentos cinzentos mudando para casas em tons pastéis até serem substituídas por renques desordenados de árvores atarracadas.

Quando desci do trem, todos os indícios de Lisboa haviam desaparecido. Fui recebida pelas marcas registradas do pitoresco: um punhado de restaurantes e lojas familiares, ruas agradavelmente sonolentas e um relógio de rua ancestral. Apesar da cena, não pude deixar de olhar à distância, reconhecendo as ladeiras íngremes e a explosão de verde exibidas nos cartões-postais do local.

Durante séculos, Sintra foi o refúgio favorito da família real portuguesa. A curta distância do centro político e econômico que era Lisboa, as encostas verdejantes proporcionavam à aristocracia um refúgio calmo e arejado do ar citadino. Segundo o folclore local, o tempo inclemente obrigou Cristóvão Colombo, em uma de suas desventurosas navegações menos conhecidas, a ancorar perto dali antes de prosseguir a Lisboa.

Mas foi só quando Fernando II, rei de Portugal, chegou, em meados do século 19, e construiu uma refinada casa de campo que toda a região se tornou digna de seu atual status de Patrimônio Mundial da Unesco, com vastas construções que exibem um milênio de influências arquitetônicas. Sintra continua sendo uma joia da coroa entre as regiões portuguesas, mas dois grandes desenvolvimentos ampliaram seu atrativo para visitantes estrangeiros.

Vários hotéis novos aumentaram as opções de alojamento num lugar onde as vagas somem na alta temporada. E 2012 viu o retorno de um serviço de bonde de verão com duração de 45 minutos ( 2, na ida e na volta) de Sintra à Praia das Macas, uma cidade de veraneio nascente com penhascos íngremes que dão para as charmosas praias de areias brancas da costa ocidental portuguesa.

A mera vista da vegetação de Sintra basta para compreender por que Lord Byron a descreveu como "glorioso Eden". Florestas se estendem em todas as direções. A folhagem envolve cada superfície, das pedras cobertas de musgo a trepadeiras sinuosas. Raízes grossas de árvores tombadas apontam para o céu, e brotos espinhosos irrompem das minúsculas fissuras das paredes de pedra. A vegetação luxuriante nos envolve numa espécie de mundo místico.

Pouco depois de minha chegada, num cálido anoitecer de junho, saí para explorar a área a pé. Uma serena caminhada ao pôr do sol, passando por meia dúzia de estátuas e esculturas ornamentais - parte de um projeto de arte pública reminiscente de um vasto jardim privado (as obras de arte mudam a cada ano). Os castelos circundantes reluziam no escuro, iluminados por holofotes coloridos.

Na Adega das Caves, no centro, combinei a especialidade local, queijada de Sintra - pastel doce de recheio similar ao cheesecake - com ginjinha. Me senti segura ao voltar para a pousada, por volta da meia-noite, apesar das calçadas vazias, ladeadas por parques vazios.

Na manhã seguinte, despertei no Sintra Bliss Hotel ao som dos cascos dos cavalos de uma carruagem martelando do lado de fora da minha janela. Mas a corrida naquele dia seria de ônibus. Saí do escritório de turismo com um pacote de mapas e um passe multilocal (a partir de 25) e escolhi um dos três itinerários que percorrem as principais atrações ( 2).

Domínio de cavaleiros. Em razão da geografia de Sintra, um bom ponto de partida é o Castelo dos Mouros, do século 8º, resquício do domínio árabe e a construção mais antiga da área. Os cavaleiros de antanho ganhavam seus tostões permanecendo vigilantes - agachando-se para caber nas passagens baixas e subindo na ponta dos pés os pequeninos degraus na escalada para as torres. Hoje, os únicos inimigos são as nuvens de chuva. Parada em pontos estratégicos, pude imaginar o orgulho de guardar o reino. Os panoramas mais memoráveis foram do Palácio Nacional da Pena, antiga residência de verão da família real portuguesa.

De volta ao centro da cidade, cheguei ao Palácio Nacional de Sintra pouco antes da última entrada, às 18h30. Seu exterior branco desbotado se contradiz com as salas mobiliadas com peças antigas e tetos de ladrilho colorido. Mais deslumbrantes são os azulejos brancos com pinturas de cenas históricas em azul.

O melhor estava por vir. A parada final de meu tour real foi uma que todo morador de Sintra com quem falei disse que eu não podia perder: a Quinta da Regaleira, propriedade com parque murado estabelecida por barões comerciais do século 19.

Para qualquer lado que eu fosse, as características naturais do parque traziam surpresas: quedas d'água admiráveis, grutas serenas, um labirinto de túneis. Apesar de menores que o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena, as construções dali - palácio romântico, capela e pérgula - eram luxuosas.

Apesar de tudo que eu havia visto, ainda restava mais: o Palácio de Monserrate, cor de goma de mascar, o Palácio Real de Queluz, o contemplativo Convento dos Capuchos, para não mencionar o bonde charmosamente kitsch que podia me levar chispando para a praia à beira do Atlântico.

A felicidade não poderia durar para sempre, porém. O adeus foi anticlimático; sem carruagens nem fadas madrinhas, apenas um táxi para a estação ferroviária guiado por um morador local impecavelmente polido que apontou para a casa onde havia nascido. Mas depois de dias brincando de princesa - e uma princesa aventurosa e independente, diga-se - o retorno ao mundo real trouxe a promessa de uma nova aventura. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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